O que tem a dor do outro contigo? Logo pela manhã você quase sente pena de si mesmo ao se dar conta de que dormiu e acordou com as mesmíssimas dores. Nesse quase, você também quase se vitimiza, fosse a consciência social de 820 milhões de pessoas no mundo não têm o que comer; que hospital de queimaduras há um homem que caiu sentado num tacho escaldante de sabão; que durante os 40 segundos em que você tateava mentalmente os seus inúmeros pontos de dores física e emocionais, alguém atormentado por íntimas razões optou pela morte autoinfligida… E a lista de sofrimentos alheios vai se ramificando conforme você pensa nela. E você começa a sentir vergonha de sofrer. Assim, você toma aquela postura de se obrigar a ser grato, de levantar sorrindo e praticando a positividade à torta e à direita… Você teimosamente vence mais um dia para ter coragem de vencer mais uma noite. Mas o que tem a dor do outro contigo? A dor do outro – mesmo que você queira – não pode ser sentida senão pelo outro. Igualmente a sua dor, é só sua, ninguém poderá senti-la por você. Só você sabe quantos cingidos há nos seus vestidos. Só você sabe quantos furos você tem feito no seu cinto. O fato de ter alguém vivenciando dores piores do que as suas, não torna as suas dores irrelevantes… A consciência de que existem pessoas com alto grau de tolerância ao sofrimento, não faz de você uma pessoa fraca e incapaz de se superar. Vivencie a sua dor, vivencie os sintomas da sua grande causa. Deixe o ciclo fechar. Deixe a porta bater atrás de si e, depois, vá percorrer aquele ato corajoso que é seguir em frente apesar de tudo. Pois viver apesar da angústia, não é pior do que morrer angustiado.

Texto da escritora, psicanalista e pesquisadora Clara Dawn

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Clara Dawn
Escritora, psicanalista, especialista em "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência" e autora de 7 livros publicados.