A serenidade é aquela coisa poderosa que abala rígidas estruturas

A serenidade é aquela coisa poderosa que abala rígidas estruturas

Eu tenho tentado não ter pressa de coisa alguma. Não mais. Já não tenho planos além deste: a serenidade. O que vier, como vier, assim será. Sigo sem atropelos, tampouco malabares na contramão. Apenas sigo em frente. Vou sem voo. Pés firmes, cabeça leve, coração trotando mansamente por pradarias. E, se me aprouver, no que há de vir, quando a morte chegar, desejo que me encontre serena como um buda.

Nós somos como o rio. Um rio nunca é o mesmo. A cada instante, ele é outro. É preciso fazer registros das passagens do rio, com o intuito de analisar quão finamente as pedras foram lapidadas enquanto, com violenta pressa, o rio titubeava entre barrancos, ignorando o nascer e o pôr do sol, levando consigo toda a m(á)gua que fora obrigado a engolir durante tempestades, arrastando com sofreguidão o lixo tóxico que lhe fora atirado e, como não poderia ser diferente, também o lixo tóxico que espalhou. “É preciso alcançar a serenidade das profundezas do oceano para suportar todo o peso de um dia ter sido um rio” .

Serenidade é aquela coisa que abala as mais rígidas estruturas mentais e emocionais. A serenidade não é feita de egoísmo, nem de narcisismo. É o saber continuado do amor-próprio. É a afirmação de uma magia praticável, a atenção desperta aos morangos que surgem à beira dos abismos. A serenidade é o segredo do riso fácil. Faz bem às saúdes física, mental e emocional. A serenidade embeleza, vitaliza e perfuma. Abençoada seja a serenidade, que deixa a minha alma em paz.

Texto de autoria da escritora, neuropsicopedagoga e psicanalista Clara Dawn.