Escritora Clara Dawn

"Você deve ser a primeira em Goiás a escrever uma crônica com a natureza poética da crônica: liguagem e metaliguagem" - Gilberto Mendonça Teles

Clara Dawn - Alethéia

Autora do romance Alethéia, considerado pelos escritores Edival Lourenço e Valdivino Braz, como a revelação de um novo estilo na literatura goiana.

Clara Dawn aos olhos de Reynaldo Jardim:

" A jovialidade adulta de seu texto criativo revela uma escritora que causaria inveja a Clarice Lispector..." Reynaldo Jardim

Clara Dawn Escritora

“Não se gosta do que Clara escreve apenas por afinidades ou belos escritos. Há uma lógica inserida na beleza e Clara consegue nos passar isto de uma maneira indolor e - que coisa?! - prazerosa.” Odilon Carlos

Palavras de Clara Dawn:

"Mas, o que é a vida senão polinômios que temos de resolver diáriamente: eu, posso até acertar o desenvolvimento, mas na maioria das vezes, erro o resultado..." Clara Dawn

BEM VINDO! ESTE SITE É ALIMENTADO PELO CLUBE DE FÃS DA ESCRITORA CLARA DAWN e reconhecido por ela como oficial. Visite também o blog, onde vários fãs espalhados pelo mundo, declaram sua simpatia por Clara Dawn
http://claradawnfaclube.blogspot.com

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Resposta à “A casa dos postigos verdes”

A casa material dos postigos verdes fica no leste de Piracanjuba – Goiás: ali, diz a lenda, é o lugar mais bonito do mundo. A casa dos postigos verdes habita o Vale de Quimeras, onde o que não é verde, é furta-cor.
            
No Vale de Quimeras há um pássaro muito pequeno, o Fim-Fim, que veio fazer seu ninho no tronco de uma palmeira... Aquela que fica em frente à mesa da varanda. Todas as manhãs, antes de comer, o Fim-Fim traz à sua amada um novo cobertor de capim. Não posso mensurar a importância desse gesto para a dona Fim-Fim. Não para ela, mas para o gato Kiko é de enlouquecer.
            
O gato Kiko não serve para nada. Está parrudo e frouxo – diz o amado,  na tentativa de demover o felino da sua incapacidade de escalar palmeiras. O Fim-Fim, com sua plumagem azul-petróleo que emoldura  seu peito amarelo, num voo furtivo, cantarolando, agradece a covardia do Kiko.
            
No Vale de Quimeras há lagos, e eles estão repletos de peixinhos e peixões... Mas qual!, a pescaria está proibida por tempo indeterminado, porque no Vale de Quimeras os peixes têm nomes: Bonnie e Clyde são ‘o casal vinte’ do lago dos pirarucus. Eu não ficarei surpresa se, daqui  um ano, tivermos que comprar lambaris para alimentar o casal de gigantes.
            
A vida no Vale é sempre igual. Igual de um jeito bom: esta semana, mais uma vez,  o cão pastor, Masái, vitimou um frango raquítico e a cadela basset, que só estava olhando, levou a culpa. A culpa sempre é da Fadinha, coitada; os cupins destruíram a parreira e o ipê amarelinho; a vaca Brigite  deu à luz um bezerro Nelore, mas fora inseminada por Girolando... Eita, Brigite, você pulou a cerca? O galo Chanteclair – bonito – bonito – bonito está sob a ameaça de virar caldo – ‘galo que não gala não é galo’. Quem disse?
            
O caseiro pediu demissão para fazer politica, vê se pode, mas tão logo viu outro caseiro segurar a tetas da rebelde vaca Mimosa, reiterou. Achei graça porque a Mimosa não gostou nada de ser manejada por outro... Nem ração quis comer; logo, leite não deu. O pomar está transbordando mexericas engraçadas: para cada uma, há um periquito a lhe sugar o néctar. E o gato Kiko? Apareceu com uma gata parida que deixou os seus cinco filhotes atrás da geladeira e depois partiu para sempre. Para sempre até o próximo cio.
            
Na casa dos postigos verdes, há um caos, sonoro, fenomenal. Acontece sempre na hora quinze em tardes de muito calor: pássaros-pretos, araras, pica-paus, curicacas, seriemas e bem-te-vis formam uma orquestra multíssona de endoidecer até Beethoven. Nessa hora, melhor mesmo é deitar na rede e reler O Cachorro de Palha ou A Origem das Espécies... Um pouco de Manoel de Barros, talvez, ou  o jornal de ontem;  ou nada disso, pois coisa boa, mesmo, é andar na área de reflorestamento e benzer com o sorriso os brotinhos que ressurgem depois do ataque das Cabeçudas.
            
Esse é o campo material do Vale de Quimeras e todas essas coisas e seres comungam numa sintonia diáfana e singular com a imaterial Casa dos Postigos Verdes, e todo esse texto e o seu contexto e seu extratexto se harmonizam de um modo indelével com o meu amado e eu.
           
Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás 30/06/2014            
              

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Felizes vinte anos, para sempre, meu filho!

Diário da Manhã - DM Revista em 23/06/14
Meu querido Arthur, esta é a primeira vez em que eu lhe escrevo, de um modo direto, desde que você partiu. É que está chegando o dia do seu aniversário, 26 de junho, e eu quero lhe prestar uma homenagem, como sempre o fiz desde que você nasceu. Mas este ano não será um café da manhã na cama repleto de guloseimas e um presente oxidável. 

Este ano não vou repetir os chavões de bençãos e orgulho; não vou chorar no seu abraço porque você estaria ficando mais velho e logo sairia de casa; não vou comprar-lhe um celular ‘irado’ ou qualquer outra parafernália eletrônica que lhe prenderia um pouco mais dentro de casa; não vamos passear pelas ruas de Goiânia, à toa, à toa, e depois sentarmos num lugar qualquer para rir de quem vive à toa pela cidade...

Este ano não vamos assistir filmes a noite inteira e largar, no chão da sala, a caixa de pizza;  também não  haverá sermões intermináveis, na hora do almoço, sobre compromisso social, honra, bom exemplo, futuro, sexo, drogas e blá, blá, blá... 

Não. Este ano não há uma única coisa que eu possa lhe ensinar, porque desta vez a aprendiz sou eu. Benevolência. Benevolência foi o que você me ensinou. Uma benevolência tamanha que se transborda de mim e, só por isso,  hoje eu vou chorar. Não é de tristeza, meu filho, é de benevolência...

A sua indelével bondade para com o grande mal que lhe aconteceu. Inesquecível: i – nes – que – cí – vel. Inesquecível o seu olhar  terno diante de tanta, tanta, tanta dor: resignado... longânimo. Jamais esquecerei de toda a benevolência expressa em seu olhar, no último dia em que nos vimos, quando você, com suas asas de anjo, me ergueu do chão num último abraço. Ao me lembrar disso tenho vontade de outra vez abraçar você e pedir que fique um pouco mais, porque no dia 26 de junho de 1993, ao nascer você, nascia eu. 

Sabe, meu filho: meu melhor amigo, meu parceiro de gargalhadas, meu primogênito;  este ano eu só quero agradecer. Agradecer a Deus por ter escolhido a mim para ser sua mãe e permitir que você vivesse vinte anos ao meu lado. Agradecer  pelo privilégio de ter convivido com você todos os dias; por você dividir comigo os seus sonhos; os seus poemas; os seus sorrisos; a primeira batida do seu coração, o primeiro soluço, a primeira refeição, a sua infância; a sua primeira palavra; o primeiro dente a nascer e o primeiro a cair; a construção da sua primeira pipa; a primeira pedalada de bicicleta; a primeira fase de Super Mário World; a primeira vitória no Karatê; o primeiro beijo, o primeiro 10 com estrelinhas e a primeira nota vermelha...

Obrigada pela grande lição de bondade para com os erros do outro; bondade para com os próprios erros, pois viver é, como nos ensinou Freud, um processo mental muito doloroso e é preciso ter compreensão e magnitude para com aqueles que se refugiam em ilusões. Porque conviver é mais difícil do que viver... é mais difícil lidar com vida do que com a morte. Então, é com benevolência que eu perdoo você. Perdoa-me, com benevolência também, e felizes 20 anos, para sempre, meu filho.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O Brasil em Status Quo ou Os gonzos da Terra não giram este país?

Publicado no jornal Diário da Manhã DMRevista Go/Go em 16/06/2014
Estou aqui na vivência de um blackout criativo. Cansada demais para pensar outro pensamento senão aquele único que me acorda e me adormece... É tão comum, quando se diz que está sem inspiração, alguém sugerir que a gente escreva exatamente sobre isso. Pode acontecer de a falta de inspiração inspirar,  como aconteceu a Sabino, uma “A Última Crônica”. Ai, quem me dera! A crônica, dizem, é um gênero narrativo atual e não fictício sobre coisas, pessoas, lugares, situações, educação, política e blá, blá, blá. Olhando por esse prisma, eu não sou cronista. A realidade é quadrada demais. Gosto de pensar que sou uma escritora oblíqua. E, acredite, há um céu para os oblíquos. Atual e não fictício: 2014; Copa no Brasil; Corrupção; Manifestos; Violência; Discriminação Racial; ENEM sem Vestibular; e são tantos Gols sofridos... Sofriiiiiidos que, oh, Céus!, dá vontade de chorar. 

É tão presente o nosso passado que eu nem preciso escrever sobre nenhuma dessas coisas. Quer ler algo muito atual sobre a situação política do Brasil? Leia Stanislaw Ponte Preta; quer ler sobre o que rola de novo no futebol? Leia Nelson Rodrigues; quer ler sobre o cotidiano banal, simples e belo? Leia Rubem Braga. É que os gonzos da Terra não giram o Brasil, por isso ‘tudo permanece como dantes no quartel de Abrantes’ e também aqui em nosso status quo.

Não quero regurgitar toda essa comida que está sobre a mesa e com isso incitar uma pitada a mais de desesperança e revolta a esse povo vivaz e altruísta de alma amarelinha. Há tanto engodo na política brasileira que, no afã de continuarmos acreditando, pela simples razão de continuar acreditando, seremos tantas vezes e deliberadamente logrados. 

Olha só onde a minha falta de inspiração, para escrever neuroses transversais, me trouxe e, que pena!, também não sou capaz de fazer girar, no sentido horário, este nosso país com a minha narrativa provinciana; e se eu pudesse daria uns piparotes, agora mesmo, em Voltaire, por causa de seu otimismo panglossiano que diz que vivemos no melhor dos mundos possíveis. 

Sou a favor da abolição dessa política corrupta que se apresenta aqui. Mas se uma guerra somente é combatida com outra guerra; se para acabar com os lobbies e com os lobos deste país for preciso apelar para garras, presas, pulos e ataques, que assim seja. Porque, na verdade, não é estranho concluir que o objeto de desejo da guerra é a paz? Não é terrível ter a certeza de que somos infinitamente capazes de conviver com  as guerras, mas que a convivência com a paz absoluta é insuportável? Nascemos para lutar, Pangloss. 

Mas é  função panglossiana descrever a beleza das folhinhas verdes que brotam das cinzas; narrar que acima das nuvens escuras o sol brilha e que a escuridão  é só um modo de olhar;  gritar ao mundo que a dor é magnífica porque dela nasce a benevolência e a vontade de se extasiar na companhia do outro... É uma bela função. Admito.  E por mais que eu deseje sacudir Voltaire à realidade, sou capaz de afirmar que alguém precisa, e todos os dias,  mostrar ao povo o que o povo tem de belo.

E o que esse povo brasileiro tem de belo? – Otimismo! Um otimismo latente e transbordante num riso frouxo que alarga os cantos da boca. Essa vontade de viver, apesar de suas descrenças, em paz com sua pátria. Essa predestinação envolvente que fez com que Tom Jobim, ao ser interrogado por que sempre voltava ao Brasil, quando podia viver sossegado nos Estados Unidos, respondeu: “Volto para me aporrinhar. Para responder a esse tipo de pergunta. Para ser um dos 5% de brasileiros que pagam imposto de renda. Para perder o apetite ou morrer de indigestão. Volto porque nunca saí daqui”. 

Sabe, Voltaire, não vivemos no melhor Brasil possível. Ele se encontra estagnado num atraso antropológico medonho, mas creio que um dia os gonzos do progresso hão nos fazer girar.  

terça-feira, 10 de junho de 2014

Versos d' Clara





Não leia, nem republique qualquer coisa que eu tenha escrito antes de 17 de agosto de 2013: são doces e tolas divagações de quem ainda não havia experimentado a dor.

Leia frases de Clara Dawn em  O pensador


...quero ser capim na beira da estrada... 
qualquer estrada serve - até mesmo uma senda triste...
desde que o vento passe por ela

e esvoeje os meus cabelos com as letras de um poema...


O olho do espelho

Ainda não sei qual é a expressão que me flerta 
quando miro minha face no espelho; 
desconheço no reflexo esse olho que me enxerga, 
que me escruta com a passiva ira dos tempos;
insolente na sombra dos rastros de um vinco. 
Com essa mão que explora traços invisíveis na deslembrança de um rosto infante. Chispas de fuligem me alcançam a mente? 
Ou são os meus cabelos que agora nascem prateados? 
Perdi a superfície vã das coisas simples na esteira da infância, 

ou em puberdade senil se encontra o olho branco desse espelho?


Metáfora da esperança  - por Clara Dawn

Ah, eu gosto tanto de gaveta emperrada...
Não importa quantas gavetas funcionais apareçam diante de mim,
Eu estarei sempre guardando os meus óculos naquela  velha gaveta emperrada.
E é verdade que eu não uso óculos,

Mas eu jamais deixarei de insistir com essa coisa má que me faz tão bem. 




Cabeça de Papel – por Clara Dawn

Não aguento mais beber desse cálice de sangue
Sangue opulento da ferida da morte
“Autochouriço”
Fonte vitamínica B12
Para alimentar espírito pobre

Pobre espírito! Aí de mim!
Tão comum – sou mais um!

Mas qual!?
Dentre tantos,  tinha que ser eu?
Veio do além:
Espírito de porco, quem pensa que é?

“Marcha soldado, cabeça de papel
Quem não marchar direito
Vai preso no quartel”.


Vermelho Silêncio - por Clara Dawn

No berço da noite
 Uma sombra cai num casebre da Terra.

Depois  de regurgitar  no chiqueiro
o vento serpenteia  debaixo da jaqueira

e no grato asilo da natureza
É de afã  que apodrecem os cheiros.

O pálido cetim da tez menina
fecha lânguidos olhos num pesadelo

e túmidos suspiros arquejam do seio infante:
estos de um sol que nunca veio.

Na noite, a cantiga dos tambores de vodu.
Perto, no cinéreo vapor, a noite desbota
num verso incerto de um céu sem deus
e  a menina desmaia sob as notas do sino do inferno.

Em penumbra surge de um dorso pardacento
o sexo flácido revelado pela luz de uma lamparina.
Dedos longos de um diabo sagaz rasgam o véu púrpuro
e o lençol do leito infante agora é rubro

A menina grita!
E late o parco cão que vela o casebre.
O vento transpira o odor da lamparina a querosene.
Os tambores do vodu emudecem.
O cão reza um terço com as patas na cabeça.
É vermelho o silêncio da Terra.


Minha Pequena


...pequenina mulher,
ainda é só uma menina,
uma parede a se erguer frágil 
[tudo invenção] 
invenção de sua personalidade
para esconder suas muralhas...
menina, menina, menina...
[não me pertences, deveras]

mas posso reproduzir a impressão que tuas mãos me causam:
se disser que nunca vi em mão alguma dedos tão
nitidamente dóceis - diria a verdade, eu.

Minha pequena,
se possível fosse dividir-me em partes mínimas e
cada partícula pudesse ser julgada em separado,
certamente cada pedacinho da minha existência seria
uma nota musical para harmonizar a tua vida, 
para encher de riso a tua boca...

Ah, o teu riso!
Teu riso é tão puro que não me lembro se de alguma brisa 
senti tamanho favor.


(Minha Pequena - por Clara Dawn – dedicado à Thálitha Miranda) 


Elegia ao filho morto

Descobri que o silêncio é palpável:
tem cheiro, textura e gosto.
Descobri-o nessas coisas que pertenceram a você
e que agora você pertence à elas.
Descobri que esse silêncio é visível e belo...
[como uma borboleta sem asas]

****

Mas, e  esse  sorriso que ainda tens na face? É de troça?
Terá sido a transposição de teu ultimo reflexo?
Não alcanço no silêncio desse riso - o pensamento - o que tiveste no instante em que vozes imaginárias ou só por ti audíveis,
atinaram-se a mostrar-te uma paz em forma de branco lençol...
Não concebo que o teu sorriso, vedado por um nó na garganta, tenha se transformado em epitáfio.

****
O tempo passa, mas não passa tempo algum.
E é nesse tempo que passa correndo sem sair do espaço
que tento ajuntar letras ambíguas
sobre toda essa benevolência expressa [como sempre] em seu olhar;
sobre suas asas de anjo que [no último abraço] ergueram-me do chão...
Espero que um dia você possa perdoar-me por não conseguir entender
Sua ânsia de pássaro em livrar-se [ cedo demais] da gaiola da vida.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

“É isso um homem?”

Não poderia precisar, mas desconfiara que a aurora estava quase surgindo. Hans Krása está cantando baixinho uma de suas óperas enquanto a noite se veste da única paz possível em Auschwitz. Ontem ou amanhã, não importa, o jovem Elie declamara uma de suas poesias: 

“Nunca me esquecerei daquela noite, a primeira noite de campo, que fez minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada. Nunca me esquecerei daquela fumaça.”

Por um instante, tentando conduzir minha mente à recordação desses versos, olhei para o menino Elie, que aqui não é Eliezer Wiesel, e sim, um número e nem sei que número é, pois há tantos números em Auschwitz... mas ao olhar para ele, enfim, adormecido, imaginei o que ele estaria sonhando. 

“Nunca me esquecerei dos rostos das crianças cujos corpos eu vi se transformarem em volutas sob um céu azul e mudo.” 

Talvez, Elie, sustenido pela generosa voz de Hans, estivesse, nesse instante, sonhando com sua própria história: um herói em Auschwitz. Pobre Elie. E é só um menino de quatorze anos. Como direi a ele que a sua história não será uma história de sobrevivência, e sim apenas versos sofridos sobre as muitas mortes que ele viverá nos campos?

“Nunca me esquecerei daquelas chamas que consumiram a minha fé para sempre. Nunca me esquecerei daquele silêncio noturno que me privou por toda eternidade do desejo de viver.”

Elie escreve versos enquanto cava a própria cova e Hans Krása encontrou aqui a ópera perfeita... Tenho a impressão de que tanto o menino Eliezer quanto Hans e os seus instrumentistas não estão no holocausto, mas vislumbram-no do alto de suas auras apaixonadas pela existência. Para eles, penso que o cenário pouco importa, importa-lhes cumprir com a obrigação de embelezá-lo com música e versos. 

É que na verdade, depois de um tempo em Auschwitz, coisa alguma importa: de  quem é culpa, não importa; se é dia ou noite, não importa; se está vivo ou morto, não importa... 

Ouço Hans e  Elie... Não me canso nunca,  pois temo que, um dia, ouvi-los seja apenas a fabulosa lembrança do Holocausto. Se os racistas pretendem diminuir a dignidade humana de uma criatura/irmã,  os nazistas, por sua vez, pretendem extirpá-la completamente. Mas eis que Hans e Elie, com suas artes, reafirmam a dignidade de sobreviver, ainda que morto, e essa dignidade é construída  sobre a magnífica ironia de uma flor que ressurge de fezes. 

“Nunca me esquecerei daqueles momentos que assassinaram meu Deus, minha alma e meus sonhos, que se tornaram desertos.”

Os cadeados se abrem e ainda não há a luz de um dia: Hans e seus instrumentistas são levados por gigantes cruéis e eu imagino que é chegada a hora de Hans compor o final de sua ópera. 

“Nunca me esquecerei daquilo, mesmo que eu seja condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus. Nunca...” 

... E eu, Primo Levi, num grito interior, pergunto: é isso um homem? 


(Este texto é uma ficção baseada na obra, “É isso um homem?” – do escritor italiano Primo Levi)


Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 02/06/2012



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Mãe, não se culpe, eu tive uma infância feliz

Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 12/05/14


Desta vida,
Sentirei saudades da minha infância.
Do velho pequizeiro em forma de poltrona, de onde eu arranhava uma violinha de latão cantando “Você não soube me amar”  da Blitz;
Das bailarinas de graveto usando saias de flor-de-pequi;
Da amarelinha em forma de espiral que eu pulava em uma perna só;
Das trouxinhas de alface recheadas com tutu de feijão no lanche da tarde;
Dos banhos em bacia com sabão de bola numa água com cheiro de fumaça;
Do barulho de insetos transitando, à noite, nos buracos dos tijolos: “dragões e serpentes”;
Das bonecas “cantando” Parabéns pra você   em volta de um “bolo” feito  de pão amanhecido com recheio de maionese sob uma vela de sebo;

Sentirei saudades, minha mãe:
De todas as noites em que nós duas nos agachávamos no quintal de casa para fazer xixi e de cócoras dávamos gargalhadas com as estrelas;
Você se lembra disso, mãe?
Sentirei tantas saudades daquele dia em que a “luz” finalmente chegou em nosso lar e ligamos todas as lâmpadas, a TV e o nosso 3 em 1 da Sharp novinho, novinho... Só para mostrar que tínhamos energia em casa.
Mas a saudade que mais tenho, mãe querida,
É de vê-la sorrindo debochadamente a iluminar seus olhos verdeados... Naquelas tardes que depois viravam noites e madrugadas e dias, e tardes de novo, nos brinquedos de Truco com os tios e tias...
Até da trilha sonora daquelas tardes, eu sinto falta: Duo Glacial, Carlos Gardel, Vicente Celestino... dissonando os gritos do jogo.

E se a senhora pensa que eu me aborrecia em fazer o café e os petiscos, engana-se... Aborrecia não.  Pois eu amava tê-la ao alcance dos meus olhos e de todo o meu encantamento: seu sorriso – inesquecivelmente lindo – oh, Deus!, - quais as chances que eu tenho de devolvê-lo?
Desta vida levarei os exemplos das minhas avós e de minha mãe:
Da alegria da vó Maria, da fortaleza da vó Ana e da bravura de mamãe;

Que saudade...
Dos bolinhos de chuva da segunda , do arroz com “cariru” da primeira e da sopa de legumes da terceira...
Chequei até aqui e tenho vontade de aqui permanecer: pra repousar  eternamente nessas lembranças  e ignorar que numa esquina do futuro a pior de todas as tristezas me esperava...

Sim. Ficarei aqui. E sabe por que, mãe?
Porque eu tive uma infância feliz. A mim, nunca  faltou coisa alguma. Tudo de que eu precisei para transformar-me nessa pessoa que hoje sou,  eu recebi.
E se porventura alguém lhe disser que eu não sou grande coisa, pode apostar,   é mentira.


Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 12/05/14










segunda-feira, 28 de abril de 2014

Madame Bovary enlouqueceu ou os goianos entraram pra história?

Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 28/04/14
Madame Bovary  sonhara em seduzir O Conde de Monte Cristo e assim convencê-lo a partir para uma Odisseia de Libertinagem. Mas antes, à sombra da Árvore do Energúmeno se encontrou com Édipo e Eneida e falaram sobre os cuidados para com A República, pois Maya, com suas Vidas Paralelas, usou a  Chave de Vidro para desvendar O  Caso dos Dez Negrinhos e, por isso, o assunto urgia na veemência da Guerra e Paz no Barco dos Dias. Pois ainda que aquele Amor de Perdição fosse maior que quaisquer Intempéries do Vento, havia em si a responsabilidade para com Visgo Ilusório da encantadora Montanha Mágica onde vivia.

Ana Karênina, com sua Boca Benta de Paixão, decidiu frustrar os planos de Madame Bovary,  dedurando-a a Dom Casmurro. Ao saber disso, num grito pavoroso, ele recorreu aos conselhos de Sidarta. Este, com seus Gestos de Memorial do Convento, disse-lhe para entregar o caso aos Três Mosqueteiros. Mas Bentinho estava mesmo preocupado era em terminar de escrever A Suposta Biografia do Poeta da Morte... Assim, deixou que o Tempo e o Vento se encarregassem de mostrar a Madame as consequências de viver uma Fábula de Fogo.

Ora, Bovary não desistiria de sua conquista nem que tivesse que enfrentar Sofia Búlgara e o Tabuleiro da Morte... Nem que para isso precisasse ir  ao Auto da Barca do Inferno, mesmo que tivesse que vivenciar  A Peste; subir Naqueles Morros Depois da Chuva e ouvir os Sermões do Domador do Rio... Sim, Madame Bovary ousaria enfrentar  Orgulho e Preconceito só para deixar na história o registro de seu Amor Diário.

Na sua mente, tudo planejado: na noite seguinte, depois do Jantar às Onze, ela falaria com Eurico, o Presbítero sobre o Ínvio Lado dos Sofrimentos do Jovem Werther e pediria sua ajuda enquanto ela estivesse em seu Admirável Mundo Novo... Orientou a todos os empregados a não desobedecerem Os Irmãos Karamazov e jamais se descuidarem do menino Colecionador de Alfinetes. E, se precisassem de orientação, que fossem falar com O Homem que não Teimava ou com Ulisses.

Pensou em se despedir do Apanhador no Campo de Centeio, mas ele estava no Avesso das Horas, em seu Solilóquio, colhendo as Flores do Mal. Assim, despediu-se apenas de Iracema e, desviando-se de tantos Diálogos Plurais, fincou na mente o desejo de viver o seu Paraíso Profano e partiu, deixando A Casa Cheia de Vazios.

O Processo todo de sua saga seria como destruir Elos de uma Mesma Corrente, mas ela não temia nem mesmo Os Demônios que se refletiam no seu rosto através do Espelho das Águas, porque nada seria capaz de condená-la pela associação de Crime e Castigo ou por desejar viver Outro Caminho, abandonando assim as Cicatrizes para Afago de sua fina Arte de Amar.

Sob a Sombra dos Reis Barbudos, desbravou o Vermelho e o Negro de um horizonte de Tropas e Boiadas e em seus pés vestiu os Sapatos do Infinito; cobriu-se da Fuligem dos Sonhos e, deixando no seu tempo Tatuagens em Fuga, ignorou a pura essência de ser  Gado de Deus para atingir mais que a Ilha do Tesouro, mais que Veias e Vinhos... E, enfim, viveria o Amor que sempre almejara.


...Em Monte Cristo, perguntou ao Limpador de Nódoas onde estava o Conde. Ele apontou para uma Janela Indiscreta e foi por uma fresta que Madame Bovary  viu, nos braços do nobre, o corpo bonito e de Calada Nudez da Dama das Camélias. Juntos dançavam a Valsa dos Ratos... Bovary, tomada de angústia e sem olhar para trás, de Mãos Dadas com a Lua, exilou-se em Cem Anos de Solidão.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"Para cães que voaram na Primeira Guerra Mundial e compreendem um pouco de francês"


É claro que eu me divirto muito com essa coisa de ser chamado de "O Gato Estúpido da Porta ao Lado". A elegância dessas palavras acontece nos dias em que Snoppy está de bom humor, porque geralmente ele me chama mesmo é de “A Terceira Guerra Mundial” ou de "Erva Daninha no Relvado da Vida". Esse antagonismo entre cães e gatos (e ai de mim se disser “gatos e cães”) não é mito, a antipatia é mútua. Há raríssimas exceções em que recíproca afetuosidade existe. Desde que Snoppy virou astro de TV (e isso eu até compreendo), ele tem muitos pesadelos. Charlie Brown diz que são sonhos, mas cá para nós: um sonho faria uma criatura titubear entre a fantasia e a realidade? Um sonho faria crer tão peremptoriamente que mereça uma comida feita só para ele?: “Ração para cães que voaram na Primeira Guerra Mundial e compreendem um pouco de francês”. Je doute fort.

Mas essa coisa de ter voado na Primeira Guerra Mundial também é um pesadelo, você não acha? Isso se dá pelo seu incontrolável complexo de Walter Mitty... É...!!! Falo daquele personagem do conto "A Vida Secreta de Walter Mitty",de James Thurber, um cara retraído e com uma imaginação muito fantasiosa: ele se vê como um piloto de guerra, um médico numa unidade de emergência ou até mesmo um assassino perigoso... Que outro complexo Snoppy teria, senão o de um personagem que até é verbete de dicionário por seu sinônimo de sonhador inofensivo?

Mas cães nunca são inofensivos. Gatos, sim. Não nos interessa de quem é a mão que nos coça a barriga, contanto que a mão também tenha pernas para a gente se esfregar. A comida nem precisa ter nome bonito: comida para gatos é o suficiente, contanto que seja fresca e de preferência nos sabores peixe e passarinho. E por falar em passarinho,eu elaborei um plano para me vingar de Snoppy. Para isso eu precisaria tocar-lhe onde mais possa doer: Woodstock, o acidente criativo que nunca acontecera de verdade, com o seu voo topsy-turvy, com a sua fala, o birdspeak, composta de pontos de exclamação numa têmpera de emoções...

Macacos me mordam! Mas ‘que puxa’, Schulz, que raio de passarinho é Woodstock? Não importa, vou comê-lo assim mesmo. Minhas presas se encharcam só de imaginar o quão saboroso deve ser o pássaro que dialoga com Snoppy...

Snoppy, aquele beagle metido a besta que pensa que é um escritor só porque ao abrir a sua maleta tira dela uma máquina de escrever e a partir daí dá a luz ao passarinho que bate asas em seu estômago, e do telhado de sua casa o cachorro tamborila o teclado da máquina a fim de enlouquecer a todos com suas histórias mirabolantes... Sim, eu não via a hora de mostrar para o Snoppy e para o seu leal amigo alado o poder da Terceira Guerra Mundial.

Então, na manhã seguinte, enquanto Shchroeder tocaria o seu “piano estúpido” e divagaria sobre o poder que Beethoven tem de influenciar o comportamento das pessoas, eu, com minhas “enormes patas”, dizimaria a casota de Snoppy com uma patada só. E num salto certeiro iria abocanhar Woodstock... Ao devorar o passarinho de Snoppy, quantos alters eu destruiria no seu ego?


Tudo pronto: Shchroeder tocava o seu “piano estúpido”; Snoppy dormia no telhado de sua casa vermelha; Woodstock repousava sobre a barriga de Snoppy e eu começara a me preparar para o grande salto de vingança... Quando, de repente, algo chamou a atenção de meus sensórios olfativos... Era mais do que eu suportaria - a vingança ficará para amanhã: há um peixe fresquinho balançando na mão de Charlie Brown. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Vou-me embora pra Muquém

É que há dores demais neste corpo aqui. Há tantas dores que delas eu vivo caçoando... Há dores tantas que eu decidi fazer um samba de antítese mais ou menos assim: 

Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar.../ Gargalha desse choque nas costas/ faça troça desse mal fisgado/ chuta esse autobreque/ o corpo não é quadrado.../ dor é pra rolar/ a dor é pra rolar.../canta nem que seja um trecho/ um refrão, um assobio inacabado/ Mas não se farte de agonia/ porque o pulso tá agoniado.../  Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar...

Então eu fui cantar a minha letra usando a música do Martinho da Vila: “Canta, canta minha gente” e até gastei um bom tempo tamborilando os dedos no controle remoto da TV... Não deu pra ser um samba, acho que se parece mais com rap ou outra coisa qualquer que ninguém consegue dar ritmo musical. 

Devia ter escrito um poema desses tantos que rimam a dor com o amor, mas qual? Essa dor que a gente, deveras sente e, finge que mesmo com ela está contente...não é um andar nada solitário entre às gentes? Ora, e se creio aqui comigo, entre uma vertigem e outra, que um corpo febril inspira-me versos mil...hei de cantá-los em sonora voz, hei de escrevê-los com dedos de uma rima vil...

Oh, e agora que Sheakespeare dedilha as cordas dos meus tendões o samba é nulidade e a dor é transcendental.  E sigo fabulando-a com a doçura de palavras docinhas... Com quanto na verdade mais pura, quisera eu, ca[lão]r os meu aís com gritos. 

Já que gritar eu até posso, mas só para dentro o faço... Ouso patuscar, e sem remorso, versos de Bandeira:
Vou-me embora pra Muquém/ Lá sou amiga dos deuses/ Lá faço a reza que eu quero/ Pro  santo que escolherei/ Vou-me embora pra Muquém/ Nesta cidade eu vivo doente/ Lá a crença é autocura/ De tal modo consequente/ Que eu, Maria-vai-com-as-outras/ Sou curada gentilmente/ Até de doença que nunca tive./ Daí eu vou pagar promessa/ Subir, de joelhos, o Morro dos Cruzeiros/Tomar banho no Córrego das Lagrimas/ E se lá eu encontrar o fantasma de Antonio Antunes/ Que Nossa Senhora do Muquém/ Proteja-me com sua medalha./ E se ainda assim eu estiver  triste/ Com tamanha dor que não cabe no peito/ E quando antes de dormir/ de vazio, eu ficar cheia.../Vou lembrar-me: — Lá sou amiga dos Deuses —/ Lá eu faço a reza que eu quero/ Pro santo que escolherei/ Sim, vou embora pra Muquém.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 31 de março de 2014).

segunda-feira, 24 de março de 2014

Tudo amarelo ou Eu ensurdeci Oscar Wilde


Tenho pensado naquela mangueira que fica na esquina da casa amarela. Ocorreu-me a ideia de que tal árvore existe ali desde sempre... Não me lembro de vê-la crescer ao ponto de tornar-se farta na produção de mangas. Não me lembro de ouvir a algazarra dos pássaros devorando seus frutos... Por Cristo! Por que será que eu não me recordo de ver crianças atirando pedras nos frutos amarelos e, contudo, derrubando mais os verdes?

Há um carro estacionado debaixo da mangueira desde a semana passada. Ouso julgar que, no instante em que ali parou, não saiu jamais. É possível ouvir um barulho seco quando uma manga dilacerada por pássaros e pedras cai no capô – pahh!!, o barulho faz esfriar o coração – lataria amassada.

Foi num repente que a distinta mangueira surgiu nos meus pensamentos, durante a tecedura dessas linhas, e por interesse mútuo a gente se perturba. Não faço ideia do que mais incomoda a árvore. Talvez o fato de morar do lado de fora da propriedade; talvez o triste fato de não ter sido plantada e sim ser filha de uma semente lançada por cima do muro; talvez seja a baderna dos pássaros; talvez a pobre mangueira lamente mesmo as inúmeras pedradas... Ou será que ela, agora, perturba minha consciência pelo fato de que, debaixo de si, jaz um carro, cuja lataria amassada é o prenúncio de seu fim?

Faço menos ideia ainda do que mais me incomoda nesse quadro que meus dedos decidiram pintar na tela virtual. Um quadro curioso que se transforma em uma janela aberta na direção da casa amarela. A casa amarela é de esquina e há, na calçada, uma mangueira carregada de frutos gordos. Pintei um carro jacente em baixo da mangueira e desenhei mangas caindo sobre o capô... Depois eu ri da perspectiva de serem jacas, isso porque melancias são rasteiras. Senão... Pobre carro!

O quadro inteiro me incomoda. O que farei eu com essa mangueira chorando lágrimas obesas como se chuva ácida fosse destruir o carro? Mas, por que o carro está ali há tanto tempo? É possível ver o lixo lavado pela enxurrada preso nas rodas. Um dos pneus traseiros está furado, o para-brisa está repleto de folhas da mangueira e de peles secas de insetos mortos... O carro também não passa de um cadáver. Um ‘paletó’, não de madeira, mas de lata sob a mangueira que cospe-lhe, com deboche - mangas carcomidas. Bracejo de um  asco nesse quadro vil.

O desenho é reles. Eu não tenho saída. Não sei o que fazer com o quadro.  Uma moldura cara talvez lhe confira valor ou talvez tire... Isso depende muito do que se deseja enxergar num quadro como esse.  Por que me perturba a mangueira? Por que pintei de amarelo a casa? A cor amarela, segundo Oscar Wilde, é tão berrante que apenas um surdo seria capaz de usá-la. Ah, Wilde, a casa que criei é amarela, os frutos da mangueira são amarelos e, pronto, o carro (acabei de decidir isso) também é amarelo. O quadro aberto na minha janela está banhado de amarelo...

Surda não, Wilde, mas se eu continuar, num nascer de sol qualquer, abrindo essa janela, hei de ficar cega com a luz dessa tinta. Porque metade do eu que escrevo é o que vejo e a outra metade é o que eu enxergo. O que eu vejo é uma casa amarela com uma mangueira nascida do lado exterior do muro e debaixo da árvore jaz um carro aparentemente abandonado... Mas, o que eu enxergo é um borrado amarelo. Um borrão ensurdecedor amarelo. Amarelo e nada mais.

(Crônica publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 24 de março de 2014)