Escritora Clara Dawn

"Você deve ser a primeira em Goiás a escrever uma crônica com a natureza poética da crônica: liguagem e metaliguagem" - Gilberto Mendonça Teles

Clara Dawn - Alethéia

Autora do romance Alethéia, considerado pelos escritores Edival Lourenço e Valdivino Braz, como a revelação de um novo estilo na literatura goiana.

Clara Dawn aos olhos de Reynaldo Jardim:

" A jovialidade adulta de seu texto criativo revela uma escritora que causaria inveja a Clarice Lispector..." Reynaldo Jardim

Clara Dawn Escritora

“Não se gosta do que Clara escreve apenas por afinidades ou belos escritos. Há uma lógica inserida na beleza e Clara consegue nos passar isto de uma maneira indolor e - que coisa?! - prazerosa.” Odilon Carlos

Palavras de Clara Dawn:

"Mas, o que é a vida senão polinômios que temos de resolver diáriamente: eu, posso até acertar o desenvolvimento, mas na maioria das vezes, erro o resultado..." Clara Dawn

BEM VINDO! ESTE SITE É ALIMENTADO PELO CLUBE DE FÃS DA ESCRITORA CLARA DAWN e reconhecido por ela como oficial. Visite também o blog, onde vários fãs espalhados pelo mundo, declaram sua simpatia por Clara Dawn
http://claradawnfaclube.blogspot.com

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Pé de Lua

. Este ponto no início do texto não foi um erro de digitação. É que hoje eu fiquei com vontade  dar um basta no começo. E se a poesia e a música não me salvarem, agora mesmo, juro que vou engolir o ponto e pararei de bastar aos poucos para bastar de uma vez por todas.  É que, noite passada, flertei com a lua que, lasciva, se oferecia através das grades da minha janela, e por isso senti compulsão em “bastar-me”. Compreendi por que a indiazinha se atirou no rio para ser possuída pelo reflexo da lua. Eu desejei que a minha janela não tivesse grades para ir, eu também, ao encontro da lua. Mas oh, céus!, ai, se me atiro  do nono andar sem asas para suster-me... Pafftt!!...
Que coisa! Seria mais fácil se a lua, ao invés de assanhar–se no céu vestida de uma luz que não é sua, fosse uma árvore. Sim, é melhor cair duma árvore do que do nono andar.  E se for de um pé de lua, então?, que tombo lunático seria. Depois era só levantar, sacudir a poeira cósmica e saltar outra vez nos galhos para  colher  luas rechonchudas e cheirosas, dar-lhes boas mordidas e fartar-se de luas tantas até de que de luas estivesse pleno.
E como se plenitude fosse algo tangível, eu teria um luazal só para mim: um lote de Minguantes, outro de Cheias, outro de Novas, outro de Crescentes: luas e mais luas à revelia para vender, doar e... Com essas imagens, ocorreu-me a lembrança de que lua não tem luz própria. Como seria feio um luazal, então. Cinza e frio. Sim, porque só bobo pra imaginar que a lua fica regateira daquele jeito por sua conta e risco... Só bobo... Que boba eu sou.
Pensando nisso, senti remorsos em desejar que a lua fosse minha. Egoísmo meu ter essas coisinhas luminosas despencando aqui e ali no fundo do meu quintal.  Ledo sonho pensar que era comigo que lua flertava às três da manhã. A lua  só deseja aquele que lhe passeia com o seu indiferente olhar. O mesmo olhar que ele oferece a qualquer coisa que gira em torno de si. Muito triste amar um ser que braços tem, mas nunca abraça com ternura dirigida.  Pobre lua, amante de uma criatura que  se doa por completo a tudo, nunca a quem. 
Com essa história enamorei-me um pouco mais com a lua e não foi por piedade. Piedade, meu Deus, tenho de mim, pois a partir deste instante, descubro que não se pode mudar as coisas de lugar. Eu não posso, por exemplo, colocar aquele ponto final no começo como se tivesse o direito de terminar o que nem comecei.  Eu não posso, outro exemplo, plantar luas para que eu tenha um luazal. Digamos que eu pudesse: ah, se eu tivesse terminado este texto antes de começá-lo, não teria tido tempo para compadecer-me da lua e ainda estaria atrás das minhas grades, imaginando quão bom seria alcançar a lua. Mas tão logo a ambição se apoderou de meus ossos, músculos, nervos, sangue e pele... achei que poderia possuir a lua.
Que tola eu sou. A lua pertence ao sol e, mesmo que o sol não deseje a lua, nem mesmo nua, a lua sempre dele será.  Quantas vezes a pobre deve ter se atirado no espelho das águas imaginando que pudesse, de seu amado, receber favores ardentes? Por Cristo, que hoje, nem mesmo a poesia, tampouco Chopin livrar-me-iam  do ponto que não consigo alinhavar neste texto que começou na hora três do dia e já passa das onze e nenhum final feliz encontro para a lua.
É que tenho tantas dúvidas aqui comigo: se mostro a verdade pra ela ou deixo-a feliz em sua ignorância de saber-se amada por tabela. Se lhe revelo que além do sol há outros reis ou digo-lhe as mentiras que ela quer ouvir... Na dúvida – ponto.

( Pé de lua - Crônica de Clara Dawn - Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 06 de abril de 2015)

segunda-feira, 16 de março de 2015

Um dia nunca morre

Um dia nunca  dorme. Corpo, por que chora? Vem dançar. Não vê?, há um alvoroço na figueira – pássaros-pretos promovem um  sonoro caos a partir de um silvo. E que belo silvo é. Não escuta? Sei que deve estar pensando que o sol não tem valor. É mesmo um ordinário, como pode nascer para todos? Olha, ser suscetível às desordens da existência  não é elegante. Vamos correr por aí. Antes podemos passar na varanda - tem um prato cheinho de acerolas robusta sobre a mesa. Mas se não quiser fruta, faço-lhe uma sopa. Ou um escaldado grosso com ovos e pimenta; levanta até defunto. Não crê? – Não crê. Que pena.

O céu azul, o sol vibrante, a chuva, o escuro... tudo ilusão. Modo de ver. Sim, porque não importa o que se vê lá em cima: é o ordinário que brilha incansavelmente e não está nenhum pouco interessado se você geme ou sorri. É o sol sendo o sol – simples assim.  Mas então você me diz que hoje só o sossego lhe acomete e não se importa em ser deselegante. Diz que até amaria a vida se uma vida tivesse; que tem agonia em ter sossego e que está exausto de sofrer...

Oh céus, que isso acaba virando poema, e vou lhe repetir uma coisa que não é segredo, eu não sou poeta. Pra ser poeta tem ter alma de criança e a minha já nasceu velha. Velhinha, velhinha... Gagazinha de bengala e chapéu de malandro. Acho que vi um sorriso escapulindo pelo canto direito da boca. Coisa linda. Solta isso de uma vez, porque se você engole o riso ele se transforma em lombriga. Verdade. Não digo?, então.  

Venha corpo, coloca a sua mão no meu ombro e deixa eu conduzir a dança. É verdade que eles estão mais para escOmbros do que muralhas, mas a velhice da alma também é ilusão. Não ligue. O espirito, o que jaz perfeito para sempre, é incorruptível: como aquela coisa estranha, incômoda e indolor que sentimos depois de ficar muito tempo numa mesma posição. Pensei nisso uma vez, enquanto fazia um enxerto ósseo nos incisivos superiores. No momento em que a mão do dentista segurava aquela terrível furadeira numa interminável escavação  eu pensava mesmo no meu espirito que naquele instante não sentia coisa alguma: medo, dor, aflição, desespero, vontade de dar uns petelecos no cirurgião e sair correndo e gritando como fiz quando era criança. (Minha mãe conseguiu me agarrar do outro lado da rua. Talvez ela desminta isso, porque não tenho certeza se de fato aconteceu ou foi só a minha vontade de fazê-lo. Uma coisa eu tenho certeza: o espirito é doidivanas – tá nem aí pras dores do corpo).

Foi assim que eu descobri o tal emplastro capaz de sanar todas as dores. Verdade. Se Brás Cubas estivesse vivo, eu contaria pra ele. Juro. Mas qual?, o pobre já nasceu defunto. Que sina!  Foi inspirada em Brás Cubas que passei a dialogar com meu “hipopótamo” interior e ele disse-me que o passado e o futuro  têm muito pouca importância, comparado com o que há em nosso dormente espírito. Todo ser que respira tem um espirito, acordado com a sua própria evolução,  e ele é apenas aquilo que deve ser.  Uma flor, por exemplo, é uma flor sem ao menos saber-se flor cheirosa ou não. Só o homem convive com o drama, desde sempre, de  preencher seus vazios e curar suas dores como se elas pertencessem ao espirito. Ora, este jamais está vazio, tampouco se transborda de quaisquer sentimentos. O espirito é apenas é o que deve ser: equilíbrio e resistência. Foi aí que ocorreu-me a ideia de que o espirito é o emplastro da alma e, tão logo, do corpo. Sim, e é tão fácil vibrar o espirito a fim de sarar o corpo: pensamento positivo e dança… Meu espirito é bailarino. Vem comigo corpo, apoie-se nos meus ombros, vou colocar uma valsa e bailemos,  porque um dia nunca dorme e o espíritos também não. 

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DM Revista - em Goiânia - Goiás em 16 de março de 2015).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Guarda-chuvas musicais

Diga-me a verdade. Mas diga devagarinho, pois a verdade deve ofuscar aos poucos para não cegar-me num repente: e cega, juro, não saberia mais cantar. Ah, o canto, essa coisa que de manhã vem, acariciando-me as bochechas ao ponto de elas despirem os meus dentes num riso quase puro. Puro, não fossem os pecados cometidos, no leito, com o homem amado. Pecado? Sei que não é, digo só pra fazer firula para a minha Pequena que pensa que mãe não faz “essas coisas”. 

Então, estou um pouco pronta: pode “verdadear” o assunto. Será que depois de ouvir a verdade terei apetite para o desjejum? Pode dizê-la após o pão torradinho com queijo e mel?   É que hoje o dia está tão nublado e você sabe que não fico bem em dias taciturnos. Acho que não deve ser muito legal ficar cega num dia taciturno. Melhor se a cegueira surgir quando o sol estiver amornando as águas da nascente do Rio Corumbá, lá pelas bandas da Serra dos Pireneus. Que bela lembrança eu teria da última contemplação terrena, você não acha?

Sim. O Rio Corumbá, lembro-me agora de que, às vezes, é brabo e encardido. Coitado. Não se pode julgá-lo jamais, há tantas pedras em seu caminho. Substituíram a bonita ponte de madeira por uma de concreto e ferro: coisa feia. Tem razão de o rio ficar com aquela cara de quem sente dor nos sisos. É que o concreto é gélido, indiferente, rijo demais... Concreto lembra-me a verdade e daí sei que ela precisa ser dita e... Mas como eu dizia, o Rio Corumbá não é mesmo uma graça? Ele não se parece com um cavalo? Ohhh!, eu gosto tanto de cavalos – não os domesticados que abaixam a cabeça para que seu dono lhe coloque cabresto –, gosto dos selvagens – coisa mais linda que Deus criou –, os cavalos.

Eu queria ser bonita como um cavalo selvagem: será que cavalo fica cego quando escuta a verdade? E o Rio Corumbá é brabo porque é cego de raiva? É nada, o Corumbá é forte como a morte. Sua brabeza é só pra impor respeito: trem lindo de Goiás... não digo? Então!?

Eita que eu nem comi as torradas, espera mais um pouco. Café ou suco? Sei, duas gotas de Sacarose. Isso um dia vai matar a gente – ai!, que eu disse uma verdade – tudo bem – deve existir um céu para os desprezíveis – para os malévolos – para os “antidivindades” – para os cruéis – para monstros monstruosos que ousam dizer verdades na mesa do café da manhã.

Eu não quero ir pra esse céu. Já pensou numa tristeza dessas? O céu dos que só dizem a verdade... Nem morta vou pra lá. Assim, esqueça que eu disse que a Sacarose vai nos matar. Como poderia? Ela é tão docinha. Talvez exista um céu para os oblíquos e é pra ele que eu vou, porque habito nas utopias e faço das nuvenzinhas sonâmbulas meu manto...

 Mas, você escutou o que eu acabei de dizer? Você não gostaria de ir para o céu dos verdadeiros, gostaria? Já imaginou você, ali, ao lado dos verdadeiros,  antipáticos e cruéis de todos os tempos?  Que sina... não?

Ora, que até já perdi a vontade de morder gostoso nessa torradinha crocante. Também não gosto de mel, prefiro rúcula com azeite, limão e muito sal. Sei, sei... açúcar & sal = morte lenta. E lá vem você com mais verdades.

Por falar em verdade. Verdade seja dita: o pôr-do-sol na nascente do Rio Corumbá é esplêndido. Sem se preocupar com açúcar, sal, etcétera... Só a belezura do rio e o chiar do sol quentinho acasalando com a Serra: essa afeição energética só poderia mesmo desaguar um monte de versos no rio Paranaíba. Depois de uma tarde inteira no exercício da contemplação, qualquer verdade poderá ser dita e se tão dura for, há de causar uma cegueira benevolente: escuridão bonita como a noite cortinando o dia na expectativa de um novo alvorecer...

Sim. Diga-me a verdade. Porque hoje amanheci em paz com a natureza bravia  dos  meus cabelos e uma mulher em paz com os seus cabelos enfrenta tudo. Tudo? Até a chuva? E o que são as tempestades para quem tem guarda-chuvas musicais?   

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 23/02/2015)


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Redondamente ingênuo e desmemoriado





Eu queria começar este texto com algumas das frases que guardei outrora, mas é verdade  que já não me lembro onde as acomodei e tenho medo: nunca se sabe o que vamos encontrar em  nossas gavetas emperradas. Quem sabe que estranhos signos foram deixados ali e, pior, decifráveis ao ponto de uma existência inteira ser posta à prova . Pobre escrava da escrita! Ajude-me, oh, meu Quintaninha morto, pois os meus barquinhos de papel estão no curso de um terrível nevoeiro e tenho câimbras nos dedos só de imaginar que terei de refazer todas as 14 dobras de cada um dos barquinhos, quando estes se desmantelarem.

Lembrei-me agora de uma dessas minhas frases e tentarei reproduzi-la: o anjo sentado, com a cabeça posta sobre os joelhos e os braços emoldurando as panturrilhas... Aquele que jaz, em meu tempo, quieto e sempre, em cima da mesa de jantar – ele – guarda um segredo que revelarei  para que, quando eu morrer, não quebrem a bela e triste escultura, pois, enfim, descobrirão que não havia segredo algum, a não ser os auscultáveis. Não quebrem o triste anjo de Helena Modesto, deixe-o onde está – eternamente. Pois ocorreu-me neste instante a razão de ter contado ao anjo um segredo e, ai!, não o revelarei jamais.

Mesmo porque agora eu tenho que acudir os meus barquinhos de papel que estão perdidos no nevoeiro – Sina, sina, sina... Triste sina nunca, nunca mesmo, saber onde estacionar o calado; em qual porto estabelecer vínculos reais ou fabulosos;  se voltará repleto de espasmos cognitivos ou debalde se esconderá em cântaros vazios onde o que restou foi a teia de uma aranha, entrelaçada de cadáveres secos.

Olha! O tamborilar dos meus dedos mergulhando em nevoeiros em busca de suas diminutas embarcações dobráveis, redobráveis e ... sim, descartáveis. Se eu conceber esta maldita ideia, vou diluir os meus dedos enquanto os frios nevoeiros derretem os meus barquinhos. 

Céus, os barquinhos! Devem transportar tanta coisa que de mim se desabou; tantos pedaços meus que se desprenderam  enquanto eu sacudia os dedos: não quero ouvir essa latumia interior agora. Não, hoje não é um bom dia para lembrar-me que o vento que sopra o barco para a vida, também o sopra para a morte um dia e é assim que tem que ser. A vida na Terra -para quem está morto no Céu - é a morte. Melhor deixar as complexidades da alma com o espirito. Eu quero é tirar os meus barquinhos do nevoeiro.

Estão ali, todos aglutinados num cais de gaveta: úmidos, úmidos todos... Um a um desmanchei e ficou, em minha mãos, um punhado de retalhados de papel borrado de tinta azul, entrecruzado das cicatrizes de minhas dobraduras... Impossível refazê-los.  Im – pos – sí – vel – eu sei.
Assim, embolei-os, a fim de transformar meus pequeninos barcos numa grande bola.  Ei-los aqui diante do espanto do meu olhar: uma horrenda bola cheia de vincos e ilustrada com borrões indecifráveis.
Eu ri. Está vendo, Anjinho? Anjinho de Helena? Não há mais segredo algum.  Estamos recompostos: você, os barquinhos de papel e eu. Recomposto dentro dessa bola sem ais e sem por quês. E que belo monstro somos, sim?: redondamente ingênuo e desmemoriado.


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 05 de janeiro de 2015)


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Série: contos quadrados – A menininha e o Louva-a-deus

Vejo essa chuva tombada de secas folhas...Parece-me que a Terra engoliu uma colheitadeira. Será que ainda estamos no outono, ou o tempo que se perdeu no tempo? Porque ouço sons  amarelos e não há folhinhas verdes para guarnecer de sonhos a alma vil. Mas... sei, há versos até para a desesperança. Então, vento, por que você se mostra assim tão zangado? Não vê que desse jeito desventura o aventurado? Enquanto o prédio titubeava, duma página sagrada, uma prece, eu cravei. Tenho medo de trovões.  E foi no meio desse temporal que  eu, de tanto medo,  começara a sorrir do que vou contar aqui. Foi como se, num repente,  uma fórmula mágica de serenidade eu tivesse ingerido.  Confesso, a fórmula não fui quem criei, furtei-a de uma menininha... Mas qual? Não me julgue, quem  nunca roubou  doces de uma criança? Ela, a menininha, ao ser furtada, disse-me: as coisas na vida apenas acontecem como tem acontecer, e nada que acontece se explica. Não foi bem com essas palavras, mas como eu mostraria, neste texto, a fala da menina, sem falas literárias? Quero a chave do segredo, eu disse a ela. Fez cara de brava, olhou-me de modo esquisito como se duvidasse muitíssimo... Prometi, jurei, aliancei que não contaria... – e ela fitou-me e disse que revelar um segredo é destruí-lo para sempre.

Depois em silêncio, ficou à espreita, mirando-me com seus olhos verdes de serpente. Será que ela está blefando, só para abusar de minha fobia? Pensei, “vou esperar até que ela adormeça, assim, em seus guardados encontrarei o fim de meus tormentos”. Foi aí que a chuva de folhas secas começou... Cadáveres de flores batiam contra o vidro da janela, quando um louva-a-deus adentrou o quarto não sei como. Será que ele veio simbolizar uma esperança alada, para esta minha existência de piano no meio na sala? Observei-o com o descaso de quem está preocupado com coisas mais relevantes: por exemplo, desvendar o segredo da menininha. A infante, sim, agora me lembro, está em seu leito a sonhar com carneirinhos de algodão doce e eu, oh céus!,  aqui atormentado por sua sapiência intrigante. Ela, de um suspiro, ronronou tão bonito que me ocorreu a lembrança de que toda criança dormindo é um anjo. Foi nesse exato momento que eu sorri com a certeza da poção de ventura: coisa mais linda do mundo, essa menina seráfica.

O louva-a-deus saltou duas vezes e sobre o criado-mudo pousou... a menininha, como se sua presença sentisse, acordara de pronto e com os seus grandes e verdes olhos mirou o bicho e sem ao menos pestanejar deu-lhe um generoso peteleco.  O bichinho rodopiou, rodopiou, ro – do – pi – ou...  e  quando chegou ao chão já estava sem cabeça. A menina que acabara de se comportar tal qual uma assassina inveterada, sorriu orgulhosa de seu feito. Como pôde agir assim com um bichinho tão inocente? O segredo, pensei, não está na  pseudo-utopia  do agir sem medo e sim em comportar-se corajosamente diante do que lhe assusta antes que, o que lhe assusta, perceba que você está com medo e lhe faça refém.  Ela ria do bichinho, ela ria da minha cara espantada... Eu quis fazer um sermão, mas não disse coisa alguma. Ela não parava de rir, olhando para o inseto acéfalo, e eu que pensei em dar um boa bronca, também achei engraçado. Depois fiz uma careta de deboche para os trovões, fechei as cortinas e adormeci segura e calma, ao lado da menininha.



Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 15 de dezembro de 2014.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

“É mais fácil fazer da tolice um regalo, do que da sensatez”

 A incompletude, escreveu Manoel de Barros, é a maior riqueza do homem. Sendo assim, eu sou a pessoa mais rica que conheço. Concebo-me incompleta como ninguém.

          Ah, incompletude! A essência humana, no afã dessas linhas ambíguas, fazendo-me tecer veios na instabilidade semântica de Manoel de Barros, para escrever uma crônica, cujas visões oníricas revelam a realidade de viver: crescer dói.

Eu queria cinco chances. Para viver cinco vidas, ter cinco profissões distintas, morar em cinco países diferentes... Eu queria ser um palhaço, queria ser astronauta e também professora. Queria ser antropóloga e conhecer a cultura de todos os povos, e com eles e por eles, desbravar o mundo à procura de algo que faça com que a vida tenha um sentido real na Terra.

Mas o que eu queria mesmo era Ser Benevolente e viver aonde o vento descansa as pestanas e se veste de coisa alguma depois de banhar em águas plácidas... E descobrir se é verdade que “a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." Penso que para isso, Manoel,  eu precisaria mesmo de cinco chances. Ser Benevolente? Impossível, sou abastada em imperfeição...

Não dá para ser apenas um, quero ser muitas. Não vejo sentido em ser apenas vital. Nascer, reproduzir e morrer... Deve existir algo além. Algo que transcende as picuinhas passionais. Quero pagar pra ver. Não quero ser apenas aquela que acorda às cinco da manhã, que almoça ao meio-dia e se deita às vinte e uma horas depois de assistir ao jornal.

Dê-me uma receita, uma universal panacéia. Um substrato ético que cura a incompletude do ser. Algo que Nicolas Flamel não descobriu em sua pedra filosofal. Um elixir da longa vida que não está na alquimia, nem nas medicinas, tradicional ou contemporânea, tampouco, na indelével busca pela felicidade.

Dê-me, oh céus! O elixir da completude, e eu enfim morrerei para tantos. Mas, sobretudo morrerei para dentro. Porque metade de mim busca-me e a outra metade despede-se de mim. Porque parte do que sou é para ser feliz e outra parte, parte... Parte incompleta e é sempre incompleta que retorna...

Porque eu quero ser tantos e nunca ser esse eu que se adapta a tudo e a todos. Esse eu inautêntico e camaleão. Porque eu quero mais que efêmeras alegrias na realização das tarefas cotidianas, mais que pequenos brindes por cumprir deveres...

Ah, Manoel de Barros... estou rindo chorando... Você aí, fazendo versos, com Mario Quintana e Arthur Miranda. E eu aqui com esse fado de não entender quase tudo sobre o nada... Pois o meu mundo sem vocês  é  tão  profundo de vazios e eu moro em meus próprios abismos e ando em promiscuidade com os meus fantasmas incompletos. Porque fui marcado à exposição de minhas fraquezas, ao desalento, ao amor, à poesia.  Porque eu, assim como vocês, dou sentido à vida, com coisas sem sentido algum...

(Homenagem aos meus poetas brasileiros preferidos: Arthur Miranda, Mario Quintana e Manoel de Barros)


Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás - em 17 de novembro de 2014. 


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Dor de amar a vida


No instante em que fora espancado, estava distraído. Tem essa mania de estar sempre pensando em outra coisa – “tudo” é sempre outra coisa –, segredo para não sentir dor-de-viver. Mas enquanto sua face girava de um lado para o outro – tal qual uma biruta no frenesi do vento –, ele pensava mesmo era no som das bofetadas...
Um som que o ensurdecia, deveras, devido ao toque violento próximo aos tímpanos. Um silvo longo e finíssimo zunia como uma cigarra em seus ouvidos, e ele pensava, reflexivo como um Buda – seria aquele o som triunfal da morte? Estaria agora mais perto, enfim, de um deus?
Deuses. Passou a vida sem acreditar neles e por que acreditaria encontrar-se com um, agora, ali? Talvez tenha sido por causa da sinfonia que laureou a sua cabeça num zunido quase insuportável.
Ah, aquele zunido! Aquele maldito zunido, era algo de que ele queria libertar-se com o único intuito de ouvir as batidas descompassadas do seu coração... Aquele, sim, era um som bonito de se ouvir – sorriu –, podia vislumbrar o modo como o seu coração se agitava dentro do peito. Maravilhoso: cada artéria, cada contração, cada pulso minuciosamente orquestrado de modo superlativo... Mas era cômico... Tão cômico, meu Deus.
Caído, sentia uma dor lancinante a lhe comprimir o peito e pôde ouvir o barulho do sangue na fronte, correndo com muita pressa para levar ao cérebro a informação de que a carne estava sendo subjugada. Pode-se ouvir – sim, nesse instante –, pode-se ouvir coisas: vá devagar, não suba as escadas correndo... degrau após degrau... não corra. Não corra.
Mas o que estava correndo ali era o sangue, e a passos largos, no afã de conter o medo.  Na verdade, ele não sentia medo, não sentia nem mesmo a dor... Sentia a vibração do som, a melodia do instante, o balanço trépido dos músculos, o sussurro das gentes, o choque hipovolêmico e, enfim, o silêncio absoluto. Uma paz, também, absoluta. Uma paz jamais sentida. Uma alegria d’alma capaz de fazê-lo flutuar sobre os demais, apesar do peso que lhe cobria os membros... O peso era cheiroso – lembrava as primeiras chuvas do ano, que somente chegam bem depois daquele cheiro – o cheiro de terra molhada.
Olhou para cima para contemplar de quem eram as lamentosas vozes que o aturdiam e até nesse momento se viu distraído: um pássaro diminuto daqueles chamados de “Fim-fim” – cor azul-petróleo e o peito amarelo-ouro e com aqueles seus tímidos pezinhos a ciscar a terra em busca de um suculento verme... encontrou muitos, e os devorou como num passe de mágica  – depois, voou lindamente.   
Magnífico! Sorriu, e no entorpecimento da fadiga, deixou-se levitar – estava cansado: cansado o corpo, cansado o coração, cansado o espírito – olhou para o céu – o céu estava tão longe. O céu é muito longe para se alcançar degrau-por-degrau... Longe demais... Cansado. Tão cansado que a ânsia pela morte lhe transbordou o pensamento em versos: quero, oh, Deus!, uma existência breve/ como a de um pássaro/ uma linda plumagem e um canto maravilhoso em louvor à vida/ vida-breve em voos perto do céu/ e, depois, Fim-Fim.

O poeta escreveu essas palavras na lápide da memória e adormeceu sem ao menos inculcar que estava enterrado. Dias depois o Fim-fim voltou para comer os vermes gordos que sobrepujavam a sepultura... Dias depois o poeta não sabendo que jazia morto - abolava na mente a ideia de que a vida-é-coisa-fabulosa.

Clara Dawn é escritora: romancista, contista, cronista do Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia  e Editora Cultural da União Brasileira de Escritores de Goiás. www.claradawn.com
(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás - em 03/10/2014)