quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Suicídio: se liberar o porte de armas será como se 7 Boeings lotados caíssem todo mês, afirma estudo

“É como se os suicídios se tornassem invisíveis, por serem um tabu sobre o qual mantemos silêncio. Os homicídios são uma epidemia. Mas os suicídios também merecem atenção porque alertam para um sofrimento imenso, que faz o jovem tirar a própria vida”, alerta Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).
Criador do Mapa da Violência, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz destaca que o suicídio também cresce no conjunto da população brasileira. A taxa aumentou 60% desde 1980. O Brasil registrou 11.433 mortes por suicídio em 2017 – em média, um caso a cada 46 minutos. Nos últimos 5 anos, 48.204 pessoas tentaram suicídio, segundo registros de entradas em hospitais, mas isto é um 'subdiagnóstico', estima-se que esse número é muito maior. Dados oferecidos pela diretora da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Fátima Marinho. Em números absolutos, porém, o Brasil de dimensões continentais ganha visibilidade nos relatórios: é o oitavo país com maior número de suicídios no mundo, segundo ranking divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2014. (Fonte – BBC)
Segundo a Organização Mundial de Saúde, o suicídio é a segunda causa de mortes entre jovens entre 15 e 29 e já é considerado uma epidemia. As meninas são as que mais tentam. Os meninos são os que mais conseguem. Por isso o índice de suicídio é maior do que entre os homens.
A saúde mental do Brasil está péssima. Cerca de 11 milhões de pessoas foram diagnósticas com depressão, quase 6% da população. É o número 1 com maior prevalência da doença na América Latina, o 2 nas Américas, ficando atrás apenas dos estados unidos. A saúde mental precisa urgentemente ser reconhecida como umas das prioridades nas políticas públicas. Em muitos países, programas de prevenção do suicídio passaram a fazer parte das políticas de saúde pública. Na Inglaterra, o número de mortes por suicídio está caindo em consequência um amplo programa de tratamento de depressão. Reduzir o suicídio é um desafio coletivo que precisa ser colocado em debate. A indiferença, a omissão, o silêncio, não podem ser nossas respostas. Fazer nada é a pior decisão que podemos tomar sobre qualquer assunto.

E se o porte de armas fosse liberado no Brasil?
De acordo com uma recente revisão de 31 artigos científicos sobre suicídio, mais de 90% das pessoas que se mataram tinham algum transtorno mental como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar e dependência de álcool ou outras drogas. No Brasil, porém, persiste a falta de políticas públicas para prevenção do suicídio, com o agravo da passagem do tempo e do aumento populacional. E se o porte de armas fosse liberado no Brasil, teríamos mais suicídios, mais mortes por acidente e, consequentemente, menos segurança pública. Nos EUA, a maioria das mortes por armas de fogo acontece dessa forma – incríveis 64,2% dos 37.200 óbitos em 2016. No Brasil, essa porcentagem é de 4%, ou 1.728 mortes. Se os mesmos 4% da população do Brasil andasse armada (o que representaria 6 milhões de novas armas em circulação), o total de pessoas que tiram a própria vida todo ano, proporcionalmente, passaria dos 16 mil. É como se 7 Boeings lotados caíssem todo mês. Estes dados foram analisado por Thomas V. ­Conti, pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Entre 2013 e 2017, ele traduziu 48 resumos de pesquisas sobre armamentos para cravar: 90% delas são taxativas ao dizer que um maior número de armas aumenta o número de crimes letais e suicídios. (Fonte: Super Interessante)
Mais de 50% dos adolescentes trans tentam o suicídio
Nós que trabalhamos com prevenção ao suicídio estamos muito preocupados com a disseminação do ódio às minorias. Mais de 50% dos adolescentes trans tentam o suicídio, indica estudo feito ao longo de três anos pelo professor Russell B. Toomey, da Universidade do Arizona-Tucson (EUA). 51% dos adolescentes que se identificaram como transgênero relataram pelo menos uma tentativa de suicídio. O psicólogo Tiago Zortea - Suicidologista - atualmente uma das referências internacionais em Prevenção ao suicídio, afirma que "as experiências de estigma e discriminação vividas pelas pessoas da comunidade LGBT se mostraram significativamente associadas a todos os três aspectos da tendência suicida [tentativa de suicídio passada, ideação suicida no presente, e probabilidade de recorrência de tentativa de suicídio no futuro]. Tais experiências incluíram fatores de estigma na escola (por exemplo, professores não se manifestando contra o preconceito, lições negativas sobre minorias sexuais), reações negativas de familiares e amigos quanto ao processo de revelarem-se LGBT, e assédio ou experiências criminosas especificamente voltadas à comunidade LGBT [homofobia ou LGBT-fobia]. Outros fatores como ser bissexual, não se sentir aceito onde se vive, fazer parte de uma minoria sexual mais jovem, e a autorevelar-se LGBT também se mostraram associados à tendência suicida. Fatores não-LGBT também significativos neste estudo incluíram gênero feminino (ser ou identificar-se como mulher - [sexismo]), apoio social reduzido, ansiedade / depressão, busca de ajuda, experiências de abuso / violência e abuso sexual".
Reduzir o suicídio é um desafio coletivo que precisa ser colocado em debate. “Nossa resposta não pode ser o silêncio. Nossas chances de chegar às pessoas que precisam de ajuda dependem da visibilidade”, fala do psiquiatra Humberto Corrêa no artigo 'Suicídio aumenta no Brasil, mas isso poderia ser evitado' - publicado na revista Planeta (edição 421, Outubro de 2007).
(Excerto de "Jovem, não morra na Golden Gate", artigo (prelo) de pesquisas teóricas e de campo, da romancista e psicopedagoga Clara Dawn, que tem se dedicado ao assunto desde 2014).
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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Adolescência: a fase mais difícil do cérebro humano


Existir é um processo mental doloroso, principalmente entre os 12 e 27 anos quando o cérebro experimenta grande transições. É como ligar um aparelho elétrico de 110V numa tomada de 220V: ao ligar um aparelho 110V em uma tomada de 220V, o aparelho receberá o dobro da tensão elétrica que necessita, e como consequência entrará em colapso. E é durante esse terrível estágio da vida que fazemos os mais angustiantes malabares entre reticências, exclamações e interrogações, constituindo assim, a adolescência como a fase mais difícil da existência humana, pois a não compressão dessa acentuada ebulição mental em si mesmos, faz com que muitos jovens optam pelo ponto final, tomando assim uma 'pseudo solução' definitiva para um problema temporário.

O cérebro, este organismo incrível,  precisa ser estudado, compreendido e tratado como se trata todo o resto do corpo. Por isso, precisamos falar com nossos adolescentes sobre o que está acontecendo dentro da sua cabeça e que isso é uma evolução natural de seu cérebro. É a mais longa e dolorosa fase de transformação de sua vida. É um ciclo quase insuportável? Sim, é verdade, mas quando os adultos o compreende e aceita-o como o ciclo mais difícil de se fechar na vida e passam a falar sobre ele com seus filhos adolescentes, incentivando-os a dizerem o que sente, a não se isolarem na dor, a verbalizarem suas dores de existir e se permitirem à ajuda de  profissionais da saúde mental, ou de grupos de apoio, o afeto da família, dos amigos, de voluntários; o suicídio pode ser evitado.

Entretanto, há situações em que nenhuma dessas coisas adiantam. Porque não existe uma única razão para que alguém opte pela automorte. O suícidio é o resultado de uma rede de fatores biológicos, genêticos, psicológicos e socioculturais e é por isso que não são só os adolescentes que matam, mas a incidência é 60% maior na fase de transição do cérebro da adolescência para a vida adulta.

Tenho observado em muitas das pessoas que pedem ajuda, que elas não suportam em si mesmas a ideia de se autoajudarem; elas não têm misericórdia de si mesmas; não têm boa vontade com o seu processo de autocura... E elas não têm culpa de se sentirem assim, pois é como se estivessem no fundo de um poço aguardando por alguém que lhes jogue uma corda, mas quando isso acontece, só o fato de terem que laçar a corda em volta de si e darem o sinal para serem puxadas, é um esforço doloroso demais para elas. Porque quando se está no fundo do poço, a pessoa precisa ser salva de si mesma. Jogar a corda não adiantará. É preciso descer onde ela está e só depois de ouvi-la e compreender suas lágrimas, você poderá se agarrar a ela e levá-la para fora - para longe de onde ela estava - para que ela enfim comece a olhar para si mesma fora do poço e comece a acreditar que há uma existência com um sentido real fora do poço. Na prática isso quer dizer que não adiantará, coisa alguma, você dar conselhos, dar dicas de como sair daquele momento terrível. Só o que adianta, é ouvi-la, é compreendê-la, é abraçá-la, é demonstrar praticando que você tem tempo para ouvi-la.

Clara Dawn
#setembroamarelo
#suicídiofalaréamelhorsolu
#ligue188
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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Para Quando Você Estiver Cansado De Tudo E De Todos

Todos nós, as vezes, nos sentimos cansados em todos os sentidos da vida: físico, mental, emocional. Nenhum lugar é bom o bastante, nenhum momento desperta felicidade capaz de amenizar o nosso vazio interior e a gente passa a viver sorrindo por fora e com um sentimento de “sei lá o quê” por dentro. Nos sentimos cansados de pessoas também: das pegajosas, das falantes, das dissimuladas , das mentirosas, das chatas e até das boazinhas demais.

A fase da caixinha

Você talvez não saiba ou ainda não tenha pensado a respeito de o nosso cérebro, é um “computador” que de tempos em tempos faz o seu backup (sua cópia de segurança) com o intuito de fazer uma atualização de todos os seus programas operacionais. Nesse momento ele não fará uma varredura para deletar o conteúdo irrelevante e/ou deletar vírus, ele só fará sua cópia de segurança: tudo, tudo mesmo, será amontoado numa caixa diminuta demais para tanto. Assim, tudo que você é, sente, pensa e realiza, vai se amontoar nessa caixinha.

O livro “O cérebro que se transforma” de Norman Doidge, psiquiatra, psicanalista e pesquisador do Columbia University Center for Psychoanalytic Training, mostra a mais recente novidade em relação ao cérebro humano, que ele se modifica sem o uso de cirurgias ou medicamentos, ou seja, o cérebro se automodifica: é um órgão plástico, vivo e pode de fato transformar as suas próprias estruturas e funções, mesmo em idades avançadas.

Cansados de tudo e de todos

Segundo Norman Doidge, as autotransformações do cérebro fazem-nos compreender como os sentimentos, o sexo – ou a falta dele, as frustrações, os relacionamentos, o aprendizado, os vícios, a cultura, as tecnologias, as vozes – ou o silêncio, as influências externas, a fenomenologia social… são capazes de deixar-nos cansados de tudo e de todos.

Norman Doidge destaca ainda que a automodificação, a mesma que faz toda a bagunça entre discurso, ação e sentimentos, deixando-nos vulneráveis e à mercê do cansaço integral; também é ela que provê avançados recursos capazes de ressignificar nossas vidas.

A palavra é “Ressignificar”

Ressifnificar, segundo o dicionário online,  é a ação de atribuir um novo significado a algo ou alguém. Lembra que falamos que no instante em que o cérebro faz o seu backup, ele não faz uma varredura nas coisas irrelevantes e ruins, ele coloca tudo dentro da caixinha e por isso que a gente fica confuso, sem ação e com tédio de todas as coisas e até das pessoas?

A primeira coisa que você deve pensar quando se encontrar nessa situação é de que é uma fase e você precisa vivenciá-la com responsabilidade. Vivenciá-la, não ignorá-las, não fugir dela, não depreciar-se, não com autopiedade ou vitimização; vivenciá-la, como disse, com responsabilidade e a decisão de quem sabe que tudo na vida é obra de um momento; que existir é um processo mental doloroso e que jamais se deve julgar o comportamento de alguém por não saber em qual momento de transformação o seu cérebro está passando: todos têm o seu “autoprazo” para agir ou desistir.

Como fazer a varredura mental

Martin Seligman, em seu livro Otimismo Aprendido, sugere exercícios mentais para tornar o  dia a dia positivo, vivaz e, especialmente, bem humorado: uma vez que também, o humor é o traço mais visível quando se trata de revelar se alguém está feliz ou não.

O exercício é baseado em ressignificar sentimentos, fatos, palavras e pensamentos, de forma que consigamos entender os acontecimentos de uma maneira menos auto-defletiva, auto-punitiva e estigmatizante. É um exercício focado em aumentar e desenvolver a capacidade de resiliência e sobretudo da vontade de viver.

Um dos elementos chave da pessoa resiliente é a habilidade de desenvolver novas perspectivas para interpretar os acontecimentos negativos e dar a eles um novo significado ou sentido.


Os exercícios mentais – para os instantes em que nos encontramos cansados de tudo e de todos – são:

Primeiro: silêncio e solidão afim de fazer a varredura nos assuntos e sentimentos irrelevantes. Nesse exercício é permitido expor e verbalizar o que pensa e sente – fale consigo mesmo – com o Seu Poder Superior – diga tudo, chore e até xingue se sentir vontade, mas depois siga para o exercício seguinte. Não se deve jamais estacionar nesse primeiro exercício,  lembre-se, é uma fase a ser vivenciada com responsabilidade.

Segundo: exaustão física e água. Isso mesmo, tome muita água e permita que o seu corpo alcance uma especie de exaustão: caminhar rápido, correr, malhar, lutar, dançar… não importa, a exaustão física e a hidratação – unidas assim – são fontes incontestes de saúdes físicas, mentais e emocionais – por várias razões químicas/físicas que não focaremos neste artigo.

Terceiro: a prática diária da serenidade, do pensamento positivo. Na medida em que focamos mais nas avaliações positivas das situações podemos perceber e sentir que temos algum controle sobre nós e nossa resiliência aumenta. Portanto, mesmo se o seu estilo hoje é ser um pensador pessimista, sugiro a prática da serenidade como uma habilidade para um estilo vida otimista, tolerante, vivaz e energético. Relembrando sempre da transitória circunstancial dos momentos e da automodificação de seu cérebro.

Texto de Clara Dawn - publicado originalmente no Portal Raízes
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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Aos que esperam por um amor

As pessoas estão sempre se queixando de que não encontram o amor (chamam-no pessoa certa, cara metade, tampa do balaio…), mas quando surge à oportunidade de vivenciá-lo, tratam-no com relapso. Fazem dele um tipo de amor camaleão. Aquele que precisa adaptar às sobras do tempo. Aquele que sobrevive de lamber as migalhas que lhe são oferecidas. Ora, como pode algo bom crescer disso? Vão espremendo o amor nas raras horas livres, entre um ‘depois e outro depois’.

Um amor de verdade não pode ser espremido dentro da realidade da vida. É a realidade da vida que tem se encaixar nas sobras de tempo do amor. A maioria de nós não sabe amar. Quer, mas quando encontra um amor, deixa-o sempre à mercê das sobras de tempo da realidade. Parece-me tão real o fato de que, o que fazemos por dinheiro é muito mais relevante do que o que fazemos por amor. Dedicamos nossas vidas integrais trabalhando, fazendo coisas de que não gostamos para ganhar um dinheiro que vamos gastar com diversas matérias das quais não precisamos realmente.

Tolo isso, né? Pois desta vida só levaremos o amor doado/recebido; cativo/cativado: sintonia, cumplicidade, afeto, doação…Sem magia – para mim – não há relacionamento. A quinze metros do arco-íris – disse Manoel de Barros – o sol é cheiroso. Se o desencanto daqueles que não sabem amar, invade o peito, vísceras e emoções, acontecer com a minha relação afetiva, eu deito a lona e sigo a estrada rumo ao arco-íris. Pois um relacionamento só vale a pena ser vivido se for intenso de afetividade, simples, divertido, recíproco… Do tipo pingue-pongue. Somos mágicos e todo o encanto mútuo que desejarmos, temos o poder de produzi-lo.
Acolá e aqui, sempre há arco-íris cheios de sóis cheirosos. E nem precisa forçar alguém a sê-lo. Só precisa sintonizar. A sua sintonia sempre comungará com a frequência de outrem. Você não precisa mudar quem você é para se adequar ao jeito do outro. Por favor, jamais faça isso. Do contrário adoecerá suas emoções e sua mente tentando em vão ser aquilo que não é. Ao contrário do que dizem, os opostos não se atraem, eles se destroem. As energias se atraem. E sempre haverá alguém cuja natureza vital é compatível com a sua. Siga, vibre sua mente, coração e vontade nesta frequência e o sol ficará bem cheiroso num repente.

A gente fica esperando para vivenciar a afetividade depois da crise, depois da fase difícil, depois que terminar a maratona de projetos, depois da viagem a trabalho, depois da promoção, das eleições, da reforma da casa, da separação, da aposentadoria… Depois… E a vivência prazerosa do amor não chega nunca, porque a vivência do amor não está no futuro, mas só no agora. E o amor não pode esperar que tudo se resolva, porque isso jamais acontecerá. O amor só precisa acontecer aqui e agora. Basta que você se permita vivenciá-lo. Mas o amor nunca será sua cara metade, a tampa do seu balaio, a aquela pessoa certa… Porque o amor genuíno precisa de pessoas completas: dois inteiros – não um que dependa do outro para ser feliz.
 
Dois inteiros felizes e completos numa aliança de entrega mútua à vivência de uma história afetiva saudável. Em suma, o amor só exige serenidade para acontecer com plenitude e graça. Pratique a serenidade e o amor vai acontecer em fim. Serenidade é aquela coisa que abala as mais rígidas estruturas mentais e emocionais. A serenidade não é feita de egoísmo, nem de narcisismo, é o saber continuado do amor, é a afirmação de uma magia praticável, a atenção desperta aos morangos que surgem à beira dos abismos. A serenidade é o segredo do riso fácil, faz bem as saúdes física, mental e emocional. A serenidade embeleza, vitaliza e perfuma. É a verdadeira substância do amor. Quanto a mim? Estou serena como um Buda.


Crônica de Clara Dawn – Publicada originalmente no jornal Diário da Manhã – DMRevista – em 23 de setembro de 2017 – Goiânia – Goiás.

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segunda-feira, 12 de março de 2018

Vou embora pra Muquém


É que há dores demais neste corpo aqui. Há tantas dores que delas eu vivo caçoando... Há dores tantas que eu decidi fazer um samba de antítese mais ou menos assim:

Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar.../ Gargalha desse choque nas costas/ faça troça desse mal fisgado/ chuta esse autobreque/ o corpo não é quadrado.../ dor é pra rolar/ a dor é pra rolar.../canta nem que seja um trecho/ um refrão, um assobio inacabado/ Mas não se farte de agonia só porque o pulso tá agoniado.../ Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar...

Então eu fui cantar a minha letra usando a música do Martinho da Vila: “Canta, canta minha gente” e até gastei um bom tempo tamborilando os dedos no controle remoto da TV... Não deu pra ser um samba, acho que se parece mais com rap ou outra coisa qualquer que ninguém consegue colocar ritmo.

Devia ter escrito um poema desses tantos que rimam dor com o amor, mas qual? Essa dor que a gente deveras sente e, finge que, mesmo com ela está contente...não é um andar muito comum entre às gentes?

Ora, e se creio, aqui comigo - entre uma vertigem e outra - que um corpo febril inspira-me versos mil...hei de cantá-los em sonora voz, hei de escrevê-los com dedos de uma rima vil...

E agora que Sheakespeare dedilha as cordas dos meus tendões, o samba é nulidade e a dor é transcendental.

Então, sigo fabulando-a com a doçura de palavras fáceis... Com quanto na verdade mais pura, quisera eu, calar os meu aís com gritos. Já que gritar eu até posso - mas só para dentro o faço -ouso patuscar, e sem remorso, os versos de Bandeira:

Vou-me embora pra Muquém/ Lá sou amiga dos deuses/ Lá faço a reza que eu quero/ Pro santo que escolherei/ Vou-me embora pra Muquém/ Aqui eu vivo doente/ Lá a crença é autocura/ De tal modo consequente/ Que eu, Maria-vai-com-as-outras/ Sou curada gentilmente/ Até de doença que nunca tive./ Daí eu vou pagar promessa/ Subir, de joelhos, o Morro dos Cruzeiros/Tomar banho no Córrego das Lagrimas/ E se lá eu encontrar o fantasma de Antonio Antunes/ Que Nossa Senhora do Muquém/ Proteja-me com sua medalha/ E se ainda assim eu estiver triste/ Com tamanha dor que não cabe no peito/ E quando antes de dormir/ de vazio, eu ficar cheia.../Vou lembrar-me: — em Muquém sou amiga dos deuses —/ E eu faço a reza que eu quero/ Pro santo que escolherei/

Sim, vou embora pra Muquém. 

(Vou embora pra Muquém - Crônica de Clara Dawn - Disponível em claradawn.com

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terça-feira, 6 de março de 2018

Mudar O Que Se É Para Adequar Ao Outro Não É Altruísmo, É Burrice


Mudar o que é para se adequar ao outro não é altruísmo, é burrice. Amar alguém demasiadamente, ao ponto de fazer infindas concessões para satisfação do outro em detrimento da própria satisfação, é falta de amor próprio.

É engolir a própria vida que lhe matará de dentro para fora: primeiro o esôfago, o estômago, o intestino e depois os rins e o coração. E você não compreenderá por que mesmo tendo um biorritmo saudável, ficou doente. Mas é sua vida, seus sonhos, seus anseios, suas perspectivas, seu amor próprio, sua autoestima, seu eu autêntico… que estão fazendo um “coquetel molotov” dentro de você. E tenha certeza, uma hora ou outra, vai explodir de um jeito catastrófico.

Amar verdadeiramente, é deixar livre. É não cobrar aquilo que deveria ser espontâneo. É claro que não existem relacionamentos perfeitos. Se alguém busca por uma união perfeita, colorida, divertida, onde tudo se encaixa harmoniosamente… é melhor comprar um jogo de lego.

Relacionamento é feito de duas pessoas é uma construção em comum acordo – uma via de mão dupla. Porque reciprocidade não deve ser uma obrigação. Antes é um fator de sintonia. Se não acontece num instante, não acontecerá numa vida inteira juntos.

Todavia você jamais conseguirá construir uma relação sadia e harmoniosa se tentar – em vão – unir pessoas de energias opostas. Sendo assim, lute contra a vontade insana de mudar o outro. A sincronia – nos ensinou Carl Jung – é a única forma dos pares encontrarem as felicidades fluídas de ambos.



Conheço gente que sonhou com uma cobertura e se casou com o primeiro andar, depois passou a vida inteira tentando transformar o primeiro andar em cobertura e quando enfim conseguiu, não deixou a cobertura esquecer que um dia foi primeiro andar. É claro que isso é só uma metáfora cabotina para a nossa compreensão de que energias opostas não se atraem, se destroem. Não tente mudar o outro, não se perca de si mesmo para se adequar ao outro. Decida ser quem você é e vibre em sua própria sintonia. Creia, alguém com a mesma energia vai lhe encontrar.

Mesmo porque – “in natura” – a gente não deixa de ser aquilo que é. Num tempo agimos de modo adaptável, e talvez inconsciente, por receio de perder o objeto de desejo. Aí chegamos a acreditar que mudamos mesmo. Mas, num dia qualquer, o verdadeiro eu explode e a gente volta a cometer as mesmíssimas falhas de convivência.

Porque o homem tem por natureza a incompletude. Já profetizou Malaquias que os olhos do homem jamais se fartam ainda que creiam que fartos estão. Porque somos bichos instintivos, porém escravizados por estigmas da civilidade. Se tirar do homem tudo o que as civilizações lhe emprestam em termos de convivência social, não haveria progressos, deveras, e tampouco escravidões.

É maravilhoso ter para quem voltar no final do dia. Mas lembre-se, só se for para os abraços do seu maior fã. É comum desejarmos a companhia de alguém, a afetividade bilateral. Quem não quer? Eu então, ô! Eu estou sempre com fome de afeto. Sofro por não ser correspondida à altura quando insisto em unir energias opostas. Aí fico com os olhinhos lagrimejados de um não sei o quê – do tipo – poxa vida!

A gente recebe o amor que julga merecer. Eu aprendi praticando que é melhor viver sozinha e se sentir um sucesso ainda não encontrado, do que numa duo vivência que lhe induz a crer que você é um fracasso em termos gerais.

Clara Dawn
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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Prezados pais, precisamos falar urgentemente sobre suicídio na adolescência

“Vou lhes contar a história de um jovem estudante de arquitetura, aspirante a piloto da aeronáutica e poeta. Cresceu dentro da normalidade de uma família de classe média baixa de pais separados. Era um bom filho. Dedicado aos estudos e muito amoroso com os familiares e também com seus amigos.
Aos 14 anos começou a fazer o uso de substâncias psicoativas e como a sua vida parecia seguir dentro da ‘normalidade do uso recreativo da maconha’. Ele concluiu lindamente o ensino médio; ganhou 3 medalhas nacionais de matemática e física; foi tricampeão de Caratê; passou em todos os concursos que prestou, inclusive no vestibular de arquitetura da Universidade Estadual de Goiás, e se preparava para a prova de admissão para piloto da aeronáutica quando algo extraordinário aconteceu: Ele teve um surto psicótico.
Aos 19 anos, ele entrou em Franco Surto Psicótico. Sim, ele surtou literalmente: Ouvia vozes, via pessoas sem cabeças transitando pelas ruas, achava que tinha o poder curar pessoas e animais, arquitetou um plano extraordinário para salvar o planeta… As vozes eram insanas, agressivas, persuasivas e incessantes. Ele parou de dormir e de se alimentar… Perdeu mais de 10 quilos em poucos dias. A internação foi inevitável, pois o risco de suicídio era iminente.
O diagnóstico: Transtorno Psicótico Agudo, tipo Esquizofreniforme (Esquizofrenia Paranóide F20.0 – Cid 10) – com alteração grave da consciência, pensamento delirante, ideação suicida e alucinações visuais.
– Isso tem cura doutora?
– Não.
– Tem controle?
– Se ele nunca mais usar qualquer tipo de droga, pode ser que ele possa ter uma vida livre dos surtos, mas nunca mais poderá parar de tomar os remédios.  Mas se ele usar maconha mais uma única vez, nós não conseguiremos trazê-lo de volta a lucidez nunca mais.
Ele saiu da clínica livre do surto. Compreendeu a doença e aceitou o tratamento: visitas semanais à terapia e visitas diárias aos Narcóticos Anônimos. 5 meses depois ele decidiu que deveria tirar à prova o que a médica disse e fez aquele que seria o último back de sua vida.
No dia seguinte estava outra vez em surto. Desta vez mais grave. As ideações e tentativas de suicídio eram diárias. Precisou ser internado outra vez. Mas nenhum remédio foi bom o bastante para livrá-lo das malditas vozes. Nenhum tipo de tratamento severo foi autorizado: do tipo lobotomia ou eletroconvulsoterapia por sua família. E era desejo do próprio rapaz manter-se acordado a fim de escrever tudo o que estava lhe acontecendo. E ele escreveu a sua história como aqueles que sabem exatamente o fim que dará a ela.
Ele sabia o que não queria da  vida. Ele não queria viver daquele jeito. Para alguns a esperança não é a última que morre, mas é a última esperança. Ele não queria morrer, ele apenas não queria mais viver. É diferente. E no dia 17 de agosto de 2013, aos 20 anos, o jovem poeta optou pela automorte, se enforcando no quarto da clínica onde estava internado. O nome deste jovem é Arthur Miranda, e a sua mãe sou eu”.  Clara Dawn
Em setembro eu disponibilizo a minha in box no Facebook para conversar sobre o assunto. Você encontra vários artigos sobre drogadição na adolescência e os transtornos mentais no blog que mantenho desde o início da doença do meu filho: Projeto Bola 16

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sábado, 10 de junho de 2017

O meu nome é mais infeliz do que eu

Uma viúva não é uma mulher solteira. Uma viúva não é divorciada. Uma viúva é mulher casada com um marido morto. Há, por estas bandas, uma igrejinha tão pequeninha  (redundância, eu sei, não me importo), pois mirando-a através da minha janela sinto paz tamanha que vontade eu tenho de ficar miúda só para parecer-me com ela. Às vezes, mas só às vezes, quando fico em silêncio, às seis da tarde, eu ouço o sino tocar melancólico... Ele soa a sua sina. Soa frígido sino! Soa a sua sina. Sua sina. Sua, sua...

É verdade que o meu coração permanece como se tivesse engolido um guarda-chuva aberto e eu sinto-me tão solitária quanto um pardal na chuva por ter que dizer adeus tão precocemente aos dois homens (marido e filho) que mais amei na Terra. Mas esta realidade é o  capítulo atual da minha vida e é um clímax... Toda história depois do clímax toca uma música suave. E depois há uma estrada longa fluída por essa canção energicamente triste... E a estrada termina numa encruzilhada e a música para e ainda não é o fim, basta decidir qual caminho seguir e aí uma nova música começa a tocar. Outras paisagens se formam e já não se é a mesma pessoa de antes e ainda que se lembre de quem era, este "era" não pode mais sentir aquilo que tanto lhe fez sofrer.

Recordo-me de sentir o perfume fabuloso das rosas que se abriram só porque eu tive boa vontade em regar suas sementes. Só porque eu não as deixei sozinhas diante dos escaravelhos e também das chuvas de granizo... Só porque eu fui teimosa o bastante para aguentar seus espinhos e aceitar que rosas, por estarem vivas, podem num instante, também morrer. Somente possuímos o que conseguimos nos desapegar. Pois somos escravos daquilo que não deixamos ir. Tenho comigo que deixar ir é o único modo de amar verdadeiramente. 

Ser viúva aos quarenta anos e perder um filho numa morte trágica foi a minha sina. E por que não comigo? Deixo-os ir, todos os dias, desde então.

Mas foi para o vosso desencanto que eu escrevi esta crônica. Para que saibam que apesar de eu ser aquela a quem chamam de triste sem o ser; o meu nome é mais infeliz do que eu. Sou – e é verdade – aquela que ás vezes chora com infindas razões para tal, mas eu não quero ser lembrada como se fosse uma fortaleza rodeada por placas de advertência. Porque as minhas crenças, o meu coração, o meu estado de espírito e a minha essência, estão em constante promiscuidade com a minha verve e qualquer pessoa que deseja conectar-se comigo, precisa dialogar primeiro com o que eu escrevo. Sou uma romancista. 

Minha prosa fictícia é a minha existência feliz.  Então, olhem além do que está à mostra e não façam da minha existência feliz  uma biblioteca vazia de leitores, com Charles Bukowski arranhando a escrivaninha. Por isso arquivem o primeiro parágrafo desta crônica, pois é o soar de um novo capitulo para um novo livro. Arquivem o primeiro parágrafo e todo o resto, podem apagar.




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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Clara Dawn e o assombroso 'gran finale' em O Cortador de Hóstias - Por João Cezar Pierobom


Assombro. É o gran finale. Um tutti em que, na música, todas as vozes, ou linhas melódicas, se ajuntam, ou todos os instrumentos entram para que, na cadência final, tudo se acabe e o silêncio nos toma, como que desprevenidos, com a respiração retida. Mas que, nesse livro de Clara Dawn, nesse O Cortador de Hóstias, onde o profano submete o sagrado, parece não ter fim, como o acordar de um sonho que nem é sonho e nem é realidade. E fica-se, sentado no leito, a indagar para a escuridão, o que foi fantasia e o que foi a vida mesma na sua concretude cruel. Aparência ou verdade? Vai se saber...

A obra mais se assemelha a uma fuga, em moto perpetuo. Seria nos moldes da Arte da Fuga de Bach? Será? Dúvidas não nos vão faltar, como nos intrincados contrapontísticos bachianos que, geniais, tiram beleza da complexidade, ou de um aparente tumulto. E destarte vai o narrador, como sujeito elíptico, desenvolvendo a narrativa em ‘primeiras pessoas’, como se fossem linhas melódicas unindo-se e se separando, tendo ao fundo uma ‘terceira pessoa’, o narrador que, vez por outra, como uma espécie de corifeu, ‘pula para dentro do drama’. Entretanto, não vai passar despercebido ao leitor atento que uma das ‘primeiras pessoas’ é justamente o cortador de hóstias. E a sua história é uma espécie de baixo continuo, um pedal de órgão, aquilo que em harmonia dá substância aos harmônios, sons que são ‘irmãos’ ou ‘primos’ de dados sons fundamentais. E isso, por certo, funciona, como uma espécie de leitmotiv, motivo central, que trabalha dando unidade à obra. A voz do cortador de hóstias vai como que costurando a trama polifônica do conjunto de vozes em ‘primeiras pessoas’.

Não é fácil escrever um romance, ou conto, em ‘primeira pessoa’. Essa forma traz, por vezes, dificuldades. Como tratar sentimentos, ou impressões, de ‘outros’, que não o narrador, em ‘primeira pessoa’? Mas Clara Dawn resolveu o problema narrando em diversas ‘primeiras pessoas’. O que contribuiu, como forma polifônica, para a densidade da exposição.

Balzac e Stendhal, quando precipitam a trama dramática, “não param nem para colher uma florzinha, na beira do caminho”. Não há pausa possível. O fôlego é retido. Não se olha para trás, nem para admirar a paisagem, ou para se ver longe o horizonte. Nada. Os passos são imperativos. A imagem não é minha. Confesso que, uma pena, perdi a referência. Eles vão como os rios tumultuosos que descem as montanhas, levando tudo de roldão pela frente. Balzac o faz geralmente após os seus coups de théatre, as reviravoltas que mudam o curso, o ritmo da narrativa e... os destinos das personagens.

E em meio a esses destinos está a condição da mulher, tema que funciona como uma espécie de argamassa que cola os lindos pedaços de vidros multicolores de um vitral caleidoscópico, que joga a sua luz, que vem do sol, nos espaços escuros das catedrais. Partes soltas de cores que são como que unidas pela beleza, ou amor, que  derramam o seu calor sobre lajes cinzentas e frias. Ali está a brutal desigualdade que ainda imperava, entre nós, mesmo nos princípios do século XX. Mulheres vendidas por pais. Às vezes por eles abandonadas. Qual a diferença? Jogadas no mundo da existência. E aí? O que lhes restaria senão o corpo frágil? Um corpo seu? Será? Para se dizer o menos. Por séculos, as mulheres, inclusive as belas, por mais razões ainda, foram usadas para selarem alianças de dinastias entre reis coroados e senhores da guerra. Interesses de Estado. Que o diga Henrique VIII da Inglaterra. Uma democrática Inglaterra que somente em 1918 iria reconhecer o direito das mulheres ao voto. Por aqui, isso se daria, não muito mais tarde, em 1932. Se o mundo era ruim, que o digam os homens...

O Cortador de Hóstias conta a história, algo trágico, de uma dessas mulheres. Cecíla Meireles dizia que cantava porque existia e porque era poeta. Cora Coralina cantava dizendo que os seus versos tinham o peso do machado. Nhanhá do Couto encheu os nossos gerais e veredas com a música do seu piano francês trazido para Goiás em carro de bois. Belkiss Spencière e Glacy Antunes continuaram a sua obra, ensinando os jovens, e inundando a nossa Goiânia com a música dos grandes mestres. Aqui... aqui mesmo, nas quebradas da Grande Floresta. Elas deram o seu recado. O de Clara Dawn também está dado.

Mas, e o assombro? E o gran finaleO assombro aparece após o penúltimo, e grandioso, coup de théatre. O rio tempestuoso da narrativa leva margens, pedras, matacões e troncos nos seus rodamoinhos. E, num repente, estamos extáticos como no fim do Grande Sertão – Veredas de Guimarães Rosa, ou do fecho de O Tronco de Bernardo Elis. A respiração está retida. Assim mesmo como ficavam os assistentes de Romeu e Julieta, e de Otelo, de Shakespeare, no Globe Theatre, em Londres. Descobrimos, então, a verdade do que dissera o desesperado e impotente Marke, em Tristão e Isolda, de Wagner: “o mal anda mais rápido do que o bem”.


No último golpe de teatro, um verdadeiro deus ex-machina, que parece, não descer dos céus, mas, provir do inferno, na voz do corifeu, não sabemos se estamos diante do sonho, da fantasia, da loucura, da quimera, ou da nua e seca realidade. Onde estariam as fronteiras disso tudo? E o tempo? Qual seria o tempo? As aparências tomam conta do real? Elas seriam a verdade? Mestre de palco! Pano de boca!


O cortador de hóstias - romance de Clara Dawn está disponível aqui: http://www.portalraizes.com/produtos/
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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Pechepeche - Portal Raízes


A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Bechepeche




Em Clara Dawn não se exaurem nunca as modulações e acrobacias transformistas que dão ao texto um revoante cenário de abstrações e múltiplos rituais expressionistas.

Na abrangência generalizada de suas publicações anteriores, rastreiam-se conotações que podemos alinhar em itens que vinham aflorando em crônicas e romances: capacidade ilimitada de reformular a estrutura convencional de muitas figuras de estilo, como faz com a metáfora, amplificando-a linguisticamente.

Dessa maneira comparativa entre duas palavras, como é a forma usual, ela cria primeiramente um enovelado de ideias que levam o leitor a sugestões e expectativas de inúmeras imagens já admitidas antes como definitivas em suas intenções sugeridas, mas o arremate do texto, em contraponto a tudo que se estabeleceu, culmina num fecho de ambivalência, de paradoxo surreal, às vezes levando, isto sim, o leitor a um solilóquio desconcertante e inusitado.

A versatilidade, que é o seu fundamento principal e que resultaria na pletora mirabolante de estesias em “O Cortador de Hóstias”, irrompe também adotando Chaplin como símbolo e patrimônio canônico de arte trêfega e multivária.

Passa sua prosa nos moldes de narração contrapontista e de incursões incompletas definidas de um romance entre ensaísmos literários de psicologia, mesclado de lances policialescos figurados. Atenta-se que este gérmen, agora em afloramento, geraria um fantástico e inédito (na literatura brasileira) parâmetro literário, como foi criado em “O Cortador de Hóstias”.

Clara Dawn tem a primazia do circunlóquio elaborado com exclusiva chancela pessoal, que se distingue, neste item, de Joyce, Proust e Virginia Woolf (aproximação, aliás, elegantemente expressa em “Um olhar estrangeiro sobre a obra de Clara Dawn”, na crítica hiperconsciente de Fátima Santana (Portugal) e endossada por Reynaldo Jardim, que a nomeou como a Clarice Lispector de Goiás. Isto porque a incursão desses fatores na técnica de monólogo interior em 1887 com “Les lauriens Sont Coupés”, em Joyce, por sua impetuosidade criadora, se faz em torvelhinho de entrechoques fráseos, em Proust, se conduz o fluxo subjetivista dentro da caixa craniana do leitor e em Virginia Woolf os objetos se pulverizam em abstrações da sentimentalidade.

Já em Clara Dawn, esta escrita automática é revestida de outras dimensões que a formam e a fazem rica de facetas porque a autora converge na sua trama, com sutileza de prestidigitadora, arrebanhamentos e fractais, como se transplantados e arrolados de outras fontes, além de evolver a narrativa também em contrapontos, os quais ainda resultam em efeito que será focado mais adiante, criadores de uma característica literalmente inédita na ficção policial. É óbvio, ainda, que a criptografia é da essência subjetivista desse fluxo de pensamento que ,assim condimentado por todos esses ingredientes em fusão no texto, personalizam a exclusiva modulação estética de Clara Dawn. Aliás, salta aos olhos a reformulação estilística a que se obrigou com a faiscação merídia da linguagem em processo de eurritmia da frase, no cadenciamento da sonoridade vocabular pelo repique fonemático de feliz harmonização, construindo-se um dos esteios de estilização em um texto que usa uma estrutura estetizante múltipla de facetamentos. Estes, por exemplo: nas páginas 15 e 46, a fusão do imagético ao organoléptico aromático consegue aquela proeza que Manuel Bandeira fazia recender em seus poemas, que, segundo Agripino Grieco, tinha o cheiro de carne feminina. Na página 25, usufrui da oralidade goiana e cria um capitoso naco escritural que nada deve aos soberanos e insuplantáveis textos de Bernardo Élis.

O realismo fantástico que repercute ao longo do romance ganha matizes dissímeis do modelo clássico. Este, geralmente, em fantasias lantejouladas e alegorizadas, mas quase sempre narradas somente pelo autor. Enquanto que “O Cortador de Hóstias” revela um tríplice artesanato de acrobacia escritural: o autor, um narrador e a própria personagem incrivelmente tramam o texto. Não há como não dizer uma genialidade arisca e esquipática de Clara Dawn... pois consegue esta mixagem com um conglomerado de fundamentos da estilística: torvelinha a linguagem e as imagens, surde criptografias e técnica operatória, desata o fluxo de consciência libertária libertina por uma escritura com e sem sequência (contrapontos), fragmentária e interrupta, encadeando o natural com o sobrenatural etc. etc.
Entretanto, não é só este aspecto remodelador do tipismo padrão do realismo mágico que a maleabilidade transliterante de Clara Dawn irradia: também comparece o caráter clássico desse cânone estético nas páginas 23, 49 e 50 (alguns exemplos são Balzac, Erico Curado, Veiga Vale, aqui respectivamente tornados ficção), além disso ainda ressoando características que o universo inesgotável do realismo fantástico propicia, a descrição em que aparece o natural difuso no sobrenatural compõe imagens de martírio rembrandtdantes nas páginas 40 e 57, sendo esta última um medalhão surrealista em pavor e tintas infernais a la Dante Alighieri.

Nem o ensaísmo literário faltou no elenco de simbolizações, uma vez que “O Cortador de Hóstias”, a partir da página 110, ensancha a dolente atmosfera do romance para focar o patrimônio histórico de Pirenópolis. É óbvio que o livro não é um gênero literário do tipo romance policial. Contudo, pelo seu excepcional dispositivo temático-escritural, pelas ações esquipáticas da personagem central, pelo eixo contrapontístico dos capítulos (o que é o suporte fundamental do policial legítimo), indo tudo confluir em desfecho típico de estrutura detetivesca, compulsa uma fantasmagórica encenação de sherlockismo estético que nos leva a afirmar que Clara Dawn criou o policial mental. Neste torvelinhoso painel imaginário de “O Cortador de Hóstias”, a ascensão estilística atinge várias vezes a dimensão de página antológica com sagaz paleta descritiva de paisagem feérica em ouro e luz... e Clara Dawn fulgura incontestavelmente como consagração de primeira linha na ficção nacional.
Mário Jorge Bechepeche é médico e crítico literário. 



Lançamento do romance O Cortador de Hóstias – da escritora Clara Dawn




“O Cortador de Hóstias” é o oitavo livro da escritora Clara Dawn*, sendo o terceiro na categoria romance.


 É ambientado em Pirenópolis, Goiás, em 1918, e a história é contada por três narradores-personagens e um narrador-observador.A trama se divide em quatro partes: a primeira se desenrola segundo a visão da protagonista, a vingativa Flor Maria, possuída pelo ódio por causa dos abusos sexuais sofridos na infância. Ela elabora um plano para matar o seu algoz.
A segunda parte é epistolar, na qual o personagem Venceslau escreve cartas, jamais enviadas, para sua amada morta. O “reverendo Vence” é seguido por um grande séquito que o adora e é por ele adorado, mas até mesmo no paraíso há serpentes. 
A terceira é a narrativa do observador, aquele que julga os atos dos personagens segundo a influência que cada um deles sofre. É possível que o narrador-observador possa também se emocionar e se injuriar, precipitar-se e até mesmo enlouquecer diante das premissas dadas, perdendo-se, assim como os personagens, entre realidade e divagações. Para o narrador-observador, coisa alguma é o que parece ser.
A quarta parte é descolada das narrativas: o suposto cortador de hóstias, num diálogo invisível com um delegado, tenta justificar seu estranho hábito de bolinar garotinhas. 

Trata-se de um romance envolvente repleto de mistérios, suspense e até momentos que vão do hilário ao desconfortável em mais de um sentido.  Reflete a influência do sincretismo religioso vigente na época e das lendas da história de Pirenópolis. A personagem principal é uma espécie de Santa Dica às avessas. Em todo o processo narrativo, é possível encontrar traços da Prima Bete de Honoré de Balzac. Até mesmo os nomes da maioria dos personagens são tributos ao escritor francês, como o cavalo Melmote Apaziguado, o mendigo Onagro e a cafetina Valéria Marnefe. 
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De pedras e de hóstias: conexões entre a prosa da sueca Camilla Läckberg e da goiana Clara Dawn





Fonte: Jornal Opção

De pedras e de hóstias: conexões entre a prosa da sueca Camilla Läckberg e da goiana Clara Dawn


Há no mínimo curiosas similitudes entre os romances “O Cortador de Pedras” e “O Cortador de Hóstias”
Valdivino Braz
Especial para o Jornal Opção

Em “O Cortador de Hóstias”, os fatos se narram por conta de três personagens e por um narrador fazendo às vezes de autor do livro. O romance de Clara Dawn é composto por quatro partes | Divulgação
Em “O Cortador de Hóstias”, os fatos se narram por conta de três personagens e por um narrador fazendo às vezes de autor do livro. O romance de Clara Dawn é composto por quatro partes | Divulgação
A escritora Clara Dawn traz consigo o dom da escrita, ou da escritura literária. A letra ao pé da letra, a escrita escorreita e correta para se narrar uma história e/ou tecer crônicas destacam os fios de seu talento estético. Traz senso de leveza e medida, noção do que seja subjetividade criativa, com sensibilidade poética. Sim, o cronista enquanto poeta do cotidiano, além da reflexão sobre fatos corriqueiros (ou insólitos) que se narram.
Cronistas há que escrevem apenas pelos cinquenta ou não sei quantos reais por crônicas de lauda e meia, algumas delas medíocres, para não dizer intragáveis — qualquer coisa sem alma ou empatia com os temas. Por excelência, cabe ao cronista sublinhar o contorno das coisas, o que elas tragam de interessante. Captar a essência do banal ou mesmo extrair alguma epifania das supostas insignificâncias, pois tudo significa alguma coisa. Epifania ou insight no sentido joyciano — manifestações súbitas, quer na vulgaridade do discurso ou do gesto, ou em uma fase memorável da própria mente… “São os momentos mais delicados e evanescentes” —, ou de captar a luminosidade e ser surpreendido pelas “grandezas do ínfimo”, ao jeito do poeta Manoel de Barros. Mas aqui não se trata de crônicas ou cronistas e nem de poemas, mas sim de romances.
Romancista, contista e cronista — além de pedagoga, com pós-graduação em Psicopedagogia —, Clara Dawn, com efeito, lavora no campo da literatura e publica desde 2008, ao lançar seu primeiro romance, “Alétheia” — que, em grego antigo, quer dizer verdade/realidade, ou, segundo Heidegger, após análise etimológica do termo a-letheia: a- (negação) e lethe (esquecimento): tentativa de compreensão da verdade/desvelamento. Ah, como somos pernósticos!
“O Cortador de Hóstias” é o mais recente livro de Clara Dawn, com o selo da Editora Livres Pensadores, da qual a autora é diretora-executiva, atuando também como produtora de conteúdo da revista “Raízes — Jornalismo Cultural”, que tem como editor-chefe seu marido, o jornalista Doracino Naves. Entre outros livros de Clara estão “Sofia Búlgara” e o “Tabuleiro da Morte” (crônicas), ”Castelo de Bolso” (infantil) e “Arthur o Grande Urso” (infantil).
Nuanças/sutilezas e, contudo, a diferença. Não que se esteja ou queira aqui fazer — e já fazendo — leigas especulações comparativas; instigante, todavia, a humana curiosidade a certo cotejamento/confronto de semelhanças e diferenças, similitudes, ecos ou ressonâncias. Venho de ler, paralelamente, “O Cortador de Hóstias” (154 páginas), de Clara Dawn, e “O Cortador de Pedras” (“The Stonecutter”, com 447 páginas), da escritora Camilla Läckberg — sueca, ela tem romances policiais, best-sellers, traduzidos para 35 idiomas e vendidos em 50 países.
Camilla Läckberg assina obras como “A Princesa de Gelo” (2003), “Gritos do Passado” (2004), “O Estranho” (2012), “Os Diários Secretos” (2007), “A Sombra da Sereia” (2008) e, dentre outras, “O Faroleiro” (2011) — as datas se referem aos anos de publicação na Suécia —; algumas delas traduzidas e publicadas no Brasil a partir de 2010. “O Cortador de Pedras” (“Stenhuggaren”, em sueco) foi publicada em 2005, na Suécia, e apenas (que saibamos) em 2011, no Brasil.
É de se notar que, segundo declarações de Clara Dawn à imprensa, “O Cortador de Hóstias”, primeiramente com o título “O Vale das Quimeras”, se iniciou em 2010, ambientado em Ouro Preto (MG) e no ano de 1975. Nas palavras da autora, era para ser um livro com três contos longos, aparentemente distintos, mas que traziam a lume a mesma história, narrada por diferentes personagens. A história girava em torno de uma suposta sucuri, no Vale das Quimeras, que, em noites sem lua, arrastava crianças para o fundo do rio, após abusar delas sexualmente. (Nada a ver uma coisa com outra, mas as coisas umas às outras se levam, como nos leva a sucuri, por analógica digressão nossa, à Anaconda mostrada pelo cinema ou a Yara?).
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Senão, vejamos: sobreditos romances sob um certo rastreamento. Em 2010, Clara es­crevia “O Vale das Quimeras”. No ano se­guinte, 2011, “O Cortador de Pedras”, de Camilla Läckberg, saía publicado no Brasil; e, já em 2012, o romance de Clara Dawn, em andamento, sofre uma guinada após a conversa da autora com um amigo, que lhe apresentou a máquina de cortar hóstias. “Pronto! Fiquei louca pela ideia de dar voz ao meu assassino de crianças”, palavras de Clara à imprensa. E assim mudou-se o título do romance para “O Cortador de Hóstias”, e mudou-se o locus, de Ouro Preto, em Minas Gerais, para a Pirenópolis de 1918, em Goiás.

A autora, provavelmente, se baseia num antigo aparelho cortador de hóstias, que funcionava manualmente, por meio de prensagem e corte. Ao que se sabe, a hóstia é feita com farinha e água. A massa da hóstia — com os ingredientes misturados numa prensa quente — resulta no pão ázimo, o “Corpo de Cristo” dos católicos, sendo este cortado em vários tamanhos. Com a massa já prensada e seca, colocada na superfície do mecanismo de ferro afixada sobre a caixa de madeira do cortador, processava-se o corte e as hóstias iam caindo na gaveta do aparelho.
Consta que as aparas, sobras ou retalhos de hóstias, cheios de círculos perfurados, serviam para alimentar porcos. Meio herético ou profano, isso, não? No passado, recortavam-se as hóstias até com tesoura. Atualmente, indústrias com tecnologia moderna atendem à demanda de hóstias, com data de validade que varia de oitos meses a dois anos.
Mas, sim, prosseguindo com nossas conjecturas, o título do romance de Clara Dawn, “O Vale das Quimeras”, foi então substituído por “O Cortador de Hóstias”. Pois bem. Por suposto que Clara, nesse ínterim, entre 2010 e 2011, teria lido (ou não?) o romance de Camilla Läckberg, podendo então que o título de seu romance se tenha como ressonância de “O Cortador de Pedras”. Ou então Clara não leu o romance sueco e tenha apenas se espelhado no título de Camilla? Ou nada disso e simplesmente porque as ideias estão no ar e o novo título do romance tenha vindo ao contato de Clara com o aparelho cortador de hóstias? Não checamos isso com Clara; optamos pelo risco de exercitar a humana curiosidade e nossas (talvez improváveis) considerações.
Corrija-nos, a autora, se aqui estivermos alicerçados apenas em leigas e meras suposições, até porque “literatura comparada” (ou lá o que seja) não é nossa especialidade — para isso (abre indelicado parêntesis) temos por aí os mestres abalizados, ainda que entre eles haja algum bípede enfunado, atarracado na arrogância do saber e segundo o qual, com suas idiossincráticas e acintosas indiretas, quase tudo que se escreve em Goiás, no campo da literatura, é ruim. Crítico de quinta coluna, de bastidores e boicotes. Mal sabe do que sabemos, em nosso parco saber, até por bocas de Matildes, e do que guardamos para mais tarde, antes do advento do Apocalipse, com o asteroide em rota de colisão com a Terra. Haverá palmas e risos, choro e ranger de dentes. Antes disso, nada se conta, mas acrescentam-se dois pontos: era uma vez um enfunado, ensimesmado sapinho, que foi indo e mais se enfunou, até que, num belo dia, cheio de si, se arrebentou. (Fecha parêntesis.)
De passagem — e teremos que reler o romance de Clara, o que seguramente faremos, seja pela estrutura do romance, pela técnica literária da autora, pela linguagem e suas imagéticas, pela densidade das personagens ou pela escabrosa atmosfera do romance, enfim —, não vimos bem, na personagem Flor Maria, uma Benedicta Cypriano (dita Santa Dica, ou Dindinha) às avessas, conforme declaração da autora. Nem seria mero esboço nesse viés ao avesso da messiânica Benedicta, um fato dos anos 1920, ao passo que a história do cortador de hóstias se ambienta em 1918, dois anos antes, portanto. E não é esse o eixo do romance “O Cortador de Hóstias”. De resto, o que sabemos?
Quanto às ressonâncias, nem há por que se encrespar, são naturais em muitos escritores (em nós mesmos, admitimos), inclusive na crítica, nos contos e romances dos próprios críticos (inclusos os sapinhos). De mais a mais, não se é dono das palavras, são elas de domínio público, não exclusivas deste ou daquele autor, salvo quando elas expressam, nítida e inconfundivelmente, a forma ou estilo peculiar, inerente e criativo, ao jeito de quem as formula de modo original. Peculiaridade essa, aliás, passível de se tornar clichê estereotipado em mãos de terceiros e até banalizar e diluir autoria de ideias originais — daquele outro autor, e não de quem delas se apropria, usurpa, repete/redunda ou “mimetiza”, até de forma involuntária (pois sim!), senão que desatento ou automaticamente traído pelo inconsciente. Orai e vigiai-vos, diríamos. Ou melhor: vigiemo-nos. Numa escala classificatória de autores, Ezra Pound distingue os “mestres” (os melhores) dos apenas “bons escritores, sem qualidades proeminentes”, e distingue dos “inventores”, os meros “diluidores”, que não vão além de suas limitações, parcos recursos, mediano intelecto.
Algumas ressonâncias de supostas leituras (ou nem se trata disso) encontramos, de forma indelével, no novo romance de Clara Dawn. Ao “cortador de hóstias”, ela apõe como epíteto “o filho do diabo”, que nos lembra um título de Bukowski, e mais adiante se refere a “anjos e demônios”, ecoando romance da “onda” Dan Brown, além de dar a perceber também uma sombrazinha de influência do escabroso de pelo menos um ou dois conhecidos autores goianos, que, por sinal, já “contaminaram” prosa e poesia em Goiás, até de críticos sapinhos.
Comparativamente, há elementos e claras similitudes ou similaridades ou semelhanças (apraz-nos encadear sinônimos e aliterações) entre as estruturas e atmosferas de ambos os romances. A propósito, e por mais exemplo entre muitos outros “naturais” (como dizíamos), lendo-se o romance “A Mulher de Costas”, de Marcia Tiburi, vai-se “ouvindo”, repetidamente, que a personagem Maria José é “nascida e renascida”, adendo este que ressoa parte homonimamente intitulada no inventivo e fascinante romance “Avalovara”, de Osman Lins, em que este qualificativo (“nascida e renascida”) se aplica a uma de suas personagens.
Já o título “O Cortador de Pedras”, alusivo a um cortador de blocos de granito e escultor, não nos parece adequado a toda a trama do romance de Camilla Läckberg, salvo que por algum sentido metafórico que nos tenha escapado. Durante a leitura, fica-se focado na expectativa com esse cortador de pedras — espécie de elemento a pretexto de toda a trama —, e meio que se frustra o espectador com as revelações (maestria de Camilla), embora já viéssemos (dedutivos psicossensores) com nossas suspeitas, recaindo sobre o verdadeiro assassino,
como se confirma. (Ainda nos anos 1950, quase 1960, em Uberlândia/MG, influídos pelas histórias de crime, mistério e suspense, meio que iniciamos ou intentamos um curso de detetive particular, por correspondência, com o renomado professor Bechara Jalkh, do instituto que leva seu nome, sediado no Rio de Janeiro; e até ajudamos a polícia civil de Uberlândia nas investigações e prisão de uns golpistas e maconheiros que se hospedaram na pensão de nossa tia Rosa). O cortador de pedras, na verdade, não vem a ser o centro ou eixo na trama da escritora sueca, e não se conecta senão como involuntário leitmotiv (motivo condutor ou de ligação) com os fatos que ocorrem em Fjälbacka, pequena e idílica cidade, onde a própria Camilla Läckberg nasceu. O assassino aí se move por razões bem mais profundas, em traumas de infância enraizados no fundo do tempo, logo pertinentes ao campo da psiquiatria.

Assassinato da menina Sara (entre ou­tros), rede de pornografia infantil, pedofilia, abusos sexuais e suicídio, conflitos de v­i­zi­nhos, espancamento de mulheres, adultério, es­posas infelizes, abandono de filhos, planos de vingança, atos escabrosos e culpas do presente e do passado (entre os anos de 1924 e 1962) vão surgindo na trama de “O Cortador de Pedras”, com o crime investigado pelo detetive Patrick Hedstrom. Algo similar, em aspectos, se dá no romance de Clara Dawn. No aspecto das revelações fi­nais, é menor o impacto no romance de Cla­ra do que na trama de Camilla Läckberg, tí­pica autora de best-sellers, com obras propícias ao cinema (e o de Clara Dawn também, por que não?), como, aliás, força do gê­nero, parece ser o destino de certos best-sellers.
Estrutura, técnica narrativa, atmosfera, densidade, personagens e sondagens do ser humano. Semelhanças entre os dois romances em foco, com as respectivas diferenças que os sustêm e distingue. Em “O Cortador de Hóstias” os fatos se narram por conta de três personagens e por um narrador fazendo às vezes do autor. O romance é composto em quatro partes, a começar pela personagem Flor Maria, tomada pelo ódio e desejo de vingança por causa dos traumáticos abusos sexuais sofridos na infância. Outra parte mostra o reverendo Venceslau que escreve cartas, jamais enviadas, para sua amada (Flor Maria) supostamente morta. Cartas dentro de uma caixa que esteve enterrada durante anos, e uma delas guardando segredo que será oportunamente revelado. A terceira parte corre por conta do narrador que vai alinhavando toda a trama do romance, e para o qual “coisa alguma é o que parece ser”. Já numa parte à parte (ou quarta parte), ganha autonomia narrativa um suposto cortador de hóstias, molestador de garotinhas e que, em depoimento ao delegado, busca inocentar-se do crime de morte das crianças. Inocentes indefesas, que teriam sofrido abusos nos fundos escuros da bestialidade, onde o vulto monstruoso insinuava-se à luz de lamparina.
Assim, “O Cortador de Hóstias” constitui um quebra-cabeça de variadas visões, e nele o escabroso se abre com um cheiro de querosene (a lamparina), frutas em decomposição e odor de chiqueiro. Ao longo do romance, vão se folheando abusos sexuais cometidos pelo cortador de hóstias contra meninas negras, abobalhadas, com algum defeito físico, abandonadas pelos pais ou vendidas para serem exploradas sexualmente. Assassinato de crianças e até um incêndio na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, como realmente ocorreu, em data mais recente, em Pirenópolis. Há no livro messiânicas religiosidades e intentos de suicídio coletivo por parte do reverendo, meio que ao modo de Jim Jones, na década de 1970, na Guiana, próxima à fronteira com a Venezuela — e seria por aqui, talvez (não por Flor Maria), o avesso dos objetivos de Santa Dica, a Benedicta de Lagolândia, um povoado de Pirenópolis. E o romance revela, finalmente, uma Flor Maria que, dada como morta, retorna, vinte anos depois, para se vingar. Mestria de Clara Dawn.
Por sua vez, “O Cortador de Pedras”, de Camilla Läckberg, se abre com a morte da menina Sara, que um pescador de lagosta descobre ao puxar sua rede com a pesca do dia. O suposto afogamento acidental, no mar, cai por terra quando a autópsia revela que a água encontrada no corpo da menina não é salgada e possui traços de sabão, o que leva a suspeita de um assassinato em Fjällbacka. Adiante, se descobre que Sara foi criminosamente afogada na banheira de sua casa, inclusive sendo forçada a engolir uma certa quantidade de cinzas. Coisa macabra, pois se trata de cinzas dos mortos, de pessoas assassinadas pelo principal suspeito, e pelo mesmo carbonizadas numa casa propositalmente incendiada. Similitudes elementais, como se vê, entre um romance e outro, além da proximidade de datas em que ambas as tramas se iniciam: em 1924, os fatos do romance de Camilla; em 1918, os fatos narrados por Clara. A exemplo, enquanto no romance da autora sueca se fala de uma reveladora caixa azul com as cinzas dos mortos, no romance de Clara Dawn há uma caixa de cartas, entre elas um envelope carmim com a carta secreta e reveladora. Coisas assim e algo mais, comparativamente paralelas.
Ao fim, longe de nós o intento de subestimar (antes, atestar) o dom de Clara com a literatura, autora e obra que temos em boa consideração, e podendo até que, a outros pretextos, só estejamos aqui a nos exibir (ah, meu Deus, outro conto de sapinho?) como leitores inveterados e atentos. Aos críticos e teóricos do assunto, a tarefa da análise aprofundada e o abalizado esclarecimento. A nós, particularmente, que transitamos mais pela superfície da matéria, e antes alicerçados na diferença do que nas supostas ressonâncias, nada temos que desabone “O Cortador de Hóstias”, o qual realmente apreciamos e cuja leitura recomendamos. Leiam o novo e envolvente romance de Clara Dawn.
Valdivino Braz é jornalista e escritor.
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