quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Clara Dawn e o assombroso 'gran finale' em O Cortador de Hóstias - Por João Cezar Pierobom


Assombro. É o gran finale. Um tutti em que, na música, todas as vozes, ou linhas melódicas, se ajuntam, ou todos os instrumentos entram para que, na cadência final, tudo se acabe e o silêncio nos toma, como que desprevenidos, com a respiração retida. Mas que, nesse livro de Clara Dawn, nesse O Cortador de Hóstias, onde o profano submete o sagrado, parece não ter fim, como o acordar de um sonho que nem é sonho e nem é realidade. E fica-se, sentado no leito, a indagar para a escuridão, o que foi fantasia e o que foi a vida mesma na sua concretude cruel. Aparência ou verdade? Vai se saber...

A obra mais se assemelha a uma fuga, em moto perpetuo. Seria nos moldes da Arte da Fuga de Bach? Será? Dúvidas não nos vão faltar, como nos intrincados contrapontísticos bachianos que, geniais, tiram beleza da complexidade, ou de um aparente tumulto. E destarte vai o narrador, como sujeito elíptico, desenvolvendo a narrativa em ‘primeiras pessoas’, como se fossem linhas melódicas unindo-se e se separando, tendo ao fundo uma ‘terceira pessoa’, o narrador que, vez por outra, como uma espécie de corifeu, ‘pula para dentro do drama’. Entretanto, não vai passar despercebido ao leitor atento que uma das ‘primeiras pessoas’ é justamente o cortador de hóstias. E a sua história é uma espécie de baixo continuo, um pedal de órgão, aquilo que em harmonia dá substância aos harmônios, sons que são ‘irmãos’ ou ‘primos’ de dados sons fundamentais. E isso, por certo, funciona, como uma espécie de leitmotiv, motivo central, que trabalha dando unidade à obra. A voz do cortador de hóstias vai como que costurando a trama polifônica do conjunto de vozes em ‘primeiras pessoas’.

Não é fácil escrever um romance, ou conto, em ‘primeira pessoa’. Essa forma traz, por vezes, dificuldades. Como tratar sentimentos, ou impressões, de ‘outros’, que não o narrador, em ‘primeira pessoa’? Mas Clara Dawn resolveu o problema narrando em diversas ‘primeiras pessoas’. O que contribuiu, como forma polifônica, para a densidade da exposição.

Balzac e Stendhal, quando precipitam a trama dramática, “não param nem para colher uma florzinha, na beira do caminho”. Não há pausa possível. O fôlego é retido. Não se olha para trás, nem para admirar a paisagem, ou para se ver longe o horizonte. Nada. Os passos são imperativos. A imagem não é minha. Confesso que, uma pena, perdi a referência. Eles vão como os rios tumultuosos que descem as montanhas, levando tudo de roldão pela frente. Balzac o faz geralmente após os seus coups de théatre, as reviravoltas que mudam o curso, o ritmo da narrativa e... os destinos das personagens.

E em meio a esses destinos está a condição da mulher, tema que funciona como uma espécie de argamassa que cola os lindos pedaços de vidros multicolores de um vitral caleidoscópico, que joga a sua luz, que vem do sol, nos espaços escuros das catedrais. Partes soltas de cores que são como que unidas pela beleza, ou amor, que  derramam o seu calor sobre lajes cinzentas e frias. Ali está a brutal desigualdade que ainda imperava, entre nós, mesmo nos princípios do século XX. Mulheres vendidas por pais. Às vezes por eles abandonadas. Qual a diferença? Jogadas no mundo da existência. E aí? O que lhes restaria senão o corpo frágil? Um corpo seu? Será? Para se dizer o menos. Por séculos, as mulheres, inclusive as belas, por mais razões ainda, foram usadas para selarem alianças de dinastias entre reis coroados e senhores da guerra. Interesses de Estado. Que o diga Henrique VIII da Inglaterra. Uma democrática Inglaterra que somente em 1918 iria reconhecer o direito das mulheres ao voto. Por aqui, isso se daria, não muito mais tarde, em 1932. Se o mundo era ruim, que o digam os homens...

O Cortador de Hóstias conta a história, algo trágico, de uma dessas mulheres. Cecíla Meireles dizia que cantava porque existia e porque era poeta. Cora Coralina cantava dizendo que os seus versos tinham o peso do machado. Nhanhá do Couto encheu os nossos gerais e veredas com a música do seu piano francês trazido para Goiás em carro de bois. Belkiss Spencière e Glacy Antunes continuaram a sua obra, ensinando os jovens, e inundando a nossa Goiânia com a música dos grandes mestres. Aqui... aqui mesmo, nas quebradas da Grande Floresta. Elas deram o seu recado. O de Clara Dawn também está dado.

Mas, e o assombro? E o gran finaleO assombro aparece após o penúltimo, e grandioso, coup de théatre. O rio tempestuoso da narrativa leva margens, pedras, matacões e troncos nos seus rodamoinhos. E, num repente, estamos extáticos como no fim do Grande Sertão – Veredas de Guimarães Rosa, ou do fecho de O Tronco de Bernardo Elis. A respiração está retida. Assim mesmo como ficavam os assistentes de Romeu e Julieta, e de Otelo, de Shakespeare, no Globe Theatre, em Londres. Descobrimos, então, a verdade do que dissera o desesperado e impotente Marke, em Tristão e Isolda, de Wagner: “o mal anda mais rápido do que o bem”.


No último golpe de teatro, um verdadeiro deus ex-machina, que parece, não descer dos céus, mas, provir do inferno, na voz do corifeu, não sabemos se estamos diante do sonho, da fantasia, da loucura, da quimera, ou da nua e seca realidade. Onde estariam as fronteiras disso tudo? E o tempo? Qual seria o tempo? As aparências tomam conta do real? Elas seriam a verdade? Mestre de palco! Pano de boca!


O cortador de hóstias - romance de Clara Dawn está disponível aqui: http://www.portalraizes.com/produtos/
0

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Pechepeche - Portal Raízes


A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Bechepeche




Em Clara Dawn não se exaurem nunca as modulações e acrobacias transformistas que dão ao texto um revoante cenário de abstrações e múltiplos rituais expressionistas.

Na abrangência generalizada de suas publicações anteriores, rastreiam-se conotações que podemos alinhar em itens que vinham aflorando em crônicas e romances: capacidade ilimitada de reformular a estrutura convencional de muitas figuras de estilo, como faz com a metáfora, amplificando-a linguisticamente.

Dessa maneira comparativa entre duas palavras, como é a forma usual, ela cria primeiramente um enovelado de ideias que levam o leitor a sugestões e expectativas de inúmeras imagens já admitidas antes como definitivas em suas intenções sugeridas, mas o arremate do texto, em contraponto a tudo que se estabeleceu, culmina num fecho de ambivalência, de paradoxo surreal, às vezes levando, isto sim, o leitor a um solilóquio desconcertante e inusitado.

A versatilidade, que é o seu fundamento principal e que resultaria na pletora mirabolante de estesias em “O Cortador de Hóstias”, irrompe também adotando Chaplin como símbolo e patrimônio canônico de arte trêfega e multivária.

Passa sua prosa nos moldes de narração contrapontista e de incursões incompletas definidas de um romance entre ensaísmos literários de psicologia, mesclado de lances policialescos figurados. Atenta-se que este gérmen, agora em afloramento, geraria um fantástico e inédito (na literatura brasileira) parâmetro literário, como foi criado em “O Cortador de Hóstias”.

Clara Dawn tem a primazia do circunlóquio elaborado com exclusiva chancela pessoal, que se distingue, neste item, de Joyce, Proust e Virginia Woolf (aproximação, aliás, elegantemente expressa em “Um olhar estrangeiro sobre a obra de Clara Dawn”, na crítica hiperconsciente de Fátima Santana (Portugal) e endossada por Reynaldo Jardim, que a nomeou como a Clarice Lispector de Goiás. Isto porque a incursão desses fatores na técnica de monólogo interior em 1887 com “Les lauriens Sont Coupés”, em Joyce, por sua impetuosidade criadora, se faz em torvelhinho de entrechoques fráseos, em Proust, se conduz o fluxo subjetivista dentro da caixa craniana do leitor e em Virginia Woolf os objetos se pulverizam em abstrações da sentimentalidade.

Já em Clara Dawn, esta escrita automática é revestida de outras dimensões que a formam e a fazem rica de facetas porque a autora converge na sua trama, com sutileza de prestidigitadora, arrebanhamentos e fractais, como se transplantados e arrolados de outras fontes, além de evolver a narrativa também em contrapontos, os quais ainda resultam em efeito que será focado mais adiante, criadores de uma característica literalmente inédita na ficção policial. É óbvio, ainda, que a criptografia é da essência subjetivista desse fluxo de pensamento que ,assim condimentado por todos esses ingredientes em fusão no texto, personalizam a exclusiva modulação estética de Clara Dawn. Aliás, salta aos olhos a reformulação estilística a que se obrigou com a faiscação merídia da linguagem em processo de eurritmia da frase, no cadenciamento da sonoridade vocabular pelo repique fonemático de feliz harmonização, construindo-se um dos esteios de estilização em um texto que usa uma estrutura estetizante múltipla de facetamentos. Estes, por exemplo: nas páginas 15 e 46, a fusão do imagético ao organoléptico aromático consegue aquela proeza que Manuel Bandeira fazia recender em seus poemas, que, segundo Agripino Grieco, tinha o cheiro de carne feminina. Na página 25, usufrui da oralidade goiana e cria um capitoso naco escritural que nada deve aos soberanos e insuplantáveis textos de Bernardo Élis.

O realismo fantástico que repercute ao longo do romance ganha matizes dissímeis do modelo clássico. Este, geralmente, em fantasias lantejouladas e alegorizadas, mas quase sempre narradas somente pelo autor. Enquanto que “O Cortador de Hóstias” revela um tríplice artesanato de acrobacia escritural: o autor, um narrador e a própria personagem incrivelmente tramam o texto. Não há como não dizer uma genialidade arisca e esquipática de Clara Dawn... pois consegue esta mixagem com um conglomerado de fundamentos da estilística: torvelinha a linguagem e as imagens, surde criptografias e técnica operatória, desata o fluxo de consciência libertária libertina por uma escritura com e sem sequência (contrapontos), fragmentária e interrupta, encadeando o natural com o sobrenatural etc. etc.
Entretanto, não é só este aspecto remodelador do tipismo padrão do realismo mágico que a maleabilidade transliterante de Clara Dawn irradia: também comparece o caráter clássico desse cânone estético nas páginas 23, 49 e 50 (alguns exemplos são Balzac, Erico Curado, Veiga Vale, aqui respectivamente tornados ficção), além disso ainda ressoando características que o universo inesgotável do realismo fantástico propicia, a descrição em que aparece o natural difuso no sobrenatural compõe imagens de martírio rembrandtdantes nas páginas 40 e 57, sendo esta última um medalhão surrealista em pavor e tintas infernais a la Dante Alighieri.

Nem o ensaísmo literário faltou no elenco de simbolizações, uma vez que “O Cortador de Hóstias”, a partir da página 110, ensancha a dolente atmosfera do romance para focar o patrimônio histórico de Pirenópolis. É óbvio que o livro não é um gênero literário do tipo romance policial. Contudo, pelo seu excepcional dispositivo temático-escritural, pelas ações esquipáticas da personagem central, pelo eixo contrapontístico dos capítulos (o que é o suporte fundamental do policial legítimo), indo tudo confluir em desfecho típico de estrutura detetivesca, compulsa uma fantasmagórica encenação de sherlockismo estético que nos leva a afirmar que Clara Dawn criou o policial mental. Neste torvelinhoso painel imaginário de “O Cortador de Hóstias”, a ascensão estilística atinge várias vezes a dimensão de página antológica com sagaz paleta descritiva de paisagem feérica em ouro e luz... e Clara Dawn fulgura incontestavelmente como consagração de primeira linha na ficção nacional.
Mário Jorge Bechepeche é médico e crítico literário. 



Lançamento do romance O Cortador de Hóstias – da escritora Clara Dawn




“O Cortador de Hóstias” é o oitavo livro da escritora Clara Dawn*, sendo o terceiro na categoria romance.


 É ambientado em Pirenópolis, Goiás, em 1918, e a história é contada por três narradores-personagens e um narrador-observador.A trama se divide em quatro partes: a primeira se desenrola segundo a visão da protagonista, a vingativa Flor Maria, possuída pelo ódio por causa dos abusos sexuais sofridos na infância. Ela elabora um plano para matar o seu algoz.
A segunda parte é epistolar, na qual o personagem Venceslau escreve cartas, jamais enviadas, para sua amada morta. O “reverendo Vence” é seguido por um grande séquito que o adora e é por ele adorado, mas até mesmo no paraíso há serpentes. 
A terceira é a narrativa do observador, aquele que julga os atos dos personagens segundo a influência que cada um deles sofre. É possível que o narrador-observador possa também se emocionar e se injuriar, precipitar-se e até mesmo enlouquecer diante das premissas dadas, perdendo-se, assim como os personagens, entre realidade e divagações. Para o narrador-observador, coisa alguma é o que parece ser.
A quarta parte é descolada das narrativas: o suposto cortador de hóstias, num diálogo invisível com um delegado, tenta justificar seu estranho hábito de bolinar garotinhas. 

Trata-se de um romance envolvente repleto de mistérios, suspense e até momentos que vão do hilário ao desconfortável em mais de um sentido.  Reflete a influência do sincretismo religioso vigente na época e das lendas da história de Pirenópolis. A personagem principal é uma espécie de Santa Dica às avessas. Em todo o processo narrativo, é possível encontrar traços da Prima Bete de Honoré de Balzac. Até mesmo os nomes da maioria dos personagens são tributos ao escritor francês, como o cavalo Melmote Apaziguado, o mendigo Onagro e a cafetina Valéria Marnefe. 
0

“De pedras e pedradas: o som e a fúria” - Por Valdivino Braz - Jornal Opção


Fonte: Jornal Opção

“De pedras e pedradas: o som e a fúria”


Livro-DawnVALDIVINO BRAZ
Mas o que foi aquilo? Alvoroço por conta de um mero exercício do intelecto, de curiosa leitura e repasse de observações. Não somos críticos literário, não fazemos crítica, comentamos aspectos, expressamos impressões de leituras. Similitudes em literatura existem, sim, pelo mundo afora (em nós mesmos, como admitimos no artigo), e não quer dizer que este ou aquele autor está plagiando ou que não tenha talento. Não intentamos minimizar a obra de ninguém. Os temas são sempre os mesmos, universais, e mais importa o modo de cada um contar. Escritores não estão isentos, estão expostos e devem ter caixa torácica ou psicológica aberta aos ventos adversos de alguma crítica. No nosso caso, particularmente, a “fama” é que nos difama. Aos 73 anos de idade, sob patrulhamento civil e censura à livre-expressão sobre literatura!
“Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” (frase atribuída, controversamente, a Voltaire). Tratando-se de pessoas letradas, que levamos em consideração, sugerimos que releiam, mais atentamente, o texto “De hóstias e de pedras” (caderno “Opção Cultural”, Jornal Opção 2102), no qual comentamos e especulamos sobre aspectos paralelos nos romances da escritora Clara Dawn e de Camilla Läckberg, autora sueca. Mais acuidade na leitura: perceberão que ressaltamos o talento de Clara Dawn e as qualidades de seu novo romance. O mais são conjecturas, suposições de ressonâncias (ou nada disso, como deixamos claro no artigo), sem o intento de “detonar” uma talentosa escritora. E mais: visitem o blog de Clara (www.claradawn.com) e leiam (se lá ainda se encontra) a vinheta sobre o primeiro romance, “Alétheia”, publicado por ela: “Considerado pelos escritores Edival Lourenço e Valdivino Braz, como a revelação de um novo estilo na literatura goiana”. Como, então, haveremos de boicotar ou detonar uma escritora por nós mesmos reconhecida?
E, como assim, virem dizer que boicotamos o romance de Clara, que a detonamos, e outro a insinuar que só gostamos de literatura fast food? Muito raramente lemos alguma obra deste gênero, e se lemos “O Cortador de Pedras”, de Camilla Läckberg, foi porque primeiramente estávamos a ler “O Cortador de Hóstias” (prestigiamos o lançamento da obra), de Clara Dawn, e então nos deparamos com o romance da escritora sueca nas prateleiras de um “sebo” (livros usados). Só por isso compramos o livro de Camilla Läckberg. E morremos. Se a curiosidade mata, como dizem, ponderamos que a curiosidade também é fonte de conhecimento, por temerário que seja. Não há melhor metáfora sobre o risco do conhecimento do que as páginas de livro envenenadas no romance ”O Nome da Rosa”, de Umberto Eco.
Releiam o artigo “De hóstias e de pedras”, de forma mais isenta emocionalmente (certo, amizade é coisa sagrada, e muitos que usaram o Facebook ainda nem tinham lido o romance de Clara), desprendidos de uma apressada e animosa interpretação do texto. Aqui lamentamos muito, muitíssimo, que Clara Dawn sofra por causa dos nossos incompreendidos comentários. Um texto híbrido, que redigimos, dentro do nosso costumeiro estilo (que Clara conhece bem), e alguns criticaram porque não o entenderam. Não, Clara, não nos fale em parar de escrever. Não pare, nunca! Como nos disse (a mim), via e-mail, um intelectual amigo, sobre o artigo: “Seu texto é muito bom, e valoriza o livro de Clara, inclusive ao situá-lo.” E outro, doutorando em Literatura: “Vi o seu texto, gostei muito. E você colocou em evidência o romance de Clara.” No Facebook, alguém, meio que mais ponderado, ressaltou que “cada um tem uma forma peculiar de sentir e interpretar”. Então é também isso aí.
Valdivino Braz é jornalista e escritor.
0

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Felizes 20 anos para sempre, meu filho - A hora 18

Arthur Miranda no Lago Paranoá - DF - Aquarela de Ederson Amorim.

Em memória de Arthur Miranda
26/06/1993 – 17/08/2013

Tia Bárbara tinha o hábito de nos obrigar a ficar de joelhos em frente à TV todos os dias, durante a apresentação da Hora do Ângelus. Enquanto José Divino, com sua voz afável, narrava tão belas palavras de Jávier Godinho, a gente pensava mesmo era nos tacos de “Bete” que tinham ficado jogados na rua à espera do próximo lance. Da tia Bárbara, além de seu jeito corcunda de caminhar, recordo somente isso.

Mas da Hora do Ângelus jamais me esquecerei... É que outra tarde, quando o sol se despedia dos pássaros, eu estava deitada na rede no meu Vale das Quimeras... fechei os olhos para ouvir o chiado bonito daquela despedida inevitável, e o José Divino – que beleza! –, no radinho de pilha do caseiro, louvava a Deus com ternura. Alguns minutos foram suficientes para que eu caísse no sono. Sonhei com o meu filho Arthur, ainda pequeno.

Tinha no olhar as travessuras saltitantes e chamou-me – Vem!? – e eu, num salto da rede, fui brincar com ele. Jogamos bola sobre a grama macia e nela caíamos de propósito só para inventar gols espetaculares. Como se mágica fosse, estávamos em outro lugar: a água de um riachinho escorria debaixo de nossos pés e, quando olhei para ele, oh, céus!, como estava lindo, vestido com aquele sorriso debochado e seu olhar dotado de sofisma pueril. Disse-me: Vem!? – e eu fui correr com ele naquelas águas rasas e obedientes.

Não havia pausa para lavar o rosto e tampouco provar da água – ele tinha pressa. Chamava – Vem!? – e eu não titubeava um segundo, seguia-o sem questionamentos para não perder a bondade de sua presença. Num repente, vi o meu reflexo na água e eu estava senil e frouxa. Uns 80 anos despencaram em minha face e quase chorei ... Quase. Não fosse a euforia dele – Vem, vem, vem...!?
Eu não tinha tempo para chorar, então esqueci a velhice e fui com ele, agora sobre gramíneas risonhas, com suas flores diminutas em formato de brancas estrelas. Borboletas multicoloridas voejavam sobre nossas cabeças e eu me sentia tão viva, ali ao lado dele, como se fôssemos duas crianças descobrindo as belezas da Terra.

Em outro lugar, ele então usava aquela sua camiseta azul celeste e aparentava uns 20 anos. Bonito, bonito, bonito... Com seus cabelos lisos caídos sobre a sobrancelha semicerrada: moldura perfeita para guarnecer radiante sorriso.  Chamou-me mais uma vez – Vem!? – e eu – sem delongas – saltei para os seus braços e beijei sua face morna. Ele acariciou os meus cabelos e perguntou-me se eu estava cansada. Num sorriso choroso, disse-lhe que jamais ficaria cansada ao seu lado.

Segurou a minha mão e disse: Vamos. Fomos correr, correr, correr... Corríamos e ríamos de nós mesmos quando nos faltava o fôlego. Ele, tal qual pássaro livre, vivenciava a ternura da vida sem quaisquer lembranças de seu tormento na terra. Nenhuma voz inumana perturbava sua mente e tampouco as terríveis dores de cabeça. Liberto, sorria. E quão glorioso era para mim vê-lo assim, liberto das correntes da loucura.  Liberto, meu Deus, liberto!

Depois, e enfim lânguidos, deitamos no chão para apreciarmos o pôr-do-sol. Era possível ouvir ao longe seriemas com seus gritos estridentes por causa de nossa presença.

Eu estava feliz. Uma felicidade que a mente o coração humano não sabem suportar. Por isso, chorei. Chorei, chorei, chorei... e, quanto mais chorava, mais vontade eu tinha de chorar e de sorrir para ele, que me olhava com ternura... E foi assim que um suave sorriso escapuliu do canto de sua boca e ele segurou a minha mão e disse-me: Mãe, não chora! A espera terminou. Vem comigo!  

 Olhei para minha mão, que segurava a dele, e achei-a velha demais. Preocupação tola para alguém que experimentava a benevolência de ouvir tão esperado chamado. Então, com aquele sorriso que a boca humana não sabe conter, eu lhe estendi a outra mão para que ele me ajudasse a levantar... E foi no instante em que ele arrebatava o meu corpo que eu acordei.

Maldita hora 18, que sepultou o meu filho num domingo chuvoso de um agosto eterno.

Clara Dawn

(Inspirado em O guardador de rebanhos – VII, de Fernando Pessoa)
1

quarta-feira, 27 de maio de 2015

CLIPPING – LANÇAMENTO DO LIVRO “O CORTADOR DE HÓSTIAS”

O Popular- Programe-se - 25/05/2015


Diário da Manhã - Roteiro -  25/05/2015


Romance

A escritora goiana Clara Dawn lança o sétimo livro e o terceiro romance da carreira, O Cortador de Hóstias, pelo selo Livres Pensadores, às 19h30 na Casa Altamiro (Av. Araguaia, nº 240, Esq. com a Rua 15, Centro). A obra será vendida no local pelo valor de R$ 35. A entrada é franca. Mais informações: 3945-4744.







O Popular - Magazine - 27/05/2015


Clara Dawn lança “O Cortador de Hóstias”

Hoje, às 19h30, na Casa Altamiro, no Centro, a escritora Clara Dawn vai lançar seu mais no livro, O Cortador de Hóstias, que sai pela Editora Livres Pensadores. Essa é a sétima obra da autora, que é psicopedagoga e atualmente atua como produtora de conteúdo da revista Raízes e diretora-executiva da editora.
A trama de O Cortador de Hóstias é ambientada na Pirenópolis de 1918, com uma história contada por três narradores-personagens e um narrador-observador. Divide-se em quatro partes: a primeira se desenrola segundo a visão da protagonista, a vingativa Flor Maria, possuída pelo ódio por causa dos abusos sexuais sofridos na infância. Ela elabora um plano para matar o seu algoz. A segunda parte traz Venceslau, que escreve cartas, jamais enviadas, para sua amada morta.
Já a terceira é a narrativa do observador, aquele que julga os atos dos personagens segundo a influência que cada um deles sofre. Para o narrador-observador, coisa alguma é o que parece ser. Por fim, a quarta parte é descolada das narrativas e fala sobre o suposto cortador de hóstias que, em um diálogo invisível com um delegado, tenta justificar seu estranho hábito de bolinar garotinhas.
Evento: Lançamento do livro O Cortador de Hóstias, de Clara Dawn
Data: Hoje, às 19h30
Local: Casa Altamiro – Av. Araguaia, nº 240, esquina com Rua 15, Centro
Preço do livro: R$ 35



Diário da Manhã – 27/05/2015


Uma “Santa Dica às avessas”

É assim que Clara Dawn descreve Flor Maria, personagem central de seu novo livro O Cortador de Hóstias. A obra será lançada hoje, na Casa Altamiro


                            Rariana Pinheiro,Da editoria DMRevista

Hoje, às 19h30 na Casa Altamiro, a escritora Clara Dawn irá lançar seu sétimo livro – e terceiro romance –, O Cortador de Hóstias (Ed. Livres Pensadores). Se contrastando a suas duas últimas publicações, destinadas ao público infantil, e da alma leve da autora, que, segundo suas próprias palavras: “desconhece a capacidade de odiar a vida, o mundo e suas gentes”, ela embarca em uma viagem sorumbática, onde há espaço até para um pedófilo infanticida. Em, O Cortador de Hóstias, o leitor é transportado para Pirenópolis de 1918, onde as belezas arquitetônicas e naturais da cidade servem de cenários para as angústias da protagonista Flor Maria. A personagem é intensamente ferida por abusos que sofreu na infância, portanto, sua meta é nítida, desde o começo da trama: matar seu algoz. Com presteza e sensibilidade, Clara conduz ao leitor à trama densa, usando três narradores-personagens, em um quebra cabeça interessante de visões. Sobre a nova obra, inspirações, e influências, conversamos com Clara Dawn, que no bate-papo também parece abrir também a mão da parente doçura, para reclamar de mais espaço para a cultura em Goiás. (Leia a entrevista na íntegra aqui...)





0