Escritora Clara Dawn

"Você deve ser a primeira em Goiás a escrever uma crônica com a natureza poética da crônica: liguagem e metaliguagem" - Gilberto Mendonça Teles

Clara Dawn - Alethéia

Autora do romance Alethéia, considerado pelos escritores Edival Lourenço e Valdivino Braz, como a revelação de um novo estilo na literatura goiana.

Clara Dawn aos olhos de Reynaldo Jardim:

" A jovialidade adulta de seu texto criativo revela uma escritora que causaria inveja a Clarice Lispector..." Reynaldo Jardim

Clara Dawn Escritora

“Não se gosta do que Clara escreve apenas por afinidades ou belos escritos. Há uma lógica inserida na beleza e Clara consegue nos passar isto de uma maneira indolor e - que coisa?! - prazerosa.” Odilon Carlos

Palavras de Clara Dawn:

"Mas, o que é a vida senão polinômios que temos de resolver diáriamente: eu, posso até acertar o desenvolvimento, mas na maioria das vezes, erro o resultado..." Clara Dawn

BEM VINDO! ESTE SITE É ALIMENTADO PELO CLUBE DE FÃS DA ESCRITORA CLARA DAWN e reconhecido por ela como oficial. Visite também o blog, onde vários fãs espalhados pelo mundo, declaram sua simpatia por Clara Dawn
http://claradawnfaclube.blogspot.com

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Dor de amar a vida


No instante em que fora espancado, estava distraído. Tem essa mania de estar sempre pensando em outra coisa – “tudo” é sempre outra coisa –, segredo para não sentir dor-de-viver. Mas enquanto sua face girava de um lado para o outro – tal qual uma biruta no frenesi do vento –, ele pensava mesmo era no som das bofetadas...
Um som que o ensurdecia, deveras, devido ao toque violento próximo aos tímpanos. Um silvo longo e finíssimo zunia como uma cigarra em seus ouvidos, e ele pensava, reflexivo como um Buda – seria aquele o som triunfal da morte? Estaria agora mais perto, enfim, de um deus?
Deuses. Passou a vida sem acreditar neles e por que acreditaria encontrar-se com um, agora, ali? Talvez tenha sido por causa da sinfonia que laureou a sua cabeça num zunido quase insuportável.
Ah, aquele zunido! Aquele maldito zunido, era algo de que ele queria libertar-se com o único intuito de ouvir as batidas descompassadas do seu coração... Aquele, sim, era um som bonito de se ouvir – sorriu –, podia vislumbrar o modo como o seu coração se agitava dentro do peito. Maravilhoso: cada artéria, cada contração, cada pulso minuciosamente orquestrado de modo superlativo... Mas era cômico... Tão cômico, meu Deus.
Caído, sentia uma dor lancinante a lhe comprimir o peito e pôde ouvir o barulho do sangue na fronte, correndo com muita pressa para levar ao cérebro a informação de que a carne estava sendo subjugada. Pode-se ouvir – sim, nesse instante –, pode-se ouvir coisas: vá devagar, não suba as escadas correndo... degrau após degrau... não corra. Não corra.
Mas o que estava correndo ali era o sangue, e a passos largos, no afã de conter o medo.  Na verdade, ele não sentia medo, não sentia nem mesmo a dor... Sentia a vibração do som, a melodia do instante, o balanço trépido dos músculos, o sussurro das gentes, o choque hipovolêmico e, enfim, o silêncio absoluto. Uma paz, também, absoluta. Uma paz jamais sentida. Uma alegria d’alma capaz de fazê-lo flutuar sobre os demais, apesar do peso que lhe cobria os membros... O peso era cheiroso – lembrava as primeiras chuvas do ano, que somente chegam bem depois daquele cheiro – o cheiro de terra molhada.
Olhou para cima para contemplar de quem eram as lamentosas vozes que o aturdiam e até nesse momento se viu distraído: um pássaro diminuto daqueles chamados de “Fim-fim” – cor azul-petróleo e o peito amarelo-ouro e com aqueles seus tímidos pezinhos a ciscar a terra em busca de um suculento verme... encontrou muitos, e os devorou como num passe de mágica  – depois, voou lindamente.   
Magnífico! Sorriu, e no entorpecimento da fadiga, deixou-se levitar – estava cansado: cansado o corpo, cansado o coração, cansado o espírito – olhou para o céu – o céu estava tão longe. O céu é muito longe para se alcançar degrau-por-degrau... Longe demais... Cansado. Tão cansado que a ânsia pela morte lhe transbordou o pensamento em versos: quero, oh, Deus!, uma existência breve/ como a de um pássaro/ uma linda plumagem e um canto maravilhoso em louvor à vida/ vida-breve em voos perto do céu/ e, depois, Fim-Fim.

O poeta escreveu essas palavras na lápide da memória e adormeceu sem ao menos inculcar que estava enterrado. Dias depois o Fim-fim voltou para comer os vermes gordos que sobrepujavam a sepultura... Dias depois o poeta não sabendo que jazia morto - abolava na mente a ideia de que a vida-é-coisa-fabulosa.

Clara Dawn é escritora: romancista, contista, cronista do Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia  e Editora Cultural da União Brasileira de Escritores de Goiás. www.claradawn.com
(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás - em 03/10/2014)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O elitismo que a minha mãe me deu X a hipocrisia política – Por Clara Dawn

Diomira Teixeira de Jesus
Que atire a primeira pedra quem não deseja um dia ser elite. Eu sou elite. Sim, eu sou. Porque a minha mãe me fez alcançar isso. Minha mãe, Diomira Teixeira, mais uma de tantas mulheres que, sozinhas, criaram seus filhos sem BolsaQualquerCoisa; lavando roupa pra fora com água puxada no balde; passando-as com ferro a brasa e ainda arranjou tempo para fazer o Curso Técnico em Enfermagem e nos finais de semana costurava pra vizinhança inteira.

Eu não sei o que é passar fome; fome, fome, fome...: na nossa casa havia sacos de arroz e de feijão... Nossa mãe nos ensinou que o que traz felicidade não é a fartura de dinheiro, mas uma despensa farta. Nos ensinou que o que dignifica o homem não é o que ele tem, mas as escolhas que ele faz; que não há investimento melhor na vida, senão a educação dos filhos e que se um dia acharmos que a educação é cara, então que investíssemos na ignorância... Ela custeou os nossos estudos (sem Bolsa Escola) com o seu dinheiro suado.

Mãe de sete filhos, todos diplomados e muito bem posicionados na vida, pois ela labutava dia e noite para que hoje fôssemos elite. Minha mãe construiu a sua casa com as próprias mãos, fazendo massa de cimento, assentando tijolos, carregando madeira... (sem Cheque Moradia) e pagou, com muito orgulho, o seu lote comprado em dezenas de prestações (sem Minha Casa Minha Vida).

Hoje eu sou parte dessa elite de trabalhadores com diplomas de faculdade particular porque os pais, e não o governo, lhes deu o sustento; faço parte dessa elite de trabalhadores que mora em bairro nobre; que pode se dar ao luxo de mandar os filhos para intercâmbios no exterior porque tem nome limpo na praça. E, se quiser, se a consciência moral permitir, até usar uma bolsa da Prada.

Sou elite porque começo o meu expediente às sete horas da manhã e só termino onze horas depois; sou elite sim, porque a minha mãe me ensinou o valor de se ter um nome respeitado e limpo. Hoje, mãe, por seus esforços, o meu nome é elite e eu convivo com ilustres personagens da história, da literatura e de todas às artes de Goiás. Sou elite porque eu tenho um esposo que é mecenas de cultura, um homem honrado e íntegro que nunca tirou férias em toda a sua vida, só para não ver os seus entes em dificuldades e por isso, por trabalhar arduamente, hoje temos concreto o sonho da nossa “casinha branca de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer...”

Hoje eu sou elite não por ter nascida rica, mas por ter experimentado a infância, pobre deveras, mas rica em valores integrais. Alcançamos essa elite hoje pela designação moral de nossas escolhas no percurso do caminho mais estreito. Somos elite porque somos honestos, trabalhadores e cientes de que isso não é virtude, é obrigação. E que ser leal e cumpridor de regras não pode ser oferenda de sacrifícios e sim, compromisso espiritual para com o meio... Somos elite sim, porque a nossa base é o caráter; o nosso alicerce é o sonho de construímos um mundo melhor para criarmos os nossos filhos; a nossa pedra fundamental fora construída a partir da fusão do trabalho e da consciência limpa... E é por isso, e muito mais, que o nosso telhado não é de vidro: mas de plumas levinhas, levinhas.

Imagem: Diomira Teixeira de Jesus.

*Clara Dawn é psicopedagoga, escritora, cronista do jornal Diário da Manhã – Goiânia e editora cultural da União Brasileira de Escritores de Goiás (www.claradawn.com)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Série: contos quadrados - Era uma vez, em São Domingos do Azeitão...


Você já sentiu fome, Camarãozinho? Estou com fome agora.  Você tem fome agora? Vontade de comer um rosbife. Ah, eu entendi, mas isso não é fome, abestado. Outro dia, o Zé Maria (sabe? o Zé da Dona Preta do Quincas) estava com fome. Isso foi depois que Quincas disse pra ele: “ou você arranja um trabalho para também colocar comida na mesa, ou você vai embora desta casa!”. Zé foi embora. Pode um troço desses? Pode não. Pois é, também achei feio. Mas o fato é que o Zé Maria agora está com fome. A fome, Camarãozinho, é a pior coisa do mundo. Você já sentiu fome, Camarãozinho? Sei, de comer rosbife, né, seu diabinho da Bibiana? Mas para matar a fome do Zé Maria nem precisava ser rosbife: um generoso prato de arroz com pirão seria o paraíso. Por que o Zé Maria não trabalha? Eu também fiz essa pergunta. Ele trabalha. Só que não recebe. Deixa eu lhe explicar, Camarãozinho: às vezes, um cidadão faz uma prova muito difícil, que é para conseguir um emprego. Isso se chama concurso. E não basta apenas acertar muitas respostas para conseguir uma vaga, o cidadão tem que ser melhor acertador do que os outros que também querem a vaga, senão ele não consegue a vaga. Entendeu, Camarãozinho? Deixa está que um dia você entende.

Ocorre que o Zé acertou a prova todinha. Todinha? To-di-nha. Eu também aplaudi, Camarãozinho, e achei tão bonito você fazer isso agora! Deu até vontade de dar um beliscão na sua bochecha, coisa linda da Bibiana. Volta aqui, Camarãozinho, seu diabo, que eu não terminei a história de Zé Maria. Henn, heim... Se é pra limpar a garganta? É não, é porque a história é assunto muito sério. Lembra quando o pai chama pra dá bronca e aí ele faz henn...heim...!!!? Por conta disso, eu fiz, henn heim, pra você entender que a fome é uma coisa muito, mais é muito mesmo, séria.  Vou resumir a história, Camarãozinho, porque você está me fazendo alongar o assunto só pra eu ficar com remorso de ter demorado demais a fazer o seu rosbife.  Sim, Camarãozinho, hoje a Bibiana vai te fazer um delicioso rosbife com muita cebola cheirosa. Prometo. Vou falar do Zé Maria primeiro, tá bom, diabinho da Bibi? Mais lindo do mundo, você. Desculpa, desculpa... Aperto mais não. É o diabo que me atenta, todas as vezes que você aparece com essa sua carinha de nhô Zé.

Ah, sim, vamos lá. Zé Maria passou na prova e tudo mais pra ser professor aqui em São Domingos do Azeitão, e se há uma coisa que Zé ama nesta vida é ser educador de camarõezinhos iguais a você. Então, ele ficou lá naquela escolinha pobre, ensinando o ABC pras crianças dele, só que o dinheiro pra pagar os professores não chega no bolso de quem leciona, porque o dinheiro da educação, Camarãozinho, é um dinheiro muito sem educação: é um dinheiro que voa. Verdade! É assim: a Lei manda um tantão de dinheiro pras escolas do país inteirinho. Muito dinheiro? Se é. Uma dinheirama danada, mas o problema é que o dinheiro, mal educado como é, vai ficando miúdo em cada estação.  E quanto mais passa por estações, mais miúdo fica, entendeu? Por isso que o pobre Zé Maria recebe tão pouquinho que chega a passar fome. Já imaginou o tanto de estações que tem de Brasília a São Domingos do Azeitão? Um monte, né? Por que o Zé não vai dar fundo em cisterna? E desistir da educação? Diz isso pra ele, diz!? Aí você vai ouvir um “nunca” daqueles no pé do ouvido, porque o Zé ama ser educador. É obstinado, coitado. Mas essa conversa toda, Camarãozinho, foi pra te perguntar se você se importa de o Zé  vir jantar com a gente hoje. Se você pode dividir o seu rosbife com ele. Pode? Ah, Camarãozinho, eu tinha certeza que você seria generoso. Coisa linda da Bibiana. Entra aí, Zé Maria, e senta ao lado do Camarãozinho que eu sirvo o rosbife para vocês. -  (sobre a mesa, uma porção do saboroso “rosbife” dividida ao meio: arroz de cuxá numa trouxinha de repolho roxo e dois pedaços de mandioca assada.) - Você não vai comer, Bibiana? Não, Camarãozinho, estou sem fome.  


Série: Contos Quadrados - Os três quadrados

 
Os fragmentos de gelo bailavam sobre o estreito de Michigan. Sebastian, do alto da ponte Big Mac, observava-os. A decisão era se afogar nas águas gélidas.  Donna também estava, com os braços abertos, sobre a ponte. Sebastian se aproximou devagar da mulher. Ela, sem perceber que tinha companhia, continuou imóvel. Fazia uma oração em que dizia a Deus que O amava muito. Chorou um pouco em silêncio e depois Lhe disse para recebê-la. Sebastian, bem baixinho, pediu à mulher que não fizesse aquilo. Disse a ela que, se ela pulasse, ele teria que pular também. O problema maior era que ele não sabia nadar. Donna continuou de olhos fechados e braços abertos. Abriu a boca, só para perguntar por que ele pularia, se não sabia nadar. Sebastian não queria responder, não mesmo, pois a intenção dele era se afogar. Donna insistiu na questão, dizendo-lhe que somente uma alma muito generosa poderia se sacrificar por outra. Ele, ainda silente, refletia no instante. Não era generoso, nem alma tinha. Sebastian era egoísta demais para dividir o escolhido cenário da morte com outra pessoa. Na manhã seguinte, os jornais estariam anunciando que dois corpos foram encontrados no gelo. Dois? Não! Jamais serão dois. Sebastian seria a estrela do momento. O dono do seu tempo no estreito de Michigan. O infeliz que saltara da ponte Big Mac.

Donna baixou os braços e olhou para Sebastian. O homem estava tremendo sob seus casacos e cachecóis. “É uma noite fria para morrer, não é verdade?” Donna se atirou nos braços dele. Sebastian não correspondeu ao abraço, apenas a encarou com estranheza. Ela, agora grata pelo reconhecimento do amor do estranho, convidou-o para tomar um chocolate quente. Sebastian queria dizer não, mas é claro que Donna não o deixaria em paz. Na confeitaria tomaram, cada um, duas canecas de delicioso chocolate escaldante. A mulher é bonita, pensou Sebastian, e até disse isso para ela. Sua mente viajou na hipótese de morrer junto com uma mulher bonita: nesse caso, quem lhe notaria? Quem lhe prestaria atenção? Ela sorria tão abertamente, nem parecia alguém que, poucos momentos antes, estivera à beira da morte. Donna olhava para Sebastian com tamanha ternura que poderia jurar que o amava. Então ele se despediu dela. Tinha pressa de livrar-se daquela estranha pegajosa. Foi no aperto de mão que Donna flertou com ele até que o homem enrubescesse. “Vamos para minha casa?”, Donna o convidou. “Não! Como poderia?”, foi a resposta de Sebastian, e em seguida veio a pergunta: “Como você convida um estranho para entrar na sua casa?”.


A mulher devolveu aquele seu sorriso de gratidão. “Estranho? Não. De algum modo, somos tão íntimos que você daria a sua vida na tentativa de salvar-me. Vamos para a minha casa, eu vou apresentar você para minha mãe”. O homem, sem ter como recusar, acompanhou Donna com preguiça. Ficou surpreso ao perceber que, vendo a mulher saltitante pelas ruas, desejou tê-la empurrado da ponte. Teria sido uma ideia melhor que a própria morte para chamar a atenção. Na mídia, sua face estampada como o assassino da Big Mac. Diabos, por que não pensara nisso? Donna estava feliz. Encontrara um ser humano realmente cristão e – oh, céus, louvado seja Deus por colocar na Terra gente assim. Ela sorria, sorria como se fosse um sol inteiro. E tudo que Sebastian desejava era viver  uma  grande desgraça. “Mãe, acorde, quero lhe apresentar Sebastian. Na Big Mac, ele pensou que eu queria morrer e ameaçou pular no rio para tentar salvar-me”. Sebastian, pego de surpresa, piscou os olhos e perguntou: “Eu pensei? Você não ia se jogar da ponte?”, ao que Donna respondeu de pronto: “Não, claro que não. Eu estava na Big Mac pagando uma promessa!”. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Ser feliz é muito difícil

Brigitte Bardot

Num instante de euforia em mim, deleite-se tal qual um lobo numa carcaça. Sabendo de antemão que o riso é semelhante à morte: um minuto é o bastante para lhe pôr em cólicas. A tristeza é mais atraente do que a alegria. A alegria é trabalhosa demais. A felicidade então, ô!

Brigitte Bardot, a incomparável BB, em ‘E Deus Criou a Mulher’, disse: “É muito difícil ser feliz” – quando sua personagem, Juliette, submersa pela tristeza, contemplava o ir e vir do mar. Ela se referia à adaptação ao paradigma da felicidade plena: lar, marido, filhos... E aos comportamentos éticos morais, sociais e religiosos. Juliette era infeliz por não enxergar a felicidade onde a “felicidade mora”.

Coisa tola é crer em felicidade plena. A felicidade, penso eu, é a coisa mais íntima da existência. A felicidade para Juliette era ser, extraordinariamente, alegre. Ora, desde quando uma mulher pode ser assim tão alegre, sem que isso lhe custe um amontoado de escárnios? Para constar, o filme foi ambientado em 1956, mas parece-me que foi ontem.

Comungo com Juliette na ideia de que ser feliz é muito difícil. Um casamento “feliz”, por exemplo, é uma fusão, onde [hipótese] duas pessoas  distintas, que não possuem parentela, nasceram e cresceram em regiões diferentes, se formaram em culturas e crenças diferentes e até os sexos são diferentes... poderiam, oh, céus!, homogeneizar toda íntima felicidade para-todo-o-sempre-amém!?

A felicidade de um pode ser um tormento para o outro. Não obstante de a alegria de um ser a tristeza do outro, como ocorre num jogo de futebol,  falo aqui de salada de rúcula e Tchá, Tchá, Tchá... A felicidade é tão íntima que posso encontrá-la nos instantes mais inusitados, ziguezagueando entre lágrimas quando estas revelam a sincera compaixão para com um outro qualquer.   

 Ser feliz requer muitos verbos: confiar, abnegar, concernir, perdoar, relevar, conceder, doar... e outros esforços necessários à boa vontade para com os relacionamentos interpessoais. É esse tipo de felicidade, imposta pela utopia social, que livra o ser do esforço do raciocínio próprio e da busca pessoal.  

 É mais fácil ser triste do que ser alegre. A tristeza se autojustifica sempre. Com ela se pode ficar em casa e coisa alguma fazer além de aquietar-se na covardia para com os deveres da alma. Conheço tanta gente que é feliz sendo triste. Porque é mais fácil lidar com as lágrimas do que com o riso.

Com as lágrimas se atrai a piedade; com o riso, o deboche. Com a tristeza vem a compaixão; com a felicidade a inveja... porque é tão cômodo chorar com os que choram, mas se alegrar com os que se alegram, isso lá é uma tarefa para a distante evolução do espírito.

Na minha íntima, muito íntima, felicidade deste instante em que me debruço sobre essas teclas quadradas, sinto o meu coração crescer dentro do peito ao arfar o oxigênio fluido do jardim. Pássaros vândalos fazem algazarras numa poça de lama e eu estou eufórica também... Vinho não, tequila; O Fantasma da Ópera, oh não, Lago dos Cisnes; escada rolante não, elevador: último andar, s'il vous plaît. Merci.  



 (Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 08 de setembro de 2014)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Espírito Pacífico

Um ano depois da morte do meu filho, eu busco por aprendizados. Dizem que o sofrimento nos faz evoluir e embora eu esteja possuída por uma profunda misericórdia, penso que não evoluí de modo satisfatório, regredi: existiam coisas boas em mim que agora não consigo mais alcançar. Paciência  com as pessoas era uma delas. É que não sou capaz de ouvi-las ou enxergá-las e isso ocorre nos segundos que antecedem uma forte pressão intracraniana, e passo a distinguir o quadro como se tudo em volta estive debaixo de um espelho d’água. Será que tudo em minha volta está submerso e opaco ou será que sou eu que, ausente da realidade, permito-me ser tragada por esse remanso que de manhã vem, encharca a minha visão e ao longo do dia transforma-me num espírito Pacífico?

Contudo, esse mesmo oceano traciona-me às obrigações para com os outros, para com a vida na Terra, para com as coisas ditas vitais. Estou melancólica, eu sei, perdoe-me. E acredite, eu tenho sido forte e posso me vangloriar de atravessar os últimos 3 anos, desde a doença do filho ao luto, sem antidepressivos;  de levantar todos os dias e preparar o desjejum  para o amado e minha Pequena; de correr no Parque Areião e de estar mergulhada num projeto universal de prevenção ao uso de drogas; de ter a capacidade cognitiva de criar um novo romance e ainda pensar dialeticamente para o registro de minhas crônicas... 

Essa sou eu [seguindo em frente]  evoluindo, enfim. Hoje, enquanto pensava sobre o que escrever, a menina que um dia eu fui veio conversar comigo. Disse-me palavras maduras demais e, se eu não soubesse que ela sempre esteve à frente do seu tempo, isso até me surpreenderia. Sentou-se ao meu lado: estava descalça, cabelos longos e despenteados com aquele repartido insensato. Usava o seu vestido azul com estampa de bolinhas e trazia na mão direita um caco de telha. Depois de perguntar-me, sem direito de resposta, se eu sabia o que ela pensava de mim, caminhou um pouco adiante e desenhou, no chão, um círculo. Nele escreveu a palavra “terra” e seguiu desenhando, colados uns aos outros: um quadrado; dois quadrados e assim sucessivamente até desenhar outro círculo onde escreveu a palavra “céu”. Do ponto em que estava atirou-me o caco de telha e gritou: “jogue o seu caquinho no primeiro quadro e vem. O jeito mais nobre de alcançar o céu é passando por todos esses degraus”.

Eu ainda divagava na visualização dessa lembrança quando decidi avançar mais um degrau: esvaziar as gavetas. Num baú guardei coisas que todavia não quero esquecer. Depois me vi no espelho para buscar o que ganhei com o luto: pude notar duas rugas precoces; pele e cabelo com pouco viço; pressão alta e uma diabetes emocional... Para as rugas precoces: creme anti-idade; para os cabelos: hidratação semanal; para controlar a pressão e a diabetes: alimentação balanceada e correr todos os dias......Tudo isso é fácil. Difícil é aceitar o "nunca mais"... Difícil é encarar que, desde agora, tenho que seguir até o fim dos meus dias sem a terna figura do meu primogênito. Difícil agora será, enfim, dizer 'adeus'. Sendo assim, digo  'até logo'.


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM - Revista - Goiânia - Goiás em 18 de agosto de 2014)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Canções azules

Sob os cuidados da solidão, o disco girola. Há, na Terra, lugar mais seguro do que a “autossolidão”? Estou só.  “Autossó”, aqui e agora. Tamborilando teclas; brincando com esse neologismo que me renderá algum escárnio. É que não gosto de “solidão autoimposta”, na verdade eu gosto... Gosto da minha autossolidão, mas não gosto dessa solidão autoimposta sonoramente falando, embora a grafia seja até harmoniosa.

Harmoniosa mesmo é essa palavra: har – mo – ni – o – sa! Com exclamação para ficar preguiçosa e assim... Não gostei porque rimou e com isso perdeu a harmonia. Há na Terra coisa mais valiosa do que a harmonia?

Pobre disco que gira, gira, gira e gira no sentido horário, sabendo de antemão que chegará o momento de parar. Depois de tocar um repertório inteirinho com todas as suas letras ora dançantes, ora melancólicas, ora poéticas, ora ridículas, ora hora: hora de enfim... Há na Terra coisa mais triste do que “parar de tocar”?

Será que “parar” é mais triste para a vitrola ou para o vinil? E um tem sentido sem o outro? A completude de um ser nunca estará na solidão. Ainda que a criatura seja unimúltipla, ainda que queira, jamais será completa sendo uma. Olho para a desdita vitrola sob a maldição de ser apenas um adorno. Olho para o infeliz vinil, que sem a carícia da agulha, mantém, em silêncio, versos cantantes, e penso, há na Terra coisa mais insuportável do que a incompletude?  

Eu estou incompleta. Não completamente, eu juro. Há outros discos aqui, bem debaixo do meu nariz, que cantam melodias risonhas e compreensivas. Canções azules e cheirosas que inebriam a minha alma e tocam-na com a terna responsabilidade de manter-me na roda da vida. Há na Terra coisa mais importante do que a certeza de ser útil?

De repente eu não consigo mais conduzir este texto com o mesmo estado de espirito com que comecei... Enfado-me. Ergo o olhar para ver o quanto escrevi: se já está suficiente para preencher a minha coluna semanal e vejo que é necessário mais um pouco. O que é uma pena, pois eu já estou  com náuseas por causa destas palavras que não farão diferença alguma se publicadas ou esquecidas. Há na Terra coisa mais estúpida do que a vaidade?


Melhor é ouvir minhas canções azules vindas dessa Pequena criatura que agiganta a minha existência... Canta, minha Pequena, canta.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás  em 11 de agosto de 2014)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Resposta à “A casa dos postigos verdes”

A casa material dos postigos verdes fica no leste de Piracanjuba – Goiás: ali, diz a lenda, é o lugar mais bonito do mundo. A casa dos postigos verdes habita o Vale de Quimeras, onde o que não é verde, é furta-cor.
            
No Vale de Quimeras há um pássaro muito pequeno, o Fim-Fim, que veio fazer seu ninho no tronco de uma palmeira... Aquela que fica em frente à mesa da varanda. Todas as manhãs, antes de comer, o Fim-Fim traz à sua amada um novo cobertor de capim. Não posso mensurar a importância desse gesto para a dona Fim-Fim. Não para ela, mas para o gato Kiko é de enlouquecer.
            
O gato Kiko não serve para nada. Está parrudo e frouxo – diz o amado,  na tentativa de demover o felino da sua incapacidade de escalar palmeiras. O Fim-Fim, com sua plumagem azul-petróleo que emoldura  seu peito amarelo, num voo furtivo, cantarolando, agradece a covardia do Kiko.
            
No Vale de Quimeras há lagos, e eles estão repletos de peixinhos e peixões... Mas qual!, a pescaria está proibida por tempo indeterminado, porque no Vale de Quimeras os peixes têm nomes: Bonnie e Clyde são ‘o casal vinte’ do lago dos pirarucus. Eu não ficarei surpresa se, daqui  um ano, tivermos que comprar lambaris para alimentar o casal de gigantes.
            
A vida no Vale é sempre igual. Igual de um jeito bom: esta semana, mais uma vez,  o cão pastor, Masái, vitimou um frango raquítico e a cadela basset, que só estava olhando, levou a culpa. A culpa sempre é da Fadinha, coitada; os cupins destruíram a parreira e o ipê amarelinho; a vaca Brigite  deu à luz um bezerro Nelore, mas fora inseminada por Girolando... Eita, Brigite, você pulou a cerca? O galo Chanteclair – bonito – bonito – bonito está sob a ameaça de virar caldo – ‘galo que não gala não é galo’. Quem disse?
            
O caseiro pediu demissão para fazer politica, vê se pode, mas tão logo viu outro caseiro segurar a tetas da rebelde vaca Mimosa, reiterou. Achei graça porque a Mimosa não gostou nada de ser manejada por outro... Nem ração quis comer; logo, leite não deu. O pomar está transbordando mexericas engraçadas: para cada uma, há um periquito a lhe sugar o néctar. E o gato Kiko? Apareceu com uma gata parida que deixou os seus cinco filhotes atrás da geladeira e depois partiu para sempre. Para sempre até o próximo cio.
            
Na casa dos postigos verdes, há um caos, sonoro, fenomenal. Acontece sempre na hora quinze em tardes de muito calor: pássaros-pretos, araras, pica-paus, curicacas, seriemas e bem-te-vis formam uma orquestra multíssona de endoidecer até Beethoven. Nessa hora, melhor mesmo é deitar na rede e reler O Cachorro de Palha ou A Origem das Espécies... Um pouco de Manoel de Barros, talvez, ou  o jornal de ontem;  ou nada disso, pois coisa boa, mesmo, é andar na área de reflorestamento e benzer com o sorriso os brotinhos que ressurgem depois do ataque das Cabeçudas.
            
Esse é o campo material do Vale de Quimeras e todas essas coisas e seres comungam numa sintonia diáfana e singular com a imaterial Casa dos Postigos Verdes, e todo esse texto e o seu contexto e seu extratexto se harmonizam de um modo indelével com o meu amado e eu.
           
Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás 30/06/2014            
              

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Felizes vinte anos, para sempre, meu filho!

Diário da Manhã - DM Revista em 23/06/14
Meu querido Arthur, esta é a primeira vez em que eu lhe escrevo, de um modo direto, desde que você partiu. É que está chegando o dia do seu aniversário, 26 de junho, e eu quero lhe prestar uma homenagem, como sempre o fiz desde que você nasceu. Mas este ano não será um café da manhã na cama repleto de guloseimas e um presente oxidável. 

Este ano não vou repetir os chavões de bençãos e orgulho; não vou chorar no seu abraço porque você estaria ficando mais velho e logo sairia de casa; não vou comprar-lhe um celular ‘irado’ ou qualquer outra parafernália eletrônica que lhe prenderia um pouco mais dentro de casa; não vamos passear pelas ruas de Goiânia, à toa, à toa, e depois sentarmos num lugar qualquer para rir de quem vive à toa pela cidade...

Este ano não vamos assistir filmes a noite inteira e largar, no chão da sala, a caixa de pizza;  também não  haverá sermões intermináveis, na hora do almoço, sobre compromisso social, honra, bom exemplo, futuro, sexo, drogas e blá, blá, blá... 

Não. Este ano não há uma única coisa que eu possa lhe ensinar, porque desta vez a aprendiz sou eu. Benevolência. Benevolência foi o que você me ensinou. Uma benevolência tamanha que se transborda de mim e, só por isso,  hoje eu vou chorar. Não é de tristeza, meu filho, é de benevolência...

A sua indelével bondade para com o grande mal que lhe aconteceu. Inesquecível: i – nes – que – cí – vel. Inesquecível o seu olhar  terno diante de tanta, tanta, tanta dor: resignado... longânimo. Jamais esquecerei de toda a benevolência expressa em seu olhar, no último dia em que nos vimos, quando você, com suas asas de anjo, me ergueu do chão num último abraço. Ao me lembrar disso tenho vontade de outra vez abraçar você e pedir que fique um pouco mais, porque no dia 26 de junho de 1993, ao nascer você, nascia eu. 

Sabe, meu filho: meu melhor amigo, meu parceiro de gargalhadas, meu primogênito;  este ano eu só quero agradecer. Agradecer a Deus por ter escolhido a mim para ser sua mãe e permitir que você vivesse vinte anos ao meu lado. Agradecer  pelo privilégio de ter convivido com você todos os dias; por você dividir comigo os seus sonhos; os seus poemas; os seus sorrisos; a primeira batida do seu coração, o primeiro soluço, a primeira refeição, a sua infância; a sua primeira palavra; o primeiro dente a nascer e o primeiro a cair; a construção da sua primeira pipa; a primeira pedalada de bicicleta; a primeira fase de Super Mário World; a primeira vitória no Karatê; o primeiro beijo, o primeiro 10 com estrelinhas e a primeira nota vermelha...

Obrigada pela grande lição de bondade para com os erros do outro; bondade para com os próprios erros, pois viver é, como nos ensinou Freud, um processo mental muito doloroso e é preciso ter compreensão e magnitude para com aqueles que se refugiam em ilusões. Porque conviver é mais difícil do que viver... é mais difícil lidar com vida do que com a morte. Então, é com benevolência que eu perdoo você. Perdoa-me, com benevolência também, e felizes 20 anos, para sempre, meu filho.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O Brasil em Status Quo ou Os gonzos da Terra não giram este país?

Publicado no jornal Diário da Manhã DMRevista Go/Go em 16/06/2014
Estou aqui na vivência de um blackout criativo. Cansada demais para pensar outro pensamento senão aquele único que me acorda e me adormece... É tão comum, quando se diz que está sem inspiração, alguém sugerir que a gente escreva exatamente sobre isso. Pode acontecer de a falta de inspiração inspirar,  como aconteceu a Sabino, uma “A Última Crônica”. Ai, quem me dera! A crônica, dizem, é um gênero narrativo atual e não fictício sobre coisas, pessoas, lugares, situações, educação, política e blá, blá, blá. Olhando por esse prisma, eu não sou cronista. A realidade é quadrada demais. Gosto de pensar que sou uma escritora oblíqua. E, acredite, há um céu para os oblíquos. Atual e não fictício: 2014; Copa no Brasil; Corrupção; Manifestos; Violência; Discriminação Racial; ENEM sem Vestibular; e são tantos Gols sofridos... Sofriiiiiidos que, oh, Céus!, dá vontade de chorar. 

É tão presente o nosso passado que eu nem preciso escrever sobre nenhuma dessas coisas. Quer ler algo muito atual sobre a situação política do Brasil? Leia Stanislaw Ponte Preta; quer ler sobre o que rola de novo no futebol? Leia Nelson Rodrigues; quer ler sobre o cotidiano banal, simples e belo? Leia Rubem Braga. É que os gonzos da Terra não giram o Brasil, por isso ‘tudo permanece como dantes no quartel de Abrantes’ e também aqui em nosso status quo.

Não quero regurgitar toda essa comida que está sobre a mesa e com isso incitar uma pitada a mais de desesperança e revolta a esse povo vivaz e altruísta de alma amarelinha. Há tanto engodo na política brasileira que, no afã de continuarmos acreditando, pela simples razão de continuar acreditando, seremos tantas vezes e deliberadamente logrados. 

Olha só onde a minha falta de inspiração, para escrever neuroses transversais, me trouxe e, que pena!, também não sou capaz de fazer girar, no sentido horário, este nosso país com a minha narrativa provinciana; e se eu pudesse daria uns piparotes, agora mesmo, em Voltaire, por causa de seu otimismo panglossiano que diz que vivemos no melhor dos mundos possíveis. 

Sou a favor da abolição dessa política corrupta que se apresenta aqui. Mas se uma guerra somente é combatida com outra guerra; se para acabar com os lobbies e com os lobos deste país for preciso apelar para garras, presas, pulos e ataques, que assim seja. Porque, na verdade, não é estranho concluir que o objeto de desejo da guerra é a paz? Não é terrível ter a certeza de que somos infinitamente capazes de conviver com  as guerras, mas que a convivência com a paz absoluta é insuportável? Nascemos para lutar, Pangloss. 

Mas é  função panglossiana descrever a beleza das folhinhas verdes que brotam das cinzas; narrar que acima das nuvens escuras o sol brilha e que a escuridão  é só um modo de olhar;  gritar ao mundo que a dor é magnífica porque dela nasce a benevolência e a vontade de se extasiar na companhia do outro... É uma bela função. Admito.  E por mais que eu deseje sacudir Voltaire à realidade, sou capaz de afirmar que alguém precisa, e todos os dias,  mostrar ao povo o que o povo tem de belo.

E o que esse povo brasileiro tem de belo? – Otimismo! Um otimismo latente e transbordante num riso frouxo que alarga os cantos da boca. Essa vontade de viver, apesar de suas descrenças, em paz com sua pátria. Essa predestinação envolvente que fez com que Tom Jobim, ao ser interrogado por que sempre voltava ao Brasil, quando podia viver sossegado nos Estados Unidos, respondeu: “Volto para me aporrinhar. Para responder a esse tipo de pergunta. Para ser um dos 5% de brasileiros que pagam imposto de renda. Para perder o apetite ou morrer de indigestão. Volto porque nunca saí daqui”. 

Sabe, Voltaire, não vivemos no melhor Brasil possível. Ele se encontra estagnado num atraso antropológico medonho, mas creio que um dia os gonzos do progresso hão nos fazer girar.