Escritora Clara Dawn

"Você deve ser a primeira em Goiás a escrever uma crônica com a natureza poética da crônica: liguagem e metaliguagem" - Gilberto Mendonça Teles

Clara Dawn - Alethéia

Autora do romance Alethéia, considerado pelos escritores Edival Lourenço e Valdivino Braz, como a revelação de um novo estilo na literatura goiana.

Clara Dawn aos olhos de Reynaldo Jardim:

" A jovialidade adulta de seu texto criativo revela uma escritora que causaria inveja a Clarice Lispector..." Reynaldo Jardim

Clara Dawn Escritora

“Não se gosta do que Clara escreve apenas por afinidades ou belos escritos. Há uma lógica inserida na beleza e Clara consegue nos passar isto de uma maneira indolor e - que coisa?! - prazerosa.” Odilon Carlos

Palavras de Clara Dawn:

"Mas, o que é a vida senão polinômios que temos de resolver diáriamente: eu, posso até acertar o desenvolvimento, mas na maioria das vezes, erro o resultado..." Clara Dawn

BEM VINDO! ESTE SITE É ALIMENTADO PELO CLUBE DE FÃS DA ESCRITORA CLARA DAWN e reconhecido por ela como oficial. Visite também o blog, onde vários fãs espalhados pelo mundo, declaram sua simpatia por Clara Dawn
http://claradawnfaclube.blogspot.com

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"Para cães que voaram na Primeira Guerra Mundial e compreendem um pouco de francês"


É claro que eu me divirto muito com essa coisa de ser chamado de "O Gato Estúpido da Porta ao Lado". A elegância dessas palavras acontece nos dias em que Snoppy está de bom humor, porque geralmente ele me chama mesmo é de “A Terceira Guerra Mundial” ou de "Erva Daninha no Relvado da Vida". Esse antagonismo entre cães e gatos (e ai de mim se disser “gatos e cães”) não é mito, a antipatia é mútua. Há raríssimas exceções em que recíproca afetuosidade existe. Desde que Snoppy virou astro de TV (e isso eu até compreendo), ele tem muitos pesadelos. Charlie Brown diz que são sonhos, mas cá para nós: um sonho faria uma criatura titubear entre a fantasia e a realidade? Um sonho faria crer tão peremptoriamente que mereça uma comida feita só para ele?: “Ração para cães que voaram na Primeira Guerra Mundial e compreendem um pouco de francês”. Je doute fort.

Mas essa coisa de ter voado na Primeira Guerra Mundial também é um pesadelo, você não acha? Isso se dá pelo seu incontrolável complexo de Walter Mitty... É...!!! Falo daquele personagem do conto "A Vida Secreta de Walter Mitty",de James Thurber, um cara retraído e com uma imaginação muito fantasiosa: ele se vê como um piloto de guerra, um médico numa unidade de emergência ou até mesmo um assassino perigoso... Que outro complexo Snoppy teria, senão o de um personagem que até é verbete de dicionário por seu sinônimo de sonhador inofensivo?

Mas cães nunca são inofensivos. Gatos, sim. Não nos interessa de quem é a mão que nos coça a barriga, contanto que a mão também tenha pernas para a gente se esfregar. A comida nem precisa ter nome bonito: comida para gatos é o suficiente, contanto que seja fresca e de preferência nos sabores peixe e passarinho. E por falar em passarinho,eu elaborei um plano para me vingar de Snoppy. Para isso eu precisaria tocar-lhe onde mais possa doer: Woodstock, o acidente criativo que nunca acontecera de verdade, com o seu voo topsy-turvy, com a sua fala, o birdspeak, composta de pontos de exclamação numa têmpera de emoções...

Macacos me mordam! Mas ‘que puxa’, Schulz, que raio de passarinho é Woodstock? Não importa, vou comê-lo assim mesmo. Minhas presas se encharcam só de imaginar o quão saboroso deve ser o pássaro que dialoga com Snoppy...

Snoppy, aquele beagle metido a besta que pensa que é um escritor só porque ao abrir a sua maleta tira dela uma máquina de escrever e a partir daí dá a luz ao passarinho que bate asas em seu estômago, e do telhado de sua casa o cachorro tamborila o teclado da máquina a fim de enlouquecer a todos com suas histórias mirabolantes... Sim, eu não via a hora de mostrar para o Snoppy e para o seu leal amigo alado o poder da Terceira Guerra Mundial.

Então, na manhã seguinte, enquanto Shchroeder tocaria o seu “piano estúpido” e divagaria sobre o poder que Beethoven tem de influenciar o comportamento das pessoas, eu, com minhas “enormes patas”, dizimaria a casota de Snoppy com uma patada só. E num salto certeiro iria abocanhar Woodstock... Ao devorar o passarinho de Snoppy, quantos alters eu destruiria no seu ego?


Tudo pronto: Shchroeder tocava o seu “piano estúpido”; Snoppy dormia no telhado de sua casa vermelha; Woodstock repousava sobre a barriga de Snoppy e eu começara a me preparar para o grande salto de vingança... Quando, de repente, algo chamou a atenção de meus sensórios olfativos... Era mais do que eu suportaria - a vingança ficará para amanhã: há um peixe fresquinho balançando na mão de Charlie Brown. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Vou-me embora pra Muquém

É que há dores demais neste corpo aqui. Há tantas dores que delas eu vivo caçoando... Há dores tantas que eu decidi fazer um samba de antítese mais ou menos assim: 

Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar.../ Gargalha desse choque nas costas/ faça troça desse mal fisgado/ chuta esse autobreque/ o corpo não é quadrado.../ dor é pra rolar/ a dor é pra rolar.../canta nem que seja um trecho/ um refrão, um assobio inacabado/ Mas não se farte de agonia/ porque o pulso tá agoniado.../  Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar...

Então eu fui cantar a minha letra usando a música do Martinho da Vila: “Canta, canta minha gente” e até gastei um bom tempo tamborilando os dedos no controle remoto da TV... Não deu pra ser um samba, acho que se parece mais com rap ou outra coisa qualquer que ninguém consegue dar ritmo musical. 

Devia ter escrito um poema desses tantos que rimam a dor com o amor, mas qual? Essa dor que a gente, deveras sente e, finge que mesmo com ela está contente...não é um andar nada solitário entre às gentes? Ora, e se creio aqui comigo, entre uma vertigem e outra, que um corpo febril inspira-me versos mil...hei de cantá-los em sonora voz, hei de escrevê-los com dedos de uma rima vil...

Oh, e agora que Sheakespeare dedilha as cordas dos meus tendões o samba é nulidade e a dor é transcendental.  E sigo fabulando-a com a doçura de palavras docinhas... Com quanto na verdade mais pura, quisera eu, ca[lão]r os meu aís com gritos. 

Já que gritar eu até posso, mas só para dentro o faço... Ouso patuscar, e sem remorso, versos de Bandeira:
Vou-me embora pra Muquém/ Lá sou amiga dos deuses/ Lá faço a reza que eu quero/ Pro  santo que escolherei/ Vou-me embora pra Muquém/ Nesta cidade eu vivo doente/ Lá a crença é autocura/ De tal modo consequente/ Que eu, Maria-vai-com-as-outras/ Sou curada gentilmente/ Até de doença que nunca tive./ Daí eu vou pagar promessa/ Subir, de joelhos, o Morro dos Cruzeiros/Tomar banho no Córrego das Lagrimas/ E se lá eu encontrar o fantasma de Antonio Antunes/ Que Nossa Senhora do Muquém/ Proteja-me com sua medalha./ E se ainda assim eu estiver  triste/ Com tamanha dor que não cabe no peito/ E quando antes de dormir/ de vazio, eu ficar cheia.../Vou lembrar-me: — Lá sou amiga dos Deuses —/ Lá eu faço a reza que eu quero/ Pro santo que escolherei/ Sim, vou embora pra Muquém.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 31 de março de 2014).

segunda-feira, 24 de março de 2014

Tudo amarelo ou Eu ensurdeci Oscar Wilde


Tenho pensado naquela mangueira que fica na esquina da casa amarela. Ocorreu-me a ideia de que tal árvore existe ali desde sempre... Não me lembro de vê-la crescer ao ponto de tornar-se farta na produção de mangas. Não me lembro de ouvir a algazarra dos pássaros devorando seus frutos... Por Cristo! Por que será que eu não me recordo de ver crianças atirando pedras nos frutos amarelos e, contudo, derrubando mais os verdes?

Há um carro estacionado debaixo da mangueira desde a semana passada. Ouso julgar que, no instante em que ali parou, não saiu jamais. É possível ouvir um barulho seco quando uma manga dilacerada por pássaros e pedras cai no capô – pahh!!, o barulho faz esfriar o coração – lataria amassada.

Foi num repente que a distinta mangueira surgiu nos meus pensamentos, durante a tecedura dessas linhas, e por interesse mútuo a gente se perturba. Não faço ideia do que mais incomoda a árvore. Talvez o fato de morar do lado de fora da propriedade; talvez o triste fato de não ter sido plantada e sim ser filha de uma semente lançada por cima do muro; talvez seja a baderna dos pássaros; talvez a pobre mangueira lamente mesmo as inúmeras pedradas... Ou será que ela, agora, perturba minha consciência pelo fato de que, debaixo de si, jaz um carro, cuja lataria amassada é o prenúncio de seu fim?

Faço menos ideia ainda do que mais me incomoda nesse quadro que meus dedos decidiram pintar na tela virtual. Um quadro curioso que se transforma em uma janela aberta na direção da casa amarela. A casa amarela é de esquina e há, na calçada, uma mangueira carregada de frutos gordos. Pintei um carro jacente em baixo da mangueira e desenhei mangas caindo sobre o capô... Depois eu ri da perspectiva de serem jacas, isso porque melancias são rasteiras. Senão... Pobre carro!

O quadro inteiro me incomoda. O que farei eu com essa mangueira chorando lágrimas obesas como se chuva ácida fosse destruir o carro? Mas, por que o carro está ali há tanto tempo? É possível ver o lixo lavado pela enxurrada preso nas rodas. Um dos pneus traseiros está furado, o para-brisa está repleto de folhas da mangueira e de peles secas de insetos mortos... O carro também não passa de um cadáver. Um ‘paletó’, não de madeira, mas de lata sob a mangueira que cospe-lhe, com deboche - mangas carcomidas. Bracejo de um  asco nesse quadro vil.

O desenho é reles. Eu não tenho saída. Não sei o que fazer com o quadro.  Uma moldura cara talvez lhe confira valor ou talvez tire... Isso depende muito do que se deseja enxergar num quadro como esse.  Por que me perturba a mangueira? Por que pintei de amarelo a casa? A cor amarela, segundo Oscar Wilde, é tão berrante que apenas um surdo seria capaz de usá-la. Ah, Wilde, a casa que criei é amarela, os frutos da mangueira são amarelos e, pronto, o carro (acabei de decidir isso) também é amarelo. O quadro aberto na minha janela está banhado de amarelo...

Surda não, Wilde, mas se eu continuar, num nascer de sol qualquer, abrindo essa janela, hei de ficar cega com a luz dessa tinta. Porque metade do eu que escrevo é o que vejo e a outra metade é o que eu enxergo. O que eu vejo é uma casa amarela com uma mangueira nascida do lado exterior do muro e debaixo da árvore jaz um carro aparentemente abandonado... Mas, o que eu enxergo é um borrado amarelo. Um borrão ensurdecedor amarelo. Amarelo e nada mais.

(Crônica publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 24 de março de 2014)

O Lápis e suas duas linhas

Notou que havia uma mão a conduzir os seus passos, a lhe capacitar de pé. Notou que às vezes era preciso parar o que estava fazendo, pois não estava preparado o suficiente – perdera a razão da utilidade e desapontado ficara. Notou que em dados momentos precisou voltar a trás, precisou permitir que seus erros fossem corrigidos e presenciou que muitas coisas boas que realizara foram apagadas. E embora caminhasse, agora, de outro modo  sobre suas antigas linhas, ainda não entendia o sentido de sua existência. Achava-se insuportavelmente comum – havia tantos... tantos iguais a ele e mesmo que cada um tivesse uma cor diferente, fosse feito com designer diferente... ele se sentia  comum . Mas ele, como todos, era diferente  e tinha um modo diferente de escrever os seus sonhos. E o que ele mais gostava, porque isso lhe dava sentido, era de se vestir da cor da oportunidade - do instante único que surge e que não se deve perder – o momento exato de ser e  se sentir útil aos seus pares.

Mas ele queria uma razão maior para justificar-se. Uma razão que lhe desse mais do o dever - lhe desse alegria em estar vivo. Então ele desenhou duas linhas. As duas linhas lhe serviriam de subsídios para uma existência mais significativa. Às linhas - traçou um futuro glorioso.  Ele amara demasiadamente essas duas linhas. Amara ao ponto de acreditar que fosse o dono delas. Uma era robusta, íngreme, imponente, hábil, elegante e tenaz, mas esta às vezes revelara sua pré-disposição ao que era torto; a outra era uma linha frágil em sua aparência, mas o Lápis não tinha a menor dúvida de que aquela linhinha de pequenina presença era a escrita mais forte e positiva que ele havia feito em toda a sua vida. Tal qual um belo e delicado fio de seda, a sua linhinha tinha força resiliente e por si só delimitara os territórios por onde passara. Uma linhinha tão sagaz e de opinião própria que até o próprio Lápis de seus conselhos precisara.

O Lápis em sua sapiência matriarcal tentou dar fundamento, essência, saberes e independência às suas linhas. Por certo a mão que o guiara desde sempre o ajudaria a escrever, sobre suas linhas, histórias incríveis: divertidas, ousadas, épicas, fantásticas e acima de tudo – histórias de duas criaturas que nasceram para se destacar positivamente por todos os lugares que percorressem.

Com o tempo o Lápis começou a perceber a primeira linha tinha latente em si, uma fragilidade não demonstrada. Ora, o Lápis dera a linha todo o respaldo necessário para que de si mesma brotasse a intrepidez de evoluir-se de linha para lápis e assim tomar às rédeas de sua singular existência. O Lápis tinha confiança na preparação que havia dado as suas linhas. Sua confiança era tamanha que ele seria capaz de deixa-las na frente da batalha. Elas eram preparadas para quaisquer guerras. Pelo menos era nisso que o Lápis cria.

Mas a primeira linha não estava preparada. Seus primeiros passos amparados pelo Lápis levaram-na sempre ao apogeu. Mas tão longo sentiu o gosto da liberdade, mergulhou-se, deveras e bem fundo, no autoengano de que era senhora de suas ações e reações. Que poderia manipular a própria mente para quando, onde, como e o quanto ela deveria se extasiar. Extasiou-se em seus descaminhos, vivenciando o gozo supremo de alegrias sintéticas. Enfim percebeu-se subjugada por suas escolhas e o seu engano de felicidade fora a sua maior tristeza. Uma tristeza tão grande que a linha se interrompeu e como alguém que tivesse o poder de arquitetar o próprio caminho: desexistiu – desaparecendo no espaço como uma pipa de linha arrebentada. Não é verdade que a linha quisesse desexistir a própria história, ela apenas não queria mais existir do modo como existia. É diferente.

Ao Lápis restou seguir adiante, levando consigo todos os “se” do mundo. Com o olhar absorto na enorme interrogação que ficou na ponta da linha. Mesmo que não tenha todas as respostas ou nenhuma delas e que talvez nunca às tenha; segue o seu caminho sem esmorecer, pois a única certeza que tem, e está é palpável, é de que a segunda linha, a sua linhinha bela e sagaz está ao alcance de seus traços... E que lindos traços ambas têm a percorrer caminhos a fora.

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em  17 de março de 2014).

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sem comentários ou o Facebook engoliu o meu cérebro


“Rasgo o verbo porque não posso rasgar o sujeito.” Esta frase estava na feed de notícias do meu perfil no Facebook.  Veio de uma amiga. “É de Clarice Lispector”, afirmou ela. Embora eu, a princípio, chegasse a pensar que a frase era mesmo de Clarice, tive lá minhas dúvidas. Não consigo lembrar-me se li tal coisa em textos de Lispector...

Enquanto eu luto com os meus pensamentos, a homepage é atualizada quase que instantaneamente. A primeira página é tudo que a minha paciência, e só pela manhã, permite visitar. Talvez eu compartilhe alguma notícia relacionada à cultura – literatura em especial. Talvez eu curta as postagens de humor inteligente ou de algum bebê sorrindo. É certo que terei o ímpeto de “rasgar o verbo”, exatamente, “porque não posso rasgar o sujeito”, em postagens políticas/pessimistas e/ou amorais. Mas, nunca o faço, oh, céus!, por quê? Já cheguei a escrever o comentário e publicá-lo, segundos depois deleto:  covarde demais para me envolver em polêmica,  e nessa hora lamento o fato de a opção  “não curtir” não ser uma opção a curtir.

Ora, são milhares de “amigos virtuais” para nos desejar bom dia, boa tarde, boa noite, boa hora, bom minuto, bom segundo...  E segue a primeira página – segue interminável: “a lasanha está pronta, o molho caiu no chão branquíssimo” – quem postou não sabe que fez poesia – e lá se vai um poema sem ser poetizado;  “O dia está tenso. Vontade de tomar uma cerveja gelada com sal na borda do copo” – veio com a ilustração, cento e cinquenta ‘curtições’ e uma dúzia de comentários;  “Hoje ela não veio! Fiquei na expectativa, mas ela não apareceu! Lembrei-me, então, do que fiz com ela na noite passada e ela tem razão em não aparecer:  barata não suporta inseticida!” – Essa foi boa, curti. Veio do mesmo amigo que escreveu o poema e outra vez, sem saber, escreveu um microconto...

Inevitável em mim é essa mania de buscar a inspiração em todas as coisas: “Ah,  gosto tanto de parafuso!” – outra atribuída a Lispector. Curti. Depois passei o dia inteiro recebendo notificações de dezenas de comentários dialéticos sobre a existência do parafuso e também de suas porcas. Foi um dia enroscado para a autora da postagem, que teve que provar que o fragmento era de um texto de Clarice e que não, ela não estava revelando sua preferência sexual. Tem amigo que gosta de postar receitas de fast food com a foto, é claro; tem indicações de remédios para emagrecer; uma mistureba espetacular que deixa o rosto da gente com cara-de-bunda-de-neném... E depois vem outras dicas interessantíssimas de como deixar o  macarrão instantâneo  mais saboroso.

Tem gente que viaja o ano inteiro: New York, Paris, Buenos Aires, Machu Picchu... Sibéria...? dherr!! Tem aqueles que não se esquecem de dizer [o dia inteiro] sobre onde ele está e sim, tem até o mapa do local: “chegando à academia Corpo & Corpo”; “Indo ser feliz no Pão de Açúcar”; “Num engarrafamento na Marginal Botafogo, se eu demorar a postar é porque morri afogada – toró de chuva chegando”... 

Mas o que eu acho mais engraçado nas redes sociais são os desperdícios de linguagem. Como, por exemplo, comentar uma postagem dizendo – “sem comentários.” Isso não seria o mesmo que ligar para alguém só para dizer que não vai mais ligar? “Sem comentários” quer dizer que a coisa é tão ruim que não merece comentários ou que “puxa vida, isso é tão bom que fiquei sem palavras”? Por Cristo, termino de escrever este parágrafo com  a certeza de ter produzido um monólogo hipócrita. Igual àquele de quem fica horas socratizando o controle remoto da TV e dizendo que não há nada de interessante... Máxima culpa de Woody Allen, que tem repousado sobre a minha cabeceira fazendo-me acreditar que FreudRousseauDescartes para entender Karl Marx.


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 03 de fevereiro de 2014).


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Um mar inteiro para Gala e, para mim, um ribeirão?

Tá sentindo esse cheiro de terra molhada? Sou eu. Sou feito chuva mansa que não levanta poeira alguma. Sou água de riacho raso, onde se pode contar pedrinhas. Flutuo sobre o solo sem jamais tocá-lo completamente, porque levo comigo apenas os sonhos. Sou a ressonância humana da sua janela, Dalí.

Sou  a parte fraca de seu ego inflado, sou o tom metálico e cinza das nuances de seus bigodes. Sou o caminho pedonal que lhe chama à realidade. Mas a realidade não lhe representa coisa alguma... E nem a mim, oh, céus! Através de seu pincel honestamente possível, você me mostrou que não há nada mais surreal do que a realidade... e eu acreditei, mas só por algum tempo. Pois o que para você é fato, para mim não passa de especulação artística.

Ei, Salvador, o que foi que lhe aconteceu? Será que não se lembra mais de nós dois? Nós nadávamos no riacho e você me desenhava com carvão. Depois papai fazia festa de família, só para mostrar a todos os seus desenhos... Você se lembra? Não, você se esqueceu. Já não se lembra mais de mim? Eu era a menina dos seus olhos... Sua musa singular... Não se lembra?  Que inferno! Valha-me Deus!

Lorcas e Gala; Gala e Descartes; Picasso e Gala; Gala e Gerrit; Rinocerontes e Gala; Gala e Freud; Diego Velázquez e Gala; Gala e os elefantes... Um mar inteiro para Gala apreciar... E para mim? Um ribeirão.  Gala, Gala, Gala... Maldito seja o ventre  que gerou a Gala.
Gala. Com qual interesse ela lhe suporta? Financeiro, suponho. Sim, pois não é fácil conviver com  todas as suas fobias aos insetos...  Oh, o grande Dalí não suporta gafanhotos! Além disso, você é um franquista amante do dinheiro...E também é um aparelho digestivo... Sim, você é um aparelho digestivo... Se ao menos você viesse me ver por um único dia apenas... Eu poderia posar para você... Na varanda ou, como antes, numa janela.

Quem sabe, no dia da inauguração do museu que fizeram para você aqui em Figueres. Uma sepultura: um incomparável centro de cretinização. Quadros com títulos errados, visitantes em busca de explicações, inquiridores que nunca investigam coisa alguma, psicanalistas que examinarão se você é mais louco do que qualquer outro louco que já existiu.

Mas como você mesmo diz, a cretinização é o alimento generoso dos idiotas. No entanto, meu irmão, esse tipo de idiota não é daqueles que lhe causam paixão: idiotas reais, o gelatinoso, o pleno revoltante, completamente retardado, de lodo e saliva. São idiotas por nunca se fartarem da ganância de Dalí... Será que...?

Será que Gala sabe que você disse que se ela morrer você gostaria de comê-la? Que, morta, ela se encolheria tal qual uma azeitona e você a devoraria, porque acha que o canibalismo é a maior manifestação da ternura...? Será que ela sabe disso? Fique certo de que eu escreverei um livro para contar isso a ela. Aguarde e verá nas prateleiras: "Dalí visto por sua irmã"! Nesse dia, enfim, levantarei poeira.



(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 17 de fevereiro de 2013).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma cozinha para Mario Quintana ou A estrela que não queria brilhar

        
Tem até uma cozinha – ele afirmou e eu retruquei – e uma sacada. Mario debruçou no parapeito da janela para vislumbrar, até onde seus olhos alcançavam, o Centro Histórico de Porto Alegre. Depois fixou o olhar em uma diminuta mancha escura na ponta dos dedos que tesouravam um cigarro, deu um generoso trago aspirando a fumaça para os pulmões e lentamente a expirou, ainda olhando para os dedos: – Se vai continuar fotografando a minha vida, é preciso saber que eu não estava infeliz naquele quartinho. Porque, na verdade, eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas.

            – Mario, se você mora dentro de si mesmo, onde vai receber as visitas? –, perguntei sorrindo e lhe mostrando a cadeira thonet. – Visitas? –, indagou, fatigado, enquanto caminhava com o apoio de uma bengala. – Rubem Braga, Augusto Meyer, Manuel Bandeira... - Para que tudo isso? Um velho não pode só ficar em paz? –, falou, a grosso modo, acendendo outro cigarro. – Ora, Mario, onde já se viu uma estrela  não querer brilhar, se a existência de uma estrela é brilhar?... Fitei-o por alguns segundos esperando uma reação, uma resposta ou até mesmo uma bronca, mas ele parecia não querer outra coisa a não ser divagar com os olhos e jamais com a boca... Esperei, esperei... e ele apenas divagava com a sutileza de alguém que sabe existir, mas não sabe que sabe.

Depois perturbei a sua plenitude existencial como se fosse uma mosca que acabara de pousar em seu nariz no momento em que lia “À la recherche du temps perdu"  – O que acha de contar-me um pouco mais de sua vida? Se quiser falar em francês, vou gostar muito de ouvi-lo. Por que mesmo que você não aceitou se candidatar à Academia Brasileira de Letras, sabendo de antemão que seria eleito? Ah, meu velho, fale! Temos muito tempo até o lançamento de 80 Anos de Poesia e acho que já fotografei tudo que tinha para fotografar...

            Tudo, até olhar para ele e me deparar com um quadro pitoresco! Mario, ali, sentado naquela thonet com seu corpo ereto, apoiando as mãos na bengala, vestido de um paletó cinza de linho, calça preta, camisa azul, um lenço branco na lapela e a expressão facial mais gentil e pura que eu já fotografara desde sempre. Atrás dele, uma estante rústica feita de peroba rosa. A estante estava vazia e... oh, céus, por que? Porque Quintana morava dentro de si. E foi dentro de si que passou toda a sua vida. Dividindo-a apenas com os seus sonhos. Não teve esposa e nenhum filho para herdar-lhe o nome.


            Toda a sua existência dita, naquele instante, nas divagações de seu olhar. E aquela foi a fotografia mais linda que eu fiz em toda a minha vida! 

(PS: Segundo Mario, em entrevista dada a Edla Van Steen em 1979, seu nome foi registrado sem acento. Assim ele o usou por toda a vida).

Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 03 de fevereiro de 2014.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O voo quebrado de Florbela Espanca

Naquele dia, eu percebi que ela não estava muito bem. Titubeava uma certa gagueira no olhar todas as vezes que alguém lhe perguntava sobre quando sairia a publicação do Livro de Sóror Saudade. – Logo! –, ela dizia, dando a entender que não queria falar sobre o assunto naquele instante.

Ora, éramos amigas desde a infância e eu só estava ali porque a sua última carta realmente me preocupou. Contou-me que o casamento com Antônio Guimarães não estava nada bem e ela pensava em pedir a carta de desquite. Ela havia escrito o poema "Prince charmant", e o dedicara ao jornalista Raul Proença. O marido não havia gostado disso. Além disso, estava mais enciumado ainda por ela ter que dar aulas particulares de português e assim sair de casa sozinha.

Ali do seu lado, tentei conduzi-la à razão e, honestamente, pensei que conseguira. Pois logo que Fernando Pessoa chegou e segurou suas frágeis mãos dizendo: “alma sonhadora/ Irmã gêmea da minha!”, ela esboçou um riso quase infante e passou andar pelo salão como se seus pés não alcançassem o chão. E eu, que estava distraída e encantada com o seu flutuar, esbarrei em Manuel da Fonseca, que também parecia imerso na existência da poetisa. Ele se mirou a minha pessoa, mas só para dizer: “e lá se vai Florbela, de negro, esguia, seus longos braços se abrem esbanjando braçadas, cheios da grande vida que ela tem”...

Logo pensei que as preocupações de Flor eram irrelevantes, pois como pode ser tão amada e infeliz? Depois daquele dia, tive que deixá-la por um longo período. Meu pai estava muito enfermo e por isso tive que ir para Lisboa, deixando Florbela aos cuidados de seus próprios pensamentos. Continuamos nos correspondendo por cartas e nelas contou-me que se separou de Antônio e já estava enamorada pelo médico Mário Pereira e que fora com ele viver. Ele era um bom homem e permitia que ela escrevesse para o jornal - D. Nuno de Vila Viçosa.  Pouco tempo depois, recebi uma carta do próprio Mário, dizendo que Flor havia tentado o suicídio. Que ela não estava bem. Suas antigas neuroses por causa de um aborto involuntário se instalaram com grande força. Como se isso não bastasse, Apeles Espanca, seu irmão, morrera em um acidente aéreo.

Não tive escolha, voltei para Vila Viçosa, no Alentejo, para cuidar de minha amiga e nos últimos três anos fiquei por perto. Mas ela jamais se recuperou. Sua vida pairava num limbo de tristezas, das neuroses afetivas, das dores físicas e emocionais. Assim, ela se decidiu: na véspera da publicação de Charneca em Flor, Flor se despetalou. E pétalas tantas espalhou mundo adentro: “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 27 de janeiro de 2014).


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Estou bem ou Há na Terra uma dor pior que a incerteza?

Eu estou bem. Acredite. Ontem, dia 12 de janeiro, foi o meu aniversário e ainda é cedo para envergonhar-me em dizer a minha idade: 39 anos de uma vida  “ida” sem avanços significativos e/ou  de retratação. 

Escrevo na primeira pessoa, pois este texto é, para mim, um  retalho não minucioso do meu triste ano 13. Sendo assim, razão e emoção se fundem perigosamente aqui. Depois que reli, achei-o intimista, pretensioso e melancólico. Por ora, não há coisa alguma que eu consiga rabiscar neste espaço, então é isso que tenho para colocar sobre a mesa: um texto indigestamente visceral. 

Por toda a minha existência eu disse a Deus que jamais perguntaria a Ele “por que isso está acontecendo logo comigo?”, pois considero-me merecedora do bem e do mal que porventura venham me ocorrer: o primeiro, porque andei jogando algumas sementes à revelia por aí; o segundo, porque não sou melhor do que ninguém para ser isentada de quaisquer tipos de desgraças. Então, por que não comigo?

Ainda assim, estou aqui, numa peleja que jamais imaginei que enfrentaria: moça criada nos costumes cristãos, sem vícios, tímida e de fala quase inaudível. Nada de maus exemplos, mas também nenhum exemplo de bravura, de lutar por um ideal, de defender o que pensa a qualquer custo... Pelo contrário – humildade e abnegação ao bem do outro – sempre. E isso dá nó nos nervos.

Uma pessoa que não pensa duas vezes em se deixar vencer numa discussão só para que ela termine ou para não adotar um instante de desafeto. Por Cristo! Essa sou eu. Essa sou eu aqui do lado real da vida, num tratamento a picadas de marimbondos e, meu Deus, por que isso está acontecendo comigo? 

Já se passaram cento e noventa e quatro dias, dez horas e trinta e um minutos que o meu menino/pipa deixou este mundo para ir tingir o céu de um azul mais azul que o azul do céu. Não estou convicta de que isso de fato aconteceu, não estou convicta de que estou, aqui, escrevendo isto na primeira pessoa. Não estou convicta de coisa alguma acerca do que devo ou não fazer a partir de agora. Não faz mal, jamais estive. E quem está? A vida segue e continuará seguindo, independentemente do quanto a gente esperneie para que ela volte no tempo para fazermos “direito” o que  fizemos de “torto”. 

Não importa quantas vezes eu abra a porta daquele quarto: ELE nunca mais estará deitado naquela cama e eu nunca mais beijarei as suas alvas mãos.

Não importa o quanto eu me rasgue, arranhando as pernas, debruçada sobre os joelhos... isso não o trará de volta. Não importa quantos rapazes parecidos com ele: de camisa xadrez, chapeuzinho de malandro e mochila da Nike eu persiga com olhos enquanto atravessam a rua debaixo da minha janela. ELE não será, jamais, nenhum deles.

Escrevi este texto para dizer que (apesar de toda a dor que vivenciei  desde o inicio da doença do Arthur em dezembro de 2012 até a sua morte em agosto de 2013) eu estou bem.  Fui a um terapeuta, mas eu realmente não me sinto confortável diante de um profissional. Sinto-me "prostituída". Então descobri um grupo de apoio às mães que perderam seus filhos e desse tipo de tratamento eu gosto, porque não fico me sentindo uma coitada. Sou apenas mais uma, dentre tantas, que precisa conviver com suas dores. Assim chego à conclusão que gosto mesmo é de ouvir, é de poder olhar com carinho, é de abraçar quem sofre... Com isso livro-me do nó que me sufoca a garganta. Foi nesse grupo que conheci mães cujos filhos estão desaparecidos desde a tenra infância... Há na Terra uma dor pior do que a incerteza? Por mais que a minha casa caia todos os dias, eu não trocaria a certeza de um vendaval por um vendaval de incertezas. 


( Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 13 de janeiro de 2014)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Calhau


Vejo essa chuva de secas folhas...Parece-me que a Terra engoliu um saca-rolhas. Será que ainda estamos no outono, ou o tempo ficou homófono? Porque ouço sons  amarelos e não há folhinhas verdes para guarnecer a esperança, mas... veja só, há versos até para a ‘subpujança’. Não sei por que o vento se mostra assim tão zangado. Não vê que desse jeito não consigo dormir sossegado?

Enquanto o prédio titubeava, duma página sagrada, uma prece se cravava. E foi no meio desse temporal que comecei a sorrir, como se uma fórmula mágica de serenidade eu pudesse anuir.  Confesso, a fórmula não é minha, furtei-a de uma menininha... Mas qual? Não me julgue, quem  nunca roubou  doces de uma criança? Atire-me calhaus com possança.

Ela, a menininha, disse-me assim: as coisas na vida apenas acontecem como tem acontecer, e nada que acontece se explica enfim. Não foi bem com essas palavras, mas como montaria  este texto sem letras amontoadas? Quero a chave do segredo, eu disse a ela. Fez cara de brava, olhou-me de modo azedo... Prometi, jurei, aliancei que não contaria – disse-me “revelar um segredo é uma acefalia”.

Ela ficou à espreita, mirando-me com olhos verdes de serpente. Será que ela está blefando, só para abusar de meu estado pungente? Pensei “vou esperar até que ela adormeça”... Assim, em seus guardados encontrarei o fim de minha tristeza. Foi aí que a chuva de folhas secas começou... Androceus batiam contra o vidro da janela, quando um louva-a-deus o quarto adentrou.

Veio ele simbolizar uma esperança alada, para esta minha existência cangalhada? Observei-o com o descaso de quem está preocupado com coisa mais relevante... Como, por exemplo, desvendar o segredo de uma infante.

A infante, sim, agora me lembro, está em seu leito a sonhar com carneirinhos de algodão doce e eu, oh céus!, atormentado por sua inteligência precoce. Ela, de um suspiro, ronronou tão bonitinho que me ocorreu a lembrança: toda criança dormindo é um anjinho.

Foi nesse exato momento que eu sorri com a certeza da poção mágica: coisa mais linda do mundo, essa menina seráfica. O louva-a-deus saltou duas vezes e sobre o criado-mudo pousou... a menininha, como se sua presença sentisse, acordou.

Com os seus grandes e verdes olhos mirou o bicho e sem ao menos pestanejar deu-lhe um peteleco com capricho.  O bichinho rodopiou com destreza e quando chegou ao chão já estava sem cabeça.

A menina que acabara de se comportar tal qual uma fêmea louva-a-deus, sorriu orgulhosa de seu feito. Como pôde agir desse jeito? O segredo, pensei, não está na ilusão de uma pseudo-presciência e sim em comportar-se conforme a sua consciência.


Ela ria do bichinho, ela ria da minha cara espantada... Eu quis fazer um sermão, mas não disse nada. Ela não parava de rir, olhando para o inseto descabeçado, e eu que pensei em dar bronca, também achei engraçado. 

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista- Goiânia - Goiás em 16 de dezembro de 2013).