quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Clara Dawn e o assombroso 'gran finale' em O Cortador de Hóstias - Por João Cezar Pierobom


Assombro. É o gran finale. Um tutti em que, na música, todas as vozes, ou linhas melódicas, se ajuntam, ou todos os instrumentos entram para que, na cadência final, tudo se acabe e o silêncio nos toma, como que desprevenidos, com a respiração retida. Mas que, nesse livro de Clara Dawn, nesse O Cortador de Hóstias, onde o profano submete o sagrado, parece não ter fim, como o acordar de um sonho que nem é sonho e nem é realidade. E fica-se, sentado no leito, a indagar para a escuridão, o que foi fantasia e o que foi a vida mesma na sua concretude cruel. Aparência ou verdade? Vai se saber...

A obra mais se assemelha a uma fuga, em moto perpetuo. Seria nos moldes da Arte da Fuga de Bach? Será? Dúvidas não nos vão faltar, como nos intrincados contrapontísticos bachianos que, geniais, tiram beleza da complexidade, ou de um aparente tumulto. E destarte vai o narrador, como sujeito elíptico, desenvolvendo a narrativa em ‘primeiras pessoas’, como se fossem linhas melódicas unindo-se e se separando, tendo ao fundo uma ‘terceira pessoa’, o narrador que, vez por outra, como uma espécie de corifeu, ‘pula para dentro do drama’. Entretanto, não vai passar despercebido ao leitor atento que uma das ‘primeiras pessoas’ é justamente o cortador de hóstias. E a sua história é uma espécie de baixo continuo, um pedal de órgão, aquilo que em harmonia dá substância aos harmônios, sons que são ‘irmãos’ ou ‘primos’ de dados sons fundamentais. E isso, por certo, funciona, como uma espécie de leitmotiv, motivo central, que trabalha dando unidade à obra. A voz do cortador de hóstias vai como que costurando a trama polifônica do conjunto de vozes em ‘primeiras pessoas’.

Não é fácil escrever um romance, ou conto, em ‘primeira pessoa’. Essa forma traz, por vezes, dificuldades. Como tratar sentimentos, ou impressões, de ‘outros’, que não o narrador, em ‘primeira pessoa’? Mas Clara Dawn resolveu o problema narrando em diversas ‘primeiras pessoas’. O que contribuiu, como forma polifônica, para a densidade da exposição.

Balzac e Stendhal, quando precipitam a trama dramática, “não param nem para colher uma florzinha, na beira do caminho”. Não há pausa possível. O fôlego é retido. Não se olha para trás, nem para admirar a paisagem, ou para se ver longe o horizonte. Nada. Os passos são imperativos. A imagem não é minha. Confesso que, uma pena, perdi a referência. Eles vão como os rios tumultuosos que descem as montanhas, levando tudo de roldão pela frente. Balzac o faz geralmente após os seus coups de théatre, as reviravoltas que mudam o curso, o ritmo da narrativa e... os destinos das personagens.

E em meio a esses destinos está a condição da mulher, tema que funciona como uma espécie de argamassa que cola os lindos pedaços de vidros multicolores de um vitral caleidoscópico, que joga a sua luz, que vem do sol, nos espaços escuros das catedrais. Partes soltas de cores que são como que unidas pela beleza, ou amor, que  derramam o seu calor sobre lajes cinzentas e frias. Ali está a brutal desigualdade que ainda imperava, entre nós, mesmo nos princípios do século XX. Mulheres vendidas por pais. Às vezes por eles abandonadas. Qual a diferença? Jogadas no mundo da existência. E aí? O que lhes restaria senão o corpo frágil? Um corpo seu? Será? Para se dizer o menos. Por séculos, as mulheres, inclusive as belas, por mais razões ainda, foram usadas para selarem alianças de dinastias entre reis coroados e senhores da guerra. Interesses de Estado. Que o diga Henrique VIII da Inglaterra. Uma democrática Inglaterra que somente em 1918 iria reconhecer o direito das mulheres ao voto. Por aqui, isso se daria, não muito mais tarde, em 1932. Se o mundo era ruim, que o digam os homens...

O Cortador de Hóstias conta a história, algo trágico, de uma dessas mulheres. Cecíla Meireles dizia que cantava porque existia e porque era poeta. Cora Coralina cantava dizendo que os seus versos tinham o peso do machado. Nhanhá do Couto encheu os nossos gerais e veredas com a música do seu piano francês trazido para Goiás em carro de bois. Belkiss Spencière e Glacy Antunes continuaram a sua obra, ensinando os jovens, e inundando a nossa Goiânia com a música dos grandes mestres. Aqui... aqui mesmo, nas quebradas da Grande Floresta. Elas deram o seu recado. O de Clara Dawn também está dado.

Mas, e o assombro? E o gran finaleO assombro aparece após o penúltimo, e grandioso, coup de théatre. O rio tempestuoso da narrativa leva margens, pedras, matacões e troncos nos seus rodamoinhos. E, num repente, estamos extáticos como no fim do Grande Sertão – Veredas de Guimarães Rosa, ou do fecho de O Tronco de Bernardo Elis. A respiração está retida. Assim mesmo como ficavam os assistentes de Romeu e Julieta, e de Otelo, de Shakespeare, no Globe Theatre, em Londres. Descobrimos, então, a verdade do que dissera o desesperado e impotente Marke, em Tristão e Isolda, de Wagner: “o mal anda mais rápido do que o bem”.


No último golpe de teatro, um verdadeiro deus ex-machina, que parece, não descer dos céus, mas, provir do inferno, na voz do corifeu, não sabemos se estamos diante do sonho, da fantasia, da loucura, da quimera, ou da nua e seca realidade. Onde estariam as fronteiras disso tudo? E o tempo? Qual seria o tempo? As aparências tomam conta do real? Elas seriam a verdade? Mestre de palco! Pano de boca!


O cortador de hóstias - romance de Clara Dawn está disponível aqui: http://www.portalraizes.com/produtos/
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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Pechepeche - Portal Raízes


A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Bechepeche




Em Clara Dawn não se exaurem nunca as modulações e acrobacias transformistas que dão ao texto um revoante cenário de abstrações e múltiplos rituais expressionistas.

Na abrangência generalizada de suas publicações anteriores, rastreiam-se conotações que podemos alinhar em itens que vinham aflorando em crônicas e romances: capacidade ilimitada de reformular a estrutura convencional de muitas figuras de estilo, como faz com a metáfora, amplificando-a linguisticamente.

Dessa maneira comparativa entre duas palavras, como é a forma usual, ela cria primeiramente um enovelado de ideias que levam o leitor a sugestões e expectativas de inúmeras imagens já admitidas antes como definitivas em suas intenções sugeridas, mas o arremate do texto, em contraponto a tudo que se estabeleceu, culmina num fecho de ambivalência, de paradoxo surreal, às vezes levando, isto sim, o leitor a um solilóquio desconcertante e inusitado.

A versatilidade, que é o seu fundamento principal e que resultaria na pletora mirabolante de estesias em “O Cortador de Hóstias”, irrompe também adotando Chaplin como símbolo e patrimônio canônico de arte trêfega e multivária.

Passa sua prosa nos moldes de narração contrapontista e de incursões incompletas definidas de um romance entre ensaísmos literários de psicologia, mesclado de lances policialescos figurados. Atenta-se que este gérmen, agora em afloramento, geraria um fantástico e inédito (na literatura brasileira) parâmetro literário, como foi criado em “O Cortador de Hóstias”.

Clara Dawn tem a primazia do circunlóquio elaborado com exclusiva chancela pessoal, que se distingue, neste item, de Joyce, Proust e Virginia Woolf (aproximação, aliás, elegantemente expressa em “Um olhar estrangeiro sobre a obra de Clara Dawn”, na crítica hiperconsciente de Fátima Santana (Portugal) e endossada por Reynaldo Jardim, que a nomeou como a Clarice Lispector de Goiás. Isto porque a incursão desses fatores na técnica de monólogo interior em 1887 com “Les lauriens Sont Coupés”, em Joyce, por sua impetuosidade criadora, se faz em torvelhinho de entrechoques fráseos, em Proust, se conduz o fluxo subjetivista dentro da caixa craniana do leitor e em Virginia Woolf os objetos se pulverizam em abstrações da sentimentalidade.

Já em Clara Dawn, esta escrita automática é revestida de outras dimensões que a formam e a fazem rica de facetas porque a autora converge na sua trama, com sutileza de prestidigitadora, arrebanhamentos e fractais, como se transplantados e arrolados de outras fontes, além de evolver a narrativa também em contrapontos, os quais ainda resultam em efeito que será focado mais adiante, criadores de uma característica literalmente inédita na ficção policial. É óbvio, ainda, que a criptografia é da essência subjetivista desse fluxo de pensamento que ,assim condimentado por todos esses ingredientes em fusão no texto, personalizam a exclusiva modulação estética de Clara Dawn. Aliás, salta aos olhos a reformulação estilística a que se obrigou com a faiscação merídia da linguagem em processo de eurritmia da frase, no cadenciamento da sonoridade vocabular pelo repique fonemático de feliz harmonização, construindo-se um dos esteios de estilização em um texto que usa uma estrutura estetizante múltipla de facetamentos. Estes, por exemplo: nas páginas 15 e 46, a fusão do imagético ao organoléptico aromático consegue aquela proeza que Manuel Bandeira fazia recender em seus poemas, que, segundo Agripino Grieco, tinha o cheiro de carne feminina. Na página 25, usufrui da oralidade goiana e cria um capitoso naco escritural que nada deve aos soberanos e insuplantáveis textos de Bernardo Élis.

O realismo fantástico que repercute ao longo do romance ganha matizes dissímeis do modelo clássico. Este, geralmente, em fantasias lantejouladas e alegorizadas, mas quase sempre narradas somente pelo autor. Enquanto que “O Cortador de Hóstias” revela um tríplice artesanato de acrobacia escritural: o autor, um narrador e a própria personagem incrivelmente tramam o texto. Não há como não dizer uma genialidade arisca e esquipática de Clara Dawn... pois consegue esta mixagem com um conglomerado de fundamentos da estilística: torvelinha a linguagem e as imagens, surde criptografias e técnica operatória, desata o fluxo de consciência libertária libertina por uma escritura com e sem sequência (contrapontos), fragmentária e interrupta, encadeando o natural com o sobrenatural etc. etc.
Entretanto, não é só este aspecto remodelador do tipismo padrão do realismo mágico que a maleabilidade transliterante de Clara Dawn irradia: também comparece o caráter clássico desse cânone estético nas páginas 23, 49 e 50 (alguns exemplos são Balzac, Erico Curado, Veiga Vale, aqui respectivamente tornados ficção), além disso ainda ressoando características que o universo inesgotável do realismo fantástico propicia, a descrição em que aparece o natural difuso no sobrenatural compõe imagens de martírio rembrandtdantes nas páginas 40 e 57, sendo esta última um medalhão surrealista em pavor e tintas infernais a la Dante Alighieri.

Nem o ensaísmo literário faltou no elenco de simbolizações, uma vez que “O Cortador de Hóstias”, a partir da página 110, ensancha a dolente atmosfera do romance para focar o patrimônio histórico de Pirenópolis. É óbvio que o livro não é um gênero literário do tipo romance policial. Contudo, pelo seu excepcional dispositivo temático-escritural, pelas ações esquipáticas da personagem central, pelo eixo contrapontístico dos capítulos (o que é o suporte fundamental do policial legítimo), indo tudo confluir em desfecho típico de estrutura detetivesca, compulsa uma fantasmagórica encenação de sherlockismo estético que nos leva a afirmar que Clara Dawn criou o policial mental. Neste torvelinhoso painel imaginário de “O Cortador de Hóstias”, a ascensão estilística atinge várias vezes a dimensão de página antológica com sagaz paleta descritiva de paisagem feérica em ouro e luz... e Clara Dawn fulgura incontestavelmente como consagração de primeira linha na ficção nacional.
Mário Jorge Bechepeche é médico e crítico literário. 



Lançamento do romance O Cortador de Hóstias – da escritora Clara Dawn




“O Cortador de Hóstias” é o oitavo livro da escritora Clara Dawn*, sendo o terceiro na categoria romance.


 É ambientado em Pirenópolis, Goiás, em 1918, e a história é contada por três narradores-personagens e um narrador-observador.A trama se divide em quatro partes: a primeira se desenrola segundo a visão da protagonista, a vingativa Flor Maria, possuída pelo ódio por causa dos abusos sexuais sofridos na infância. Ela elabora um plano para matar o seu algoz.
A segunda parte é epistolar, na qual o personagem Venceslau escreve cartas, jamais enviadas, para sua amada morta. O “reverendo Vence” é seguido por um grande séquito que o adora e é por ele adorado, mas até mesmo no paraíso há serpentes. 
A terceira é a narrativa do observador, aquele que julga os atos dos personagens segundo a influência que cada um deles sofre. É possível que o narrador-observador possa também se emocionar e se injuriar, precipitar-se e até mesmo enlouquecer diante das premissas dadas, perdendo-se, assim como os personagens, entre realidade e divagações. Para o narrador-observador, coisa alguma é o que parece ser.
A quarta parte é descolada das narrativas: o suposto cortador de hóstias, num diálogo invisível com um delegado, tenta justificar seu estranho hábito de bolinar garotinhas. 

Trata-se de um romance envolvente repleto de mistérios, suspense e até momentos que vão do hilário ao desconfortável em mais de um sentido.  Reflete a influência do sincretismo religioso vigente na época e das lendas da história de Pirenópolis. A personagem principal é uma espécie de Santa Dica às avessas. Em todo o processo narrativo, é possível encontrar traços da Prima Bete de Honoré de Balzac. Até mesmo os nomes da maioria dos personagens são tributos ao escritor francês, como o cavalo Melmote Apaziguado, o mendigo Onagro e a cafetina Valéria Marnefe. 
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De pedras e de hóstias: conexões entre a prosa da sueca Camilla Läckberg e da goiana Clara Dawn


Fonte: Jornal Opção

De pedras e de hóstias: conexões entre a prosa da sueca Camilla Läckberg e da goiana Clara Dawn


Há no mínimo curiosas similitudes entre os romances “O Cortador de Pedras” e “O Cortador de Hóstias”
Valdivino Braz
Especial para o Jornal Opção

Em “O Cortador de Hóstias”, os fatos se narram por conta de três personagens e por um narrador fazendo às vezes de autor do livro. O romance de Clara Dawn é composto por quatro partes | Divulgação
Em “O Cortador de Hóstias”, os fatos se narram por conta de três personagens e por um narrador fazendo às vezes de autor do livro. O romance de Clara Dawn é composto por quatro partes | Divulgação
A escritora Clara Dawn traz consigo o dom da escrita, ou da escritura literária. A letra ao pé da letra, a escrita escorreita e correta para se narrar uma história e/ou tecer crônicas destacam os fios de seu talento estético. Traz senso de leveza e medida, noção do que seja subjetividade criativa, com sensibilidade poética. Sim, o cronista enquanto poeta do cotidiano, além da reflexão sobre fatos corriqueiros (ou insólitos) que se narram.
Cronistas há que escrevem apenas pelos cinquenta ou não sei quantos reais por crônicas de lauda e meia, algumas delas medíocres, para não dizer intragáveis — qualquer coisa sem alma ou empatia com os temas. Por excelência, cabe ao cronista sublinhar o contorno das coisas, o que elas tragam de interessante. Captar a essência do banal ou mesmo extrair alguma epifania das supostas insignificâncias, pois tudo significa alguma coisa. Epifania ou insight no sentido joyciano — manifestações súbitas, quer na vulgaridade do discurso ou do gesto, ou em uma fase memorável da própria mente… “São os momentos mais delicados e evanescentes” —, ou de captar a luminosidade e ser surpreendido pelas “grandezas do ínfimo”, ao jeito do poeta Manoel de Barros. Mas aqui não se trata de crônicas ou cronistas e nem de poemas, mas sim de romances.
Romancista, contista e cronista — além de pedagoga, com pós-graduação em Psicopedagogia —, Clara Dawn, com efeito, lavora no campo da literatura e publica desde 2008, ao lançar seu primeiro romance, “Alétheia” — que, em grego antigo, quer dizer verdade/realidade, ou, segundo Heidegger, após análise etimológica do termo a-letheia: a- (negação) e lethe (esquecimento): tentativa de compreensão da verdade/desvelamento. Ah, como somos pernósticos!
“O Cortador de Hóstias” é o mais recente livro de Clara Dawn, com o selo da Editora Livres Pensadores, da qual a autora é diretora-executiva, atuando também como produtora de conteúdo da revista “Raízes — Jornalismo Cultural”, que tem como editor-chefe seu marido, o jornalista Doracino Naves. Entre outros livros de Clara estão “Sofia Búlgara” e o “Tabuleiro da Morte” (crônicas), ”Castelo de Bolso” (infantil) e “Arthur o Grande Urso” (infantil).
Nuanças/sutilezas e, contudo, a diferença. Não que se esteja ou queira aqui fazer — e já fazendo — leigas especulações comparativas; instigante, todavia, a humana curiosidade a certo cotejamento/confronto de semelhanças e diferenças, similitudes, ecos ou ressonâncias. Venho de ler, paralelamente, “O Cortador de Hóstias” (154 páginas), de Clara Dawn, e “O Cortador de Pedras” (“The Stonecutter”, com 447 páginas), da escritora Camilla Läckberg — sueca, ela tem romances policiais, best-sellers, traduzidos para 35 idiomas e vendidos em 50 países.
Camilla Läckberg assina obras como “A Princesa de Gelo” (2003), “Gritos do Passado” (2004), “O Estranho” (2012), “Os Diários Secretos” (2007), “A Sombra da Sereia” (2008) e, dentre outras, “O Faroleiro” (2011) — as datas se referem aos anos de publicação na Suécia —; algumas delas traduzidas e publicadas no Brasil a partir de 2010. “O Cortador de Pedras” (“Stenhuggaren”, em sueco) foi publicada em 2005, na Suécia, e apenas (que saibamos) em 2011, no Brasil.
É de se notar que, segundo declarações de Clara Dawn à imprensa, “O Cortador de Hóstias”, primeiramente com o título “O Vale das Quimeras”, se iniciou em 2010, ambientado em Ouro Preto (MG) e no ano de 1975. Nas palavras da autora, era para ser um livro com três contos longos, aparentemente distintos, mas que traziam a lume a mesma história, narrada por diferentes personagens. A história girava em torno de uma suposta sucuri, no Vale das Quimeras, que, em noites sem lua, arrastava crianças para o fundo do rio, após abusar delas sexualmente. (Nada a ver uma coisa com outra, mas as coisas umas às outras se levam, como nos leva a sucuri, por analógica digressão nossa, à Anaconda mostrada pelo cinema ou a Yara?).
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Senão, vejamos: sobreditos romances sob um certo rastreamento. Em 2010, Clara es­crevia “O Vale das Quimeras”. No ano se­guinte, 2011, “O Cortador de Pedras”, de Camilla Läckberg, saía publicado no Brasil; e, já em 2012, o romance de Clara Dawn, em andamento, sofre uma guinada após a conversa da autora com um amigo, que lhe apresentou a máquina de cortar hóstias. “Pronto! Fiquei louca pela ideia de dar voz ao meu assassino de crianças”, palavras de Clara à imprensa. E assim mudou-se o título do romance para “O Cortador de Hóstias”, e mudou-se o locus, de Ouro Preto, em Minas Gerais, para a Pirenópolis de 1918, em Goiás.

A autora, provavelmente, se baseia num antigo aparelho cortador de hóstias, que funcionava manualmente, por meio de prensagem e corte. Ao que se sabe, a hóstia é feita com farinha e água. A massa da hóstia — com os ingredientes misturados numa prensa quente — resulta no pão ázimo, o “Corpo de Cristo” dos católicos, sendo este cortado em vários tamanhos. Com a massa já prensada e seca, colocada na superfície do mecanismo de ferro afixada sobre a caixa de madeira do cortador, processava-se o corte e as hóstias iam caindo na gaveta do aparelho.
Consta que as aparas, sobras ou retalhos de hóstias, cheios de círculos perfurados, serviam para alimentar porcos. Meio herético ou profano, isso, não? No passado, recortavam-se as hóstias até com tesoura. Atualmente, indústrias com tecnologia moderna atendem à demanda de hóstias, com data de validade que varia de oitos meses a dois anos.
Mas, sim, prosseguindo com nossas conjecturas, o título do romance de Clara Dawn, “O Vale das Quimeras”, foi então substituído por “O Cortador de Hóstias”. Pois bem. Por suposto que Clara, nesse ínterim, entre 2010 e 2011, teria lido (ou não?) o romance de Camilla Läckberg, podendo então que o título de seu romance se tenha como ressonância de “O Cortador de Pedras”. Ou então Clara não leu o romance sueco e tenha apenas se espelhado no título de Camilla? Ou nada disso e simplesmente porque as ideias estão no ar e o novo título do romance tenha vindo ao contato de Clara com o aparelho cortador de hóstias? Não checamos isso com Clara; optamos pelo risco de exercitar a humana curiosidade e nossas (talvez improváveis) considerações.
Corrija-nos, a autora, se aqui estivermos alicerçados apenas em leigas e meras suposições, até porque “literatura comparada” (ou lá o que seja) não é nossa especialidade — para isso (abre indelicado parêntesis) temos por aí os mestres abalizados, ainda que entre eles haja algum bípede enfunado, atarracado na arrogância do saber e segundo o qual, com suas idiossincráticas e acintosas indiretas, quase tudo que se escreve em Goiás, no campo da literatura, é ruim. Crítico de quinta coluna, de bastidores e boicotes. Mal sabe do que sabemos, em nosso parco saber, até por bocas de Matildes, e do que guardamos para mais tarde, antes do advento do Apocalipse, com o asteroide em rota de colisão com a Terra. Haverá palmas e risos, choro e ranger de dentes. Antes disso, nada se conta, mas acrescentam-se dois pontos: era uma vez um enfunado, ensimesmado sapinho, que foi indo e mais se enfunou, até que, num belo dia, cheio de si, se arrebentou. (Fecha parêntesis.)
De passagem — e teremos que reler o romance de Clara, o que seguramente faremos, seja pela estrutura do romance, pela técnica literária da autora, pela linguagem e suas imagéticas, pela densidade das personagens ou pela escabrosa atmosfera do romance, enfim —, não vimos bem, na personagem Flor Maria, uma Benedicta Cypriano (dita Santa Dica, ou Dindinha) às avessas, conforme declaração da autora. Nem seria mero esboço nesse viés ao avesso da messiânica Benedicta, um fato dos anos 1920, ao passo que a história do cortador de hóstias se ambienta em 1918, dois anos antes, portanto. E não é esse o eixo do romance “O Cortador de Hóstias”. De resto, o que sabemos?
Quanto às ressonâncias, nem há por que se encrespar, são naturais em muitos escritores (em nós mesmos, admitimos), inclusive na crítica, nos contos e romances dos próprios críticos (inclusos os sapinhos). De mais a mais, não se é dono das palavras, são elas de domínio público, não exclusivas deste ou daquele autor, salvo quando elas expressam, nítida e inconfundivelmente, a forma ou estilo peculiar, inerente e criativo, ao jeito de quem as formula de modo original. Peculiaridade essa, aliás, passível de se tornar clichê estereotipado em mãos de terceiros e até banalizar e diluir autoria de ideias originais — daquele outro autor, e não de quem delas se apropria, usurpa, repete/redunda ou “mimetiza”, até de forma involuntária (pois sim!), senão que desatento ou automaticamente traído pelo inconsciente. Orai e vigiai-vos, diríamos. Ou melhor: vigiemo-nos. Numa escala classificatória de autores, Ezra Pound distingue os “mestres” (os melhores) dos apenas “bons escritores, sem qualidades proeminentes”, e distingue dos “inventores”, os meros “diluidores”, que não vão além de suas limitações, parcos recursos, mediano intelecto.
Algumas ressonâncias de supostas leituras (ou nem se trata disso) encontramos, de forma indelével, no novo romance de Clara Dawn. Ao “cortador de hóstias”, ela apõe como epíteto “o filho do diabo”, que nos lembra um título de Bukowski, e mais adiante se refere a “anjos e demônios”, ecoando romance da “onda” Dan Brown, além de dar a perceber também uma sombrazinha de influência do escabroso de pelo menos um ou dois conhecidos autores goianos, que, por sinal, já “contaminaram” prosa e poesia em Goiás, até de críticos sapinhos.
Comparativamente, há elementos e claras similitudes ou similaridades ou semelhanças (apraz-nos encadear sinônimos e aliterações) entre as estruturas e atmosferas de ambos os romances. A propósito, e por mais exemplo entre muitos outros “naturais” (como dizíamos), lendo-se o romance “A Mulher de Costas”, de Marcia Tiburi, vai-se “ouvindo”, repetidamente, que a personagem Maria José é “nascida e renascida”, adendo este que ressoa parte homonimamente intitulada no inventivo e fascinante romance “Avalovara”, de Osman Lins, em que este qualificativo (“nascida e renascida”) se aplica a uma de suas personagens.
Já o título “O Cortador de Pedras”, alusivo a um cortador de blocos de granito e escultor, não nos parece adequado a toda a trama do romance de Camilla Läckberg, salvo que por algum sentido metafórico que nos tenha escapado. Durante a leitura, fica-se focado na expectativa com esse cortador de pedras — espécie de elemento a pretexto de toda a trama —, e meio que se frustra o espectador com as revelações (maestria de Camilla), embora já viéssemos (dedutivos psicossensores) com nossas suspeitas, recaindo sobre o verdadeiro assassino,
como se confirma. (Ainda nos anos 1950, quase 1960, em Uberlândia/MG, influídos pelas histórias de crime, mistério e suspense, meio que iniciamos ou intentamos um curso de detetive particular, por correspondência, com o renomado professor Bechara Jalkh, do instituto que leva seu nome, sediado no Rio de Janeiro; e até ajudamos a polícia civil de Uberlândia nas investigações e prisão de uns golpistas e maconheiros que se hospedaram na pensão de nossa tia Rosa). O cortador de pedras, na verdade, não vem a ser o centro ou eixo na trama da escritora sueca, e não se conecta senão como involuntário leitmotiv (motivo condutor ou de ligação) com os fatos que ocorrem em Fjälbacka, pequena e idílica cidade, onde a própria Camilla Läckberg nasceu. O assassino aí se move por razões bem mais profundas, em traumas de infância enraizados no fundo do tempo, logo pertinentes ao campo da psiquiatria.

Assassinato da menina Sara (entre ou­tros), rede de pornografia infantil, pedofilia, abusos sexuais e suicídio, conflitos de v­i­zi­nhos, espancamento de mulheres, adultério, es­posas infelizes, abandono de filhos, planos de vingança, atos escabrosos e culpas do presente e do passado (entre os anos de 1924 e 1962) vão surgindo na trama de “O Cortador de Pedras”, com o crime investigado pelo detetive Patrick Hedstrom. Algo similar, em aspectos, se dá no romance de Clara Dawn. No aspecto das revelações fi­nais, é menor o impacto no romance de Cla­ra do que na trama de Camilla Läckberg, tí­pica autora de best-sellers, com obras propícias ao cinema (e o de Clara Dawn também, por que não?), como, aliás, força do gê­nero, parece ser o destino de certos best-sellers.
Estrutura, técnica narrativa, atmosfera, densidade, personagens e sondagens do ser humano. Semelhanças entre os dois romances em foco, com as respectivas diferenças que os sustêm e distingue. Em “O Cortador de Hóstias” os fatos se narram por conta de três personagens e por um narrador fazendo às vezes do autor. O romance é composto em quatro partes, a começar pela personagem Flor Maria, tomada pelo ódio e desejo de vingança por causa dos traumáticos abusos sexuais sofridos na infância. Outra parte mostra o reverendo Venceslau que escreve cartas, jamais enviadas, para sua amada (Flor Maria) supostamente morta. Cartas dentro de uma caixa que esteve enterrada durante anos, e uma delas guardando segredo que será oportunamente revelado. A terceira parte corre por conta do narrador que vai alinhavando toda a trama do romance, e para o qual “coisa alguma é o que parece ser”. Já numa parte à parte (ou quarta parte), ganha autonomia narrativa um suposto cortador de hóstias, molestador de garotinhas e que, em depoimento ao delegado, busca inocentar-se do crime de morte das crianças. Inocentes indefesas, que teriam sofrido abusos nos fundos escuros da bestialidade, onde o vulto monstruoso insinuava-se à luz de lamparina.
Assim, “O Cortador de Hóstias” constitui um quebra-cabeça de variadas visões, e nele o escabroso se abre com um cheiro de querosene (a lamparina), frutas em decomposição e odor de chiqueiro. Ao longo do romance, vão se folheando abusos sexuais cometidos pelo cortador de hóstias contra meninas negras, abobalhadas, com algum defeito físico, abandonadas pelos pais ou vendidas para serem exploradas sexualmente. Assassinato de crianças e até um incêndio na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, como realmente ocorreu, em data mais recente, em Pirenópolis. Há no livro messiânicas religiosidades e intentos de suicídio coletivo por parte do reverendo, meio que ao modo de Jim Jones, na década de 1970, na Guiana, próxima à fronteira com a Venezuela — e seria por aqui, talvez (não por Flor Maria), o avesso dos objetivos de Santa Dica, a Benedicta de Lagolândia, um povoado de Pirenópolis. E o romance revela, finalmente, uma Flor Maria que, dada como morta, retorna, vinte anos depois, para se vingar. Mestria de Clara Dawn.
Por sua vez, “O Cortador de Pedras”, de Camilla Läckberg, se abre com a morte da menina Sara, que um pescador de lagosta descobre ao puxar sua rede com a pesca do dia. O suposto afogamento acidental, no mar, cai por terra quando a autópsia revela que a água encontrada no corpo da menina não é salgada e possui traços de sabão, o que leva a suspeita de um assassinato em Fjällbacka. Adiante, se descobre que Sara foi criminosamente afogada na banheira de sua casa, inclusive sendo forçada a engolir uma certa quantidade de cinzas. Coisa macabra, pois se trata de cinzas dos mortos, de pessoas assassinadas pelo principal suspeito, e pelo mesmo carbonizadas numa casa propositalmente incendiada. Similitudes elementais, como se vê, entre um romance e outro, além da proximidade de datas em que ambas as tramas se iniciam: em 1924, os fatos do romance de Camilla; em 1918, os fatos narrados por Clara. A exemplo, enquanto no romance da autora sueca se fala de uma reveladora caixa azul com as cinzas dos mortos, no romance de Clara Dawn há uma caixa de cartas, entre elas um envelope carmim com a carta secreta e reveladora. Coisas assim e algo mais, comparativamente paralelas.
Ao fim, longe de nós o intento de subestimar (antes, atestar) o dom de Clara com a literatura, autora e obra que temos em boa consideração, e podendo até que, a outros pretextos, só estejamos aqui a nos exibir (ah, meu Deus, outro conto de sapinho?) como leitores inveterados e atentos. Aos críticos e teóricos do assunto, a tarefa da análise aprofundada e o abalizado esclarecimento. A nós, particularmente, que transitamos mais pela superfície da matéria, e antes alicerçados na diferença do que nas supostas ressonâncias, nada temos que desabone “O Cortador de Hóstias”, o qual realmente apreciamos e cuja leitura recomendamos. Leiam o novo e envolvente romance de Clara Dawn.
Valdivino Braz é jornalista e escritor.
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“De pedras e pedradas: o som e a fúria” - Por Valdivino Braz - Jornal Opção


Fonte: Jornal Opção

“De pedras e pedradas: o som e a fúria”


Livro-DawnVALDIVINO BRAZ
Mas o que foi aquilo? Alvoroço por conta de um mero exercício do intelecto, de curiosa leitura e repasse de observações. Não somos críticos literário, não fazemos crítica, comentamos aspectos, expressamos impressões de leituras. Similitudes em literatura existem, sim, pelo mundo afora (em nós mesmos, como admitimos no artigo), e não quer dizer que este ou aquele autor está plagiando ou que não tenha talento. Não intentamos minimizar a obra de ninguém. Os temas são sempre os mesmos, universais, e mais importa o modo de cada um contar. Escritores não estão isentos, estão expostos e devem ter caixa torácica ou psicológica aberta aos ventos adversos de alguma crítica. No nosso caso, particularmente, a “fama” é que nos difama. Aos 73 anos de idade, sob patrulhamento civil e censura à livre-expressão sobre literatura!
“Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” (frase atribuída, controversamente, a Voltaire). Tratando-se de pessoas letradas, que levamos em consideração, sugerimos que releiam, mais atentamente, o texto “De hóstias e de pedras” (caderno “Opção Cultural”, Jornal Opção 2102), no qual comentamos e especulamos sobre aspectos paralelos nos romances da escritora Clara Dawn e de Camilla Läckberg, autora sueca. Mais acuidade na leitura: perceberão que ressaltamos o talento de Clara Dawn e as qualidades de seu novo romance. O mais são conjecturas, suposições de ressonâncias (ou nada disso, como deixamos claro no artigo), sem o intento de “detonar” uma talentosa escritora. E mais: visitem o blog de Clara (www.claradawn.com) e leiam (se lá ainda se encontra) a vinheta sobre o primeiro romance, “Alétheia”, publicado por ela: “Considerado pelos escritores Edival Lourenço e Valdivino Braz, como a revelação de um novo estilo na literatura goiana”. Como, então, haveremos de boicotar ou detonar uma escritora por nós mesmos reconhecida?
E, como assim, virem dizer que boicotamos o romance de Clara, que a detonamos, e outro a insinuar que só gostamos de literatura fast food? Muito raramente lemos alguma obra deste gênero, e se lemos “O Cortador de Pedras”, de Camilla Läckberg, foi porque primeiramente estávamos a ler “O Cortador de Hóstias” (prestigiamos o lançamento da obra), de Clara Dawn, e então nos deparamos com o romance da escritora sueca nas prateleiras de um “sebo” (livros usados). Só por isso compramos o livro de Camilla Läckberg. E morremos. Se a curiosidade mata, como dizem, ponderamos que a curiosidade também é fonte de conhecimento, por temerário que seja. Não há melhor metáfora sobre o risco do conhecimento do que as páginas de livro envenenadas no romance ”O Nome da Rosa”, de Umberto Eco.
Releiam o artigo “De hóstias e de pedras”, de forma mais isenta emocionalmente (certo, amizade é coisa sagrada, e muitos que usaram o Facebook ainda nem tinham lido o romance de Clara), desprendidos de uma apressada e animosa interpretação do texto. Aqui lamentamos muito, muitíssimo, que Clara Dawn sofra por causa dos nossos incompreendidos comentários. Um texto híbrido, que redigimos, dentro do nosso costumeiro estilo (que Clara conhece bem), e alguns criticaram porque não o entenderam. Não, Clara, não nos fale em parar de escrever. Não pare, nunca! Como nos disse (a mim), via e-mail, um intelectual amigo, sobre o artigo: “Seu texto é muito bom, e valoriza o livro de Clara, inclusive ao situá-lo.” E outro, doutorando em Literatura: “Vi o seu texto, gostei muito. E você colocou em evidência o romance de Clara.” No Facebook, alguém, meio que mais ponderado, ressaltou que “cada um tem uma forma peculiar de sentir e interpretar”. Então é também isso aí.
Valdivino Braz é jornalista e escritor.
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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Felizes 20 anos para sempre, meu filho - A hora 18

Arthur Miranda no Lago Paranoá - DF - Aquarela de Ederson Amorim.

Em memória de Arthur Miranda
26/06/1993 – 17/08/2013

Tia Bárbara tinha o hábito de nos obrigar a ficar de joelhos em frente à TV todos os dias, durante a apresentação da Hora do Ângelus. Enquanto José Divino, com sua voz afável, narrava tão belas palavras de Jávier Godinho, a gente pensava mesmo era nos tacos de “Bete” que tinham ficado jogados na rua à espera do próximo lance. Da tia Bárbara, além de seu jeito corcunda de caminhar, recordo somente isso.

Mas da Hora do Ângelus jamais me esquecerei... É que outra tarde, quando o sol se despedia dos pássaros, eu estava deitada na rede no meu Vale das Quimeras... fechei os olhos para ouvir o chiado bonito daquela despedida inevitável, e o José Divino – que beleza! –, no radinho de pilha do caseiro, louvava a Deus com ternura. Alguns minutos foram suficientes para que eu caísse no sono. Sonhei com o meu filho Arthur, ainda pequeno.

Tinha no olhar as travessuras saltitantes e chamou-me – Vem!? – e eu, num salto da rede, fui brincar com ele. Jogamos bola sobre a grama macia e nela caíamos de propósito só para inventar gols espetaculares. Como se mágica fosse, estávamos em outro lugar: a água de um riachinho escorria debaixo de nossos pés e, quando olhei para ele, oh, céus!, como estava lindo, vestido com aquele sorriso debochado e seu olhar dotado de sofisma pueril. Disse-me: Vem!? – e eu fui correr com ele naquelas águas rasas e obedientes.

Não havia pausa para lavar o rosto e tampouco provar da água – ele tinha pressa. Chamava – Vem!? – e eu não titubeava um segundo, seguia-o sem questionamentos para não perder a bondade de sua presença. Num repente, vi o meu reflexo na água e eu estava senil e frouxa. Uns 80 anos despencaram em minha face e quase chorei ... Quase. Não fosse a euforia dele – Vem, vem, vem...!?
Eu não tinha tempo para chorar, então esqueci a velhice e fui com ele, agora sobre gramíneas risonhas, com suas flores diminutas em formato de brancas estrelas. Borboletas multicoloridas voejavam sobre nossas cabeças e eu me sentia tão viva, ali ao lado dele, como se fôssemos duas crianças descobrindo as belezas da Terra.

Em outro lugar, ele então usava aquela sua camiseta azul celeste e aparentava uns 20 anos. Bonito, bonito, bonito... Com seus cabelos lisos caídos sobre a sobrancelha semicerrada: moldura perfeita para guarnecer radiante sorriso.  Chamou-me mais uma vez – Vem!? – e eu – sem delongas – saltei para os seus braços e beijei sua face morna. Ele acariciou os meus cabelos e perguntou-me se eu estava cansada. Num sorriso choroso, disse-lhe que jamais ficaria cansada ao seu lado.

Segurou a minha mão e disse: Vamos. Fomos correr, correr, correr... Corríamos e ríamos de nós mesmos quando nos faltava o fôlego. Ele, tal qual pássaro livre, vivenciava a ternura da vida sem quaisquer lembranças de seu tormento na terra. Nenhuma voz inumana perturbava sua mente e tampouco as terríveis dores de cabeça. Liberto, sorria. E quão glorioso era para mim vê-lo assim, liberto das correntes da loucura.  Liberto, meu Deus, liberto!

Depois, e enfim lânguidos, deitamos no chão para apreciarmos o pôr-do-sol. Era possível ouvir ao longe seriemas com seus gritos estridentes por causa de nossa presença.

Eu estava feliz. Uma felicidade que a mente o coração humano não sabem suportar. Por isso, chorei. Chorei, chorei, chorei... e, quanto mais chorava, mais vontade eu tinha de chorar e de sorrir para ele, que me olhava com ternura... E foi assim que um suave sorriso escapuliu do canto de sua boca e ele segurou a minha mão e disse-me: Mãe, não chora! A espera terminou. Vem comigo!  

 Olhei para minha mão, que segurava a dele, e achei-a velha demais. Preocupação tola para alguém que experimentava a benevolência de ouvir tão esperado chamado. Então, com aquele sorriso que a boca humana não sabe conter, eu lhe estendi a outra mão para que ele me ajudasse a levantar... E foi no instante em que ele arrebatava o meu corpo que eu acordei.

Maldita hora 18, que sepultou o meu filho num domingo chuvoso de um agosto eterno.

Clara Dawn

(Inspirado em O guardador de rebanhos – VII, de Fernando Pessoa)
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