Literatura

Vermelho Silêncio – Poema de Clara Dawn

No berço da noite
A sombra cai num casebre da Terra.
Depois de regurgitar no chiqueiro,
o vento serpenteia debaixo da jaqueira.

No grato asilo da natureza,
é de afã que apodrecem os cheiros.

O pálido cetim da tez menina
fecha lânguidos olhos num pesadelo.
Túmidos suspiros arquejam do peito infante:
estos de um sol que nunca veio.

Longe, a cantiga dos tambores de vodu.
Perto, no cinéreo vapor, a noite desbota
num verso incerto de um céu sem deus,
e a menina adormece sob as notas do sino do inferno.

Em penumbra surge de um dorso pardacento,
o sexo flácido revelado pela luz de uma lamparina.
Dedos longos de um diabo sagaz rasgam o véu púrpuro,
e o lençol do leito infante agora é rubro.

A menina planeja um grito em sua boca não grita.
La fora, late o parco cão que vela o casebre.
O vento transpira o odor da lamparina a querosene.
Os tambores do vodu emudecem.
O cão reza um terço com as patas na cabeça.
É vermelho o silêncio da Terra.

PS: Este poema é uma releitura de um excerto de Crepúsculo nas montanhas
de Álvares de Azevedo. Trata-se de um poema autobiográfico em respeito a todas as crianças vítimas de violência sexual, àquelas que não suportando o sofrimento psíquico optaram pelo autoextermínio e àquelas que sobreviveram, mas seguem em eterna angústia. Foi deste poema também que nasceu o romance O Cortador de Hóstias, ambientado na cidade de Pirenópolis Goiás, em 1918, conta a história de Flor Maria, uma adolescente de quatorze anos que orquestra uma vingança contra o abusador de sua infância.

Clara Dawn

Escritora, psicanalista, especialista em "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência" e autora de 7 livros publicados.

Recent Posts

10 COISAS QUE O REUMATOLOGISTA NÃO DIZ SOBRE A DOENÇA DE SJÖGREN

A MINHA HISTÓRIA NÃO REPRESENTA TODOS OS PACIENTES COM DOENÇA DE SJÖGREN. MAS REPRESENTA UMA…

3 semanas ago

Poemas de Clara Dawn

Cascas de cigarras O vento balança as cascas de cigarras nas grades da janela, como…

3 semanas ago

Serenidade

Eu tenho tentado não ter pressa de coisa alguma. Não mais. Já não tenho planos…

2 meses ago

Ode à deriva – Por Clara Dawn

Às vezes o navio chega e embarcamos nele. Mas, embora exista um destino preestabelecido, estatisticamente…

8 meses ago

A estética do invisível: crônica de uma cegueira anunciada

Eu sempre acreditei que o exercício da contemplação é a maneira mais grata de existir.…

11 meses ago

Doença de Sjogren: Entre a névoa e o silêncio

Acordo, mas não desperto. O mundo lá fora parece movido por engrenagens enferrujadas, rangendo em…

1 ano ago