Era segundo domingo de maio. Era segundo domingo de maio e Arthur me esperava para conversarmos, sentado sobre o tronco de uma árvore que o vento derrubara porque estava velha demais. Ele ali sentado com toda a sua peculiar serenidade, fumava um cigarro. Eu não gostava que ele fumasse, mas estaria mentindo se dissesse que o Arthur executava aquele ritual com tamanha elegância, que eu não conseguia reprimi-lo, só adorá-lo.

Caminhei até onde ele estava e me sentei ao seu lado em silêncio. Ele me fitou por alguns segundos. Depois conduziu a sua bem cuidada mão, que segurava o cigarro à boca e deu um trago, enquanto a outra mão removia o cabelo do rosto. ‘Como é lindo, o meu filho Arthur’ – pensei sem verbalizar coisa alguma.

A mão que tirara o cabelo de seu rosto, parou na fronte e ali permaneceu enquanto ele olhava para cima, contemplando – talvez – os raios que perpetravam entre as folhas do abacateiro.

Ele tem um jeito todo seu de me olhar nos olhos.  Ele é lindo como lindas são as nuvens em tardes de junho. Ele não fora sempre doce assim, passou por uma fase onde foi um temporal.

Mas ali, naquele instante, Arthur possuía uma serenidade célica. Baixou o olhar e outra vez me flagrou olhando para ele. Antes de ser pega eu buscava mentalmente palavras para defini-lo naquele instante.

Tantas coisas se passaram em minha lembrança. Coisas que o vento da vida encarregou de armazenar nas frestas do velho porão da memória. Recordei-me de toda a sua trajetória de vida até aquele instante: bem como a primeira vez em que eu ouvi o seu coração bater durante um exame de ultrassonografia e do quanto foi alta a minha gargalhada de felicidade.

Com encanto recordei de como ele aprendeu a falar e a andar muito cedo. Com apenas um ano e meio já conseguia dizer frases do tipo: “pega-me, Arthur, mamãe”. Aos dois anos apelidou o cavalo de um vizinho de “Tarraine”, e ficava inquieto sempre que o via, só para o senhorzinho o pegar no colo e dar uma volta com ele em sua carroça. Meses depois o homem morreu e, por muito tempo, o Tuco perguntou por Tarraine e o bom vovozinho.

Somente as pipas no ar faziam Tuco se esquecer de Tarraine. Deve ser por isso que a elas, ele também chamou de Tarraine.  Aos três anos, ele desapareceu do quintal de casa à procura de uma “Tarraine torada”. E foi com essa idade que ele ganhou uma irmãzinha, a Pequena.

Quando o Arthur fez 8 anos, eu escrevi um livro em sua homenagem “Artur, o Grande Urso”, onde narrei a história de um urso que ao se tornar maior de idade partiu em busca de seus sonhos, enfrentando os perigos da floresta. E colocando a si mesmo à prova, ousou aventuras incríveis. Depois voltou para casa.

Em minhas lembranças revi que o Arthur, depois da fase sofrida do casamento tóxico, passou a viver num ambiente de simplicidade, literatura, música e alegrias em termos gerais. Pelo menos é nisso que gosto de acreditar.

Quando chegou aos doze anos, Arthur já havia lido mais de 300 livros de literatura infantil e juvenil. Nesta época venceu dois campeonatos estaduais de Karatê; ganhou por dois anos consecutivos a maratona nacional de matemática e era sempre aclamado como o melhor aluno do colégio.

Também, aos 12 anos, começou a trabalhar com o seu pai em feiras livres. Seu primeiro ordenado serviu para comprar um presente para mim: uma miniatura da Harley Davidson. Ao entregar o presente disse-me: “Mãe, agora a senhora já tem sua moto para percorrer a intermináveis estradas dos Texas”.

Ainda aos doze anos teve que ser internado às pressas, pois estava com Febre Reumática. Doença que o afastou do Karatê e teve que tomar injeções de Benzetacil, de vinte e vinte dias, até os dezoito anos.

Aos treze anos começou a escrever literatura e, aos quatorze, já havia escrito mais de cinquenta poemas. Tímido, Arthur não gostava de mostrar seus versos para estranhos. Deixando-os escondidos numa caixa de papelão, onde também guardava os seus desenhos, cadernos de redações do primário e as cartas apaixonadas que ele recebia de suas admiradoras.

Aos quinze anos, após ser incentivado a beber para ‘ficar mais solto’, descobriu que o álcool o deixava ‘menos tímido’, e, a partir daí, o seu comportamento mudou por completo. De gentil a grosseiro; de carinhoso a indiferente; de obediente a manipulador; de estudioso a relapso; de verdadeiro a dissimulado…

Havia ali, uma predisposição genética à dependência química, e ela estava desencadeando transtornos mentais graves, mas nenhum de nós  fazia ideia de que isso estava acontecendo com ele.

Aos dezesseis anos: começou a frequentar festas em casas de amigos ou clubes. Lugares onde sempre se tem a oportunidade ao uso de drogas lícitas e ilícitas. Nessa fase começou a se preparar para o vestibular.

Uma turbulência ocorreria em sua mente entre o seu eu responsável e comedido e um outro eu, do qual ele se envergonhava e tentava esconder daqueles a quem ele mais respeitava como sendo exemplos de luta.

Aos dezoito anos ele se alistou na Aeronáutica e, aos trancos e barrancos, passou em todos os testes. Aos trancos e barrancos também passou para a faculdade de Arquitetura. Aspirando assim, conciliar as duas formações. E disso, Arthur sabia que era muito capaz. Poderia agora, com a expectativa de um futuro promissor, deixar para trás as noites de farra e o uso recreativo da maconha.

Todas essas lembranças acavalavam em minha mente, enquanto Arthur dava mais um trago no cigarro, com o olhar submerso nos vãos dos galhos do  abacateiro. Então, naquele momento, eu tentava imaginar o que ele estaria enxergando naquele espaço diminuto de céu, que se revela quando o vento afasta os galhos do abacateiro.

Ele, ali sentado naquele tronco de árvore, com os pés calçados nos tênis branco  – era a coisa mais linda do mundo! Ele, ali com as mãos ocupadas; uma com o cigarro e a outra na fronte, como se naquele momento pudesse, num toque mágico,  se fundir ao tronco daquela árvore velha e dar a ela novas raízes. Raízes do abacateiro, tão densas e sadias que até a quinta geração poderia se alimentar de seus frutos.

Mas, ele parecia não enxergar o abacateiro, seus olhos amendoados buscavam os pedacinhos de céu, que os galhos da árvore insistem em esconder. Talvez ele pensasse que já estava na hora de podar aqueles galhos para que a árvore não tivesse o mesmo destino desafortunado da outra.

Lembrando-me disso agora, penso que ele estava olhando mesmo era para o Seu Poder Superior. O que será que ele dizia ao Arthur?  Por alguns instantes, ainda segurando levemente, entre os dedos, os cabelos, conduzia-os de modo assimétrico para cima e depois para o lado direito. Como se congelasse nessa posição, fechou os olhos e nesse instante eu pude olhar para suas mãos: dedos longos e finos, unha bem desenhada, alva e macia…

Num impulso tomei a mão que ele mantinha na fronte, e a depositei entre as minhas. Cobrindo-as desejei vibrar em sua sintonia para que eu também pudesse ouvir o que o Seu Poder Superior estava lhe dizendo.

Tuco permaneceu de olhos fechados, cabeça erguida e ombros eretos, para auscultar a voz do seu inconsciente. Um arrepio desesperador percorreu todo o meu corpo e pude sentir que até os cabelos da minha cabeça se ouriçaram.

Logo mais, ainda de olhos fechados, ele aspirou fundo o ar… e em seu aspirar era perceptível que ele havia tomado uma decisão muito difícil.  Deu a última tragada no que restara do cigarro e depois apagou a bituca no solado do sapato, depositando-a no bolso da camisa para não ter que jogá-la na chão.

Outro suspiro fundo, agora com a mão sobre a boca: dedo polegar no queixo, a ponta do dedo indicador no nariz e os outros dedos exatamente sobre os lábios. Em seguida tirou a mão da boca e me fitou muito profundamente, seus lábios revelaram um riso tímido solto pelo canto esquerdo da boca.

Não havia dúvida, Arthur estava ouvindo algo que somente ele e ninguém mais era capaz de ouvir. Em seus ouvidos, anjos e demônios tocavam instrumentos distintos, em sua mente uma TV com 200 canais ligados ao mesmo tempo,  e em seus olhos, os galhos do abacateiro pareciam dardos inflamados.

Ele fechou os olhos rapidamente com força, como se desejasse esquecer a imagem que vislumbrara entre os galhos.

‘Meu Deus!, o que está acontecendo com você, meu filho?’ – Pensei alto, e a minha voz soou inaudível e chorosa. Mas ele não percebeu, pois ainda estava com os olhos fechados, e absorto em seus pensamentos. Abriu os olhos, virou-se para mim com muita ternura e disse-me: ‘Desculpe-me, mãe, se te olho com medo depois de um grande vagar. É que o meu corpo habita no escuro do mundo e a minha alma se recusa a viver na escuridão’.

Em seguida curvou-se sobre o meu colo e chorou copiosamente. Eu também chorei copiosamente. Fomos tomados de um profundo desespero e eu não tinha a menor ideia do que fazer para ajudá-lo. Eu estava o perdendo para a loucura. Loucura, meu Deus!, meu filho estava enlouquecendo. (Excerto do romance autobiográfico “Velho Vento” de Clara Dawn – Prelo).

Arthur Miranda, nasceu no dia 26 de junho de 1993. Ele desencadeou a esquizofrenia concomitante com o uso de substâncias psicoativas aos 19 anos, passou 7 meses lutando contra ás vozes, período em que titubeou entre a sanidade e a loucura, quanto também escreveu o seu livro “Inventário Cenográfico”, onde narrou, de forma epifânica e poética, a sua experiência com a drogadição e a esquizofrenia. Ele optou pelo autoextermínio no dia 17 de agosto de 2013. “Não é verdade que ele queria morrer, ele só não queria mais viver daquele jeito. É diferente. Muitos querem saber como ele morreu, conquanto, a mim só importa saber como ele viveu”.  Clara Dawn

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Clara Dawn
Escritora, psicanalista, especialista em "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência" e autora de 7 livros publicados.