Poemas de Clara Dawn

Poemas de Clara Dawn

Cascas de cigarras

O vento balança as cascas de cigarras nas grades da janela, como se fossem vestidos de voil.

Sinto arder nas narinas um choro que me é peculiar, sempre que me defronto com a poética da existência.

É como se algo se desprendesse de mim naquele instante de autoconfronto.

E eu, aqui e acolá, sou leve e tensa… Uma bolha de sabão no velho quintal das lembranças.

Luz de vela

Molho as pontas dos dedos e apago a vela. Ouço um chiado bonito e findo.

Por que há tanto silêncio no escuro? As ilusões estão impregnadas de sebo, simulacros de um mundo indiferente às dores dos cegos.

Pobre vela, que necessita da escuridão para ser aquela que vela. Não é a sintaxe melancólica que escurece um verso.

É o belo escondido nas tristezas que torna a dor suportável e dá luz própria a cada vela que se apaga.

Flor lilás

Soergue em mim uma folha seca que o frio sibilante revolve sem esforço.

A folha nunca repousa e parece-me ser sempre outra.

Também não sou quem eu era. E quem eu era? Aquela que se esforçou muito para sê-la.

Não faz mal. Porque até o que sou hoje, amanhã não saberei seguir.  No entardecer da esperança, é sempre outono/inverno.

Mas uma flor lilás caída no chão amarelecido, tal qual um sonho bom na ‘diáspora’ de um pesadelo, recobra os melhores sentidos.

E o sino dolente ressoa no céu aberto: É inverno, amor!

Os pássaros gorjeiam tangentes uma nota só e o sorriso se revela congelado na fotografia.

Acordo num súbido e vejo a flor lilás sobre o meu travesseiro.

Poemas de Clara Dawn @escritora.claradawn  @portalraizes @ipam_vida