ilustra%C3%A7%C3%A3o+para+vestido+de+ver+deus - Vestido de ver Deus
Tínhamos acabado de chegar. Tudo o que possuíamos estava naquela maleta de papelão que o papai segurava firme com uma força desnecessária, afinal não havia muita coisa ali: duas camisas brancas de linho; uma ceroula de algodão-cru; uma calça de casimira; um caderno para as anotações que mais se parecia com um rolo de pergaminho – mania que o papai tem de ‘enrolar’ tudo; um pente de madeira, um vestido bastante surrado, para mim – o de “ver Deus” estava no meu corpo; dois pares de meias – um para ele e o outro, também; umas roupas-de-baixo para mim e um trapo para eu enxugar o corpo– homem que é homem não se enrola em trapo – mania do papai de desenrolar as coisas.


Papai depositou com cuidado a maleta no chão, suspirou fundo, arqueou os ombros, colocou as mãos nos bolsos inclinando o tronco um pouco para trás e depois direcionou a sua visão de modo a vislumbrar a cidade no sentido horário: pardieiros – repetiu – pardieiros… Eu não sabia o que eram‘pardieiros’, mas não devia ser boa coisa porque o meu pai estalou o pescoço num movimento circular e quando ele faz isso, ai, ai, ai…! Sei não, acho que‘pardieiro’ é o cão… Não importei, eu estava vestida para ver Deus.


O vestido foi presente de uma das muitas tias que eu tenho – mania que o meu pai possui de me arranjar tias. Jamais gostei de alguma, não mesmo. Mas do vestido, esse lá, eu gostei demais: é cor-de-rosa com um laço de fita azul. Azul como aquelas araras que pintam o céu de um azul mais azul que o azul do céu; um laço de fita de cetim que enlaça a minha cintura e depois despenca em dobras extraordinárias que eu nunca, nunca, saberei decifrar… Meu pai é bom em fazer o laço, também sabe trançar os meus cabelos num emaranhado esquisito que só ele faz igual – mania que o meu pai tem de fazer tudo diferente.


Um sino tocou não muito longe: Está na hora, vamos!– falou papai, pegando a maleta com aquela firmeza que ele jamais usou para segurar coisa alguma, nem mesmo a minha mão. Eu enganchei os dedos nas presilhas de sua calça e o segui, feliz: em passos dançantes para bailar o meu vestido cor-de-rosa com laço de fita azul, quase levitando para não sujar os meus sapatinhos vermelhos de camurça – presente de uma outra tia. O meu bonito vestido de ver Deus estava mais bonito do que nunca naquele dia – quando o vento assoprava, quando o sol refletia no laço, quando eu pisava e tirava os pés do chão – minha Nossa Senhora! Que vestido lindo. Lindo de morrer!


É aqui – disse o meu pai, e dessa vez segurou a minha mão esquerda –sem vontade. Depois eu entendi por que… Logo depois. É aqui que mora Deus? – perguntei, olhando para o tal pardieiro e senti uma coisa estranha, como se de repente eu tivesse entendido exatamente o que significava ‘pardieiro’. Pardieiro – jamais esquecerei essa palavra. É aqui? É aqui que Deus mora, pai? – sacudi com força a perna de sua calça – Meu pai não dizia coisa alguma – estava estático – segurando a mala com uma mão e agora com as duas – papai se agarrou a mala como se quisesse entrar nela… Mania que o papai tem de se reservar.


Eu tinha imaginado tanta coisa bonita para dizer para Deus e agora diante da real possibilidade de fazê-lo, eu torcia com força a casimira do papai, pensando que poderia dizer para Deus que Ele tem um cheiro bom como o hálito de filhotes de cadela, que Ele é quase tão bonito quanto o meu vestido cor-de-rosa e que quando eu rezo sinto que o Seu amor é tão carinhoso quanto o vento no meu laço de fita. Era isso que eu queria dizer para Deus… Era isso!


Papai entregou a maleta para uma senhora e depois deu a ela a mão que fazia rolinhos com a sua calça e partiu sem olhar para trás… Não fiquei triste, pois eu iria ver Deus e além do mais as roupas do papai estavam na mala. Ele voltaria logo. Aposto que sim . A mulher me levou para um quarto repleto de camas com gavetinhas do lado: as gavetas são para guardar suas coisas, logo as outras chegarão – disse-me a senhora e também partiu.

Olhei em volta, para cima e para baixo a procura de Deus – olhei, olhei, olhei… pardieiro. Pardieiro úmido, escuro e cheirando a latrina e outros cheiros que logo depois senti bem de perto. Pardieiro: eu nunca imaginei que uma palavra pudesse ter cheiro, tato e gosto. O gosto?  Nunca comi lesma, mas se ‘pardieiro’ tivesse num prato, esse seria o seu gosto. E quanto a Deus? Ele definitivamente, não estava ali – não mesmo.  O vestido era para vê-lo, sendo assim – rasguei-o com os dentes, com mordidas que só eu sei dar – e depois cansada e desnuda fui abrir a mala em busca do meu velho-vestido-velho… A mala estava vazia – Mania que o papai tem de me surpreender.
(Publicado no jornal Diário da Manhã – DMRevista – Goiânia – Goiás em 10 de dezembro de 2012).