Muro - Um salto para um dia de fúria
 

Debruço-me no parapeito da janela, a olhar as gentes indo e vindo: de dentro para fora, de fora para dentro, de dentro para dentro… Quando me debruço no parapeito da janela, não importa a estação do ano em que eu me encontre, tudo faz tanto tempo e qualquer coisa que eu venha escrever a partir dali terá traços de saudade. A saudade de um senso comum insustentável de acreditar que dias melhores chegarão, mesmo que a vida prossiga debalde com seus muros que nunca se deitam.

Permaneço de frente à janela, enquanto escrevo e tenho Thomas Jefferson debruçado sobre os meus joelhos, observando o indo-e-vindo do meu olhar: janela e texto. Ouço suas palavras místicas, fluídas do Iluminismo mais radical da Terra, e o que eu sinto a respeito dos recônditos solitários da mente de Jefferson é uma profunda ternura pessoal, uma irmandade e uma vontade doída, por mais vã que possa ser, de que seria possível guardar a rara beleza da crença de que tudo, tudo mesmo, dará bem certo. E quando o meu olhar volta da janela e mira o texto, vejo um estar tão profundo dentro de mim que desejo ali permanecer até que uma epifania aconteça enfim.

Na mente, a lembrança de uma mulher que estava ‘indo’: cabeça baixa, arrastando o peso de suas enormes mãos – mãos que seguravam, com benevolência, tudo o que possuía. Talvez ela não quisesse ser assim tão beneplácita, como tem sido no tempo chamado hoje. É que antes ela sentia muita raiva no instante que se defrontava com situações que não conseguia administrar. Ora, a raiva é propulsora e nos alavanca – dá-nos coragem para dizer e agir. E aquela mulher, por certo, dizia e agia sem medo: indo ou vindo, sempre para fora e nunca para dentro… Um ser que possuía uma identidade – talvez insuportável –, mas era essencialmente humano em sua razão de ser apenas humano.

Mas ela foi vencida por uma brandura acintosa, uma benevolência jeffersoniana inacreditável lhe encharcara os ossos, constituindo, assim, a sua melhor virtude e o seu maior defeito. A culpa não é da mulher, a culpa é de Thomas Jefferson, que morreu acreditando na benevolência humana; que fez uma releitura da Bíblia e narrou os eventos essenciais da vida de Jesus expurgados de todas as menções sobrenaturais. Se uma lição de moral foi incorporada em um milagre, foi a lição e não o milagre, segundo Jefferson, que sobreviveu, pois ele entendia o papel de Jesus como um grande exemplo de moral e da boa vontade para com o outro, não como um curandeiro. Por Cristo, Jefferson, tenha piedade: a pobre mulher precisa é de um milagre.

Agora, debruço eu sobre os joelhos de Jefferson, mirando o indo-e-vindo do seu olhar: moral e boa vontade para com o outro; ocorreu-me a ideia de uma rendição silenciosa aos exemplos da moral de Cristo, com o objetivo de encontrar, senão a felicidade, pelo menos a harmonia… Mas, qual!?,Cristo jamais se rendeu aos abusos da natureza humana – Cristo, literalmente, chutou o pau da barraca, quando tentaram fazer de sua casa comércio… Sendo assim, erga a cabeça, mulher! Coloque Jefferson na estante, depois quebre uns pratos e vá com toda a fúria que puder saltitar a vida porque não há, no mundo, muros inflexíveis. 
 
(Publicada no jornal Diário da Manhã – DMRevista – Goiânia – Goiás em 29 de outubro de 2012).