anjo da morte - Sofia Búlgara e o Tabuleiro da MorteTudo ali caminhava de um jeito concêntrico. Havia tantas mortes que não se contava mais os habitantes, e sim os sobreviventes. A vida estava mesmo moribunda lá por aquelas bandas da Bulgária.
Se por um lado as mortes entraram em ebulição, por outro, evoluíam-se as justificativas. A terceira morte que se justifica pela segunda que se explica nas razões da primeira e assim, sucessivamente. Não tinha mais o que fazer, a não ser esperar que o círculo se fechasse restando o único vencedor.
Vencedor? Isso era uma coisa difícil demais para definir por aquelas bandas. Interessava o resultado final do jogo, quem sobreviveria ou quem terminaria na pior. O que importava era tão somente que o jogo chegasse ao seu fim revelando o maioral. Um jogo… Era o prisma! A vida daquele lado da Bulgária era vivenciada em fases com o destino em game over.
Restaram no tabuleiro da morte poucos sobreviventes. Os maiores, os grandes, os ilustres… Restaram estes por suas influentes estratégias. Porque essa era a hierarquia da morte. Mas as mortes estavam só começando por aquelas bandas Búlgaras, e acabaria apenas quando as justificativas terminassem, e isso era a coisa que mais evoluía por ali. Haveria sempre um motivo para matar aquele que tinha matado o outro.
O tempo avançava levando em seus chinelos a ânsia pelo fim. Quando e como as mortes terminariam? Quanto mais teriam que esperar até que surgisse um alguém capaz de resolver aquela situação contingente?
Enquanto as mortes atingiam a zona rural, vitimando alguns peões e seus cavalos, poucos deram atenção. Mas depois que começaram a destruir as torres das igrejas e matar seus bispos, aí a coisa toda começou a ferver.
Foi assim que oficializaram Sofia como a cidade, 11 de maio de 2010 como dia em que todos os interessados se reuniriam com o intuito de encontrar o proeminente matador… É claro que logo chegariam à conclusão que não importa quem começou a guerra, mas quem será o mártir da paz. Ora essa! Pessoa alguma em Sofia Búlgara parecia interessada na paz. Eles queriam mesmo era ver a cobra fumar. Estavam tão obcecados pela morte que seus olhos brilhavam a cada vítima que se despencava ao fim.
O dia oficial ficará para a história, como o dia em que povos se dividiram em façanhas mortais, onde apenas um sairia ileso. O que aquela gente jamais conceberia era que alguém na iminência da derrota, colocasse fim às mortes, simplesmente desistindo de lutar.
Fora um dia incrivelmente fabuloso, onde nem mesmo as crianças escaparam do duelo. Visão clara para uns e negra para outros. O fator sorte inexistia e os comensais da morte apostavam na lógica e na tática. Indubitavelmente venceria o melhor. Depois de doze exaustivas horas, uma voz solitária ecoou pelo ambiente como se fosse o sibilar de uma cobra. Seria mesmo o fim? Apenas um se tornara o rei?
De repente a voz do enxadrista Anand, depois de eliminar o búlgaro Veselin, bradou em alto e ondulante sotaque híndi:
– מט, checkmate – cheque-mate…
(Publicada no Jornal Diário da Manhã – Goiânia – Goiás em 02/08/2010)