ILUSTRA%C3%87%C3%83O+FOGE+TATUA+2 - Só por hojeApesar de, no momento, eu estar pairando no limbo das incertezas e da dor. Meu sentimento é de uma profunda misericórdia. Uma misericórdia tão grande que penso que transbordo e preciso abraçar a muitos através desse ‘dom’ que Deus me deu de rabiscar palavrinhas. Hoje, estimado leitor, perdoe-me, mas a  minha misericórdia não se vestirá de uma lírica prosa.  Pois, daqui de onde pairo, somente enxergo Arthur, o meu menino/pipa.
Falarei de morte, mas prometo que é SÓ POR HOJE. Não gosto de suscitar a piedade, mesmo porque não sou  piedosa o bastante para merecê-la.   Tão somente porque o meu filho jamais sentiu vergonha de revelar-se como um adicto com transtorno mental – falarei do porquê de sua morte.
Arthur venceu a febre reumática – a cada vinte dias ele tomava injeções de Benzetacil e isso foi por cinco anos. No estômago, uma bactéria rara o fazia vomitar sempre – venceu-a. Antes do reumatismo participou de vários campeonatos nacionais e regionais de Karaté, venceu todos eles. Participou de um campeonato nacional de física e foi o primeiro colocado. Venceu o flagelo do vestibular e conquistou uma vaga de Arquitetura na Universidade Estadual de Goiás.  Até o ensino médio, Arthur era  considerado o melhor aluno do colégio – em todos os colégios por onde passou. Ele era, e gostava de ser, vencedor em tudo.  Mas,  pergunta que bombardeia-me de todos os lados está focada em POR QUE ele não venceu o  campeonato contra às drogas?
As respostas são insignificantes, pois não justificam a terrível perda. Arthur não era apenas esse vencedor descrito acima: era um jovem com todas às chances de viver ‘ricamente’ dentro de suas alternativas de vitória de vida e optou por alternativas nem um pouco inocentes. Ignorante sim. Ignorante de sua condição de DEPENDENTE QUÍMICO e da pré-disposição genética para a esquizofrenia.
Um jovem curioso que gostava de “curtir” a vida, como ele mesmo dizia “ como se estivesse na hora do recreio”. Maldita Cannabis Sativa. Maldita maconha.   – “Não faz mal, mãe. Pelo contrário é remédio” – dizia ele. E assim seguiu sua paixão por essa droga de um modo doentio.  Em cinco anos de uso diariamente. Exames comprovaram que ele não era usuário de outras drogas. Era um ‘maconheiro’  com orgulho em ser. Orgulho até que ela o nocauteou fatalmente.
Um surto-psicótico em dezembro de 2012: vozes, vultos, alucinações… Ele parou de dormir, pois o tormento lhe possuía sem intervalos. Saiu do surto com trinta dias e voltou para casa: tratamento com antipsicóticos e acompanhamento terapêutico – tudo certo e a doença controlada por cinco meses e vinte e sete dias. Mas o menino/pipa decidiu abusar da incerteza e se pôs a prova:  “usei maconha no meu aniversário, era uma forma de comemorar. Foi para eu ter certeza se voltaria a ouvir às vozes e ficaria surtado e aconteceu como a minha psiquiatra disse – ‘se você voltar a fumar maconha, vai surtar’  – dito e feito”(trecho descrito em seu caderno de anotações. Ele foi internado outra vez. A medicação fora dobrada e redobrada, modificada… mas não foi suficientes para livrá-lo do tormento e  no dia 17 de agosto depois de passar 45 dias ouvindo vozes, ele desistiu da maior de todas as suas lutas. Ele não queria morrer, apenas não queria mais viver – é diferente).

Ele deixou uma BANDEIRA – MACONHA FAZ MAL SIM –  e junto com a bandeira, deixou um rascunho narrando a sua experiência com o uso dessa droga; o surto psicótico e a sua boa vontade em que a sua vida sirva de exemplo a muitos.  Ergo essa bandeira e aceno-a com a certeza de que NÃO ESTAREI SOZINHA,  Arthur e tantos outros estarão comigo. E é com as palavras do menino/pipa que desejo terminar esse texto: “ Não escondo de ninguém a minha doença. Todos os meus familiares e amigos sabem que sou adicto e frequento o NA e que estou em recuperação de um transtorno mental. Eu me sinto confortável para dizer disso. Comecei a ser honesto com a minha recuperação quando aceitei a minha doença e descobri que SÓ POR HOJE posso ficar livre dela”. 
(Publicado no jornal Diário da Manhã – DMRevista em 26 de agosto de 2013. Leia também: Foge, Tatua, foge   – texto intuitivo)