“Rasgo o verbo porque não posso rasgar o sujeito”. Esta frase estava na feed de notícias do meu perfil no Facebook. “É de Clarice Lispector”, afirmou a postagem, mas eu não posso precisar.
Enquanto eu luto com os meus pensamentos, a homepage é atualizada quase que instantaneamente. A primeira página é tudo que a minha paciência, e só pela manhã, permite visitar. Talvez eu compartilhe alguma notícia relacionada à cultura ou saúde mental. Talvez eu curta a foto de algum bebê sorrindo. É certo que terei o ímpeto de “rasgar o verbo”, exatamente, “porque não posso rasgar o sujeito”, em postagens políticas passionais ou de humor machista. Raramente faço. Já cheguei a escrever o comentário e publicá-lo, segundos depois deleto, preguiça de ‘validar’ a cretinice de alguém com uma resposta. Nessa hora lamento o fato de a opção  “não curti” não ser uma opção.
Ora, são milhares de “amigos virtuais” para nos desejar bom dia, boa tarde, boa noite, boa hora, bom minuto, bom segundo…  E segue a primeira página – segue interminável: “A lasanha está pronta, o molho caiu no chão branquíssimo”. Quem postou não sabe que fez poesia – e lá se vai um poema sem ser poetizado.
“O dia está tenso. Vontade de tomar uma cerveja gelada com sal na borda do copo” – veio com a ilustração, cento e cinquenta ‘curtições’ e uma dúzia de comentários;
“Hoje ela não veio! Fiquei na expectativa, mas ela não apareceu! Lembrei-me, então, do que fiz com ela na noite passada e ela tem razão em não aparecer:  barata não suporta inseticida!” – Essa foi boa, curti. Veio do mesmo amigo que escreveu o poema e outra vez, sem saber, escreveu um microconto.
Inevitável em mim é essa mania de buscar a inspiração em todas as coisas: “Ah,  gosto tanto de parafuso!”. Outra frase atribuída a Lispector. Curti. Depois passei o dia inteiro recebendo notificações de dezenas de comentários dialéticos sobre a existência do parafuso e também de suas porcas. Foi um dia enroscado para a autora da postagem que teve que provar que o fragmento era de um texto de Clarice e que não, ela não estava revelando sua preferência sexual.
Tem amigo que gosta de postar receitas de fast food com a foto, é claro; tem indicações de remédios para emagrecer; uma “mistureba” espetacular que deixa o rosto da gente com cara-de-bunda-de-neném… E depois vem outras dicas ‘interessantíssimas’ de como deixar o  macarrão instantâneo  mais saboroso.
Tem gente que viaja o ano inteiro: New York, Paris, Buenos Aires, Machu Picchu… Sibéria…Sibéria? Será? Tem aqueles que não se esquecem de dizer (o dia inteiro) sobre onde ele está e sim, tem até o mapa do local: “chegando à academia Corpo & Alma; “Indo ser feliz no Pão de Açúcar”; “Num engarrafamento na Marginal Botafogo, se eu demorar a postar é porque morri afogada – toró de chuva chegando”…
Mas o que eu acho mais engraçado nas redes sociais são os desperdícios de linguagem. Como, por exemplo, comentar uma postagem dizendo – “sem comentários.” Isso não seria o mesmo que ligar para alguém só para dizer que não vai mais ligar? “Sem comentários” quer dizer que a coisa é tão ruim que não merece comentários ou que “puxa vida, isso é tão bom que fiquei sem palavras?”.
Termino de escrever este parágrafo com  a certeza de ter produzido um monólogo hipócrita. Igual àquele de quem fica horas socratizando o controle remoto da TV e dizendo que não há nada de interessante… Não é um texto para refletir sobre o tempo que gastamos com informações que passamos e recebemos em nossas redes sociais. Longe disso. Trata-se apenas de uma dessas crônicas inúteis, da rotina contemporânea. Uma catarse do ”eu” camaleão que se adapta facilmente às novidades e cede sempre, e sem pestanejar, às oferendas do mundo globalizado. E daí? Se é bom ou mau –  disse Rubem Alves – o tempo dirá.
(Crônica de Clara Dawn – Publicada originalmente no jornal Diário da Manhã – DMRevista – Goiânia – Goiás em 03 de fevereiro de 2014).
 

 

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Clara Dawn
Escritora, psicanalista, especialista em "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência" e autora de 7 livros publicados.