Se começarmos a falar abertamente sobre o autoextermínio, assim como falamos de câncer, diabetes e sinusite, é possível que toda a romantização que os mais jovens fazem em torno da palavra ‘suicídio’, acabe. Toda essa romantização faz com que a automutilação e a autodestruição se tornem uma epidemia.

É um erro primário acharmos que conhecemos os nossos filhos. Afinal, os nossos pais também não nos conhecia. Costumávamos confiar mais nos colegas ou numa pessoa estranha do que em nossos pais. E é assim também nos dias atuais. Ocorre que hoje, em tempos de globalização, os estranhos se tornaram ‘amigos’ afins, numa rede infinita de exibicionismos, informações falsas, exemplos e facilidades autodestrutivas.

As crianças não sabem mais o que é ser criança, já nascem internautas: iniciou um choro, está aqui o celular dos pais; inciou uma birra, está aqui o celular dos pais; tem visita em casa, vá para seu quarto jogar vídeo-game – daí a criança pergunta – posso baixar o jogo novo? E o adulto responde que sim, só para se livrar dela.

Se você permitir que a criança experimente o tédio, certamente ela desenvolverá habilidades inimagináveis. Antes de dar um celular para o seu filho, deixe-o experimentar o tédio. Mesmo porque a idade para dar um celular para uma criança é não dar um celular para uma criança.

Quando enfim as crianças são levadas para passear, vão para o shopping. Ora, o que é um shopping? Um centro de compras, e cedo a criança descobre que o prazer está no consumo, na competição de ter o que o outro não tem.

Cedo descobrem que o valor de uma pessoa é medido pelo seu poder de consumo. Cedo vão aprendendo a jamais experimentar o tédio, as regras autor regulativas e a frustração. Conquanto é exatamente a vivência com o tédio e com a frustração na infância, que fará com que ao chegar na adolescência, o indivíduo saiba lidar com a rejeição de uma postagem, saiba se impor diante do cyberbullying, da exclusão psicossocial, da discriminação e da disseminação do ódio.

Entretanto, se o indivíduo passou pela infância sem aprender a lidar com as frustrações e o tédio, ao chegar na adolescência, que é a fase mais difícil do desenvolvimento integral do ser, seu cérebro entrará em colapso e ele – conduzido por inúmeros fatores psicoemocionais, sociais, familiares, sexuais, políticos, religiosos, físicos e mentais, poderá percorrer as terríveis estradas do sofrimento psíquico.

Outro dia, no final de uma de minhas palestras, um pai me perguntou qual seria a idade certa para conversar com os filhos acerca de temas polêmicos como sexualidade, drogas e prevenção ao suicídio. Eu respondi que a idade ideal para se começar a ter esse tipo de conversa com os filhos, é no ventre materno.  Numa fala pedagógica e fabulosa de acordo com a compreensão de cada idade. É no ventre materno também que valores altruístas, empáticos, de cooperação e caridosos são passados. Então ele ficou pensativo por uns segundos e disse: – Preciso correr porque estou atrasado 15 anos.

Texto da escritora, psicopedagoga e psicanalista Clara Dawn

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Clara Dawn
Escritora, psicanalista, especialista em "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência" e autora de 7 livros publicados.