suspirar - Profundamente breve
Por mais instruída que seja uma pessoa, ela é ignorante em muitas coisas. Eu, por exemplo, não sei coisa alguma sobre o “respiratio” . Vou descobrir agora mesmo, enquanto os meus dedos procuram o que fazer. E se eu achar que a existência do “respiratio”  é interessante o suficiente para compor o meu texto – acredite – ela o há de compor; senão, não. Porque se informar acerca de algo não é conhecimento, não é saber, logo, por mais que eu me informe sobre o “respiratio”, ainda serei ignorante, pois é preciso dedicação e boa vontade para se ter conhecimento de algo: é preciso vivência. Eu sou escritora, mas deveria ser bióloga, porque tudo o que diz respeito a viver me interessa.
Neste instante, embaixo, na esquina do prédio onde moro, um homem está encostado ao muro. Vejo-o através da janela: uma perna dobrada para trás e apoiada à parede, dedos polegares nos bolsos enquanto os outros dedos tamborilam ao som de seu assovio… Ora, ele está assoviando “A Majestade, o Sabiá”.  Não dá para buscar outros fazeres agora – paro para vislumbrá-lo e ouvi-lo: “Tô indo agora tomar banho de cascata/quero adentrar nas matas onde Oxóssi é o Deus/ Aqui eu vejo plantas lindas e selvagens/ Todas me dando passagem/ Perfumando o corpo meu.”  A minha mãe adora essa música – adorava. Porque se converteu ao cristianismo e a música faz alusão a Oxóssi. Que diferença que faz o nome? Deus é Deus. Eu sou escritora, mas deveria ser musicista epifânica,  porque toda a música que eleva o espírito me interessa.
‘Não. Não vai embora! Fica mais pouco… Termina a música!’ – Ele, certamente, não poderia ficar ali até o final da música. Talvez tenha sido o dever que o chamou, talvez tenha cansado de esperar por não sei quem, talvez tenha me visto na janela, se erubesceu e só por isso encerrou a música como se para isso tivesse usado um facão afiado. Lamentável. Para mim? Não, para ele, que ignorou a plateia. Pobre homem ignorante acerca dos privilégios. Mas a ignorância acerca dos privilégios é uma riqueza que perdemos no primeiro gole de água engarrafada. Partindo desse prisma, o homem na esquina não é pobre, é rico: guardou um pouco de sua música para depois. Eu sou escritora, mas deveria ser psicopedagoga, porque tudo que diz respeito aos mistérios da mente e do comportamento humano me interessa.
Não importa. Terminarei eu a canção no meu desajeitado assoviar para dentro: “ Esta viagem dentro de mim foi tão linda/ Vou voltar à realidade, pra este mundo de Deus/ Pois o meu eu, esse tão desconhecido/ Jamais serei traído/ Pois esse mundo sou eu.” Não gostei muito de assoviar “A Majestade, o Sabiá” – perdi o fôlego  e uma fadiga estranha comprimiu os meus pulmões. Uma viagem para dentro não pode ser sôfrega. Uma viagem para dentro não deve ao menos ser perceptível – apenas sentida intimamente. Eu sou escritora, mas deveria ser logósofa, porque tudo o que diz respeito à autotransformação involuntária me interessa.
Estou chegando ao fim deste emaranhado de letras e ainda não me informei sobre o “respiratio”. É que eu tenho essa mania de falar sem falar; de instigar a dúvida; de me desdizer; de colocar o meu cognitivo à prova sob a perspicácia do leitor. Eu jogo comigo mesma, e é um jogo perigoso: pois eu jamais sei como vou terminar o que começara sem planejamento.  E mesmo que pareça que tudo foi organizado de modo circunferente, é algo simples: respiro – ligo o computador; respiro – abro a página em branco; -respiro – coloco os dedos no teclado; respiro – fecho os olhos; respiro – ouço a respiração da música aos meus ouvidos e esse respiratio é que inspira, e me aspira, e me preenche, e me transborda… Eu sou escritora, mas devia ser um “suspiro”: um som doce que mais se parece com uma oração, um som arfado incógnito e profundamente breve.    
(Publicada no Jornal Diário da Manhã – DMRevista – Goiânia – Goiás em 01 de abril de 2013)
cleardot - Profundamente breve