O que é uma mulher? – O personagem do ator canadense, Bruce Greenwood, no filme ‘Jogo Perigoso, respondeu: Uma mulher é suporte à vida da xota.

O filme, é uma peça cinematográfica extraída do livro de Stephen King, escrito em 1992, onde Stephen King critica as atitudes grotescas dos homens e da sociedade em relação às mulheres. Desde a pedofilia, até o fato da mulher ainda se sentir subjetivada na vida quando ‘não é capaz de ser perfeita para o homem’ e por isso aceita qualquer tipo de abuso masculino como algo normal. Tanto no livro quanto no filme, é muito evidente as dores psíquica da protagonista em ser uma mulher numa sociedade machista.  É sem dúvida alguma, uma trama angustiante, pois o mergulho é no inconsciente de uma mulher. E o inconsciente não pode ser silenciado. Ele, sem dúvida alguma, de algum modo, vem á tona – e uma vez não escutado, compreendido e ressignificado – vem à tona da pior maneira possível.

Em Jogo Perigoso, a protagonista se vê diante da assertiva do marido  – que ali representa tanto o patriarcado quanto o inconsciente coletivo e a própria consciência da mulher acerca do que é uma mulher. Vale a pena assistir. Está disponível na Netflix.

Mas, então, o que é uma mulher? Um suporte á vida da xota?

Entristece-me que os protestos contra o patriarcado não sejam mais numerosos e barulhentos, dada a seriedade do que se está em jogo. Em nome das supostas boas intenções de “defender a mulher”, o que se faz, de fato, é reforçar ideias machistas que persistem há séculos e estão na base da violência física e sexual contra as mulheres: a principal delas é de que a culpa é da vítima. São mais de 200 feminicídios por ano, e mais de 180 mulheres (subíndice) são estupradas POR DIA no Brasil, somente pela culpa de terem uma xota e mamilos.

As mães ensinaram a lição, ‘vá pela sobra, usa essa capa para esconder seu corpo e esse capote pra esconder seu rosto; não fale com estranhos; ande de cabeça baixa; não deixe o lobo mau perceber que você carrega um doce porque se não, por causa do doce, ele vai devorar você. Ora, como assim, um estupro a cada 7 segundos, já que temos a certeza de que não existe impulso sexual incontrolável? A menos que estivéssemos falando de animais irracionais. De repente, estamos mesmo.

Uma mulher não é um suporte à vida da xota. Não adianta tirar o espartilho de nós, se nunca nos tiram de dentro do espartilho. Quando comemorações de um 8 de março sem reflexão da luta, nos lançam ao começo do século XX no funil de uma silhueta finamente opressora.

Uma mulher não é um suporte à vida da xota. O que é uma mulher? Um ser vital que nasce, cresce, reproduz (se quiser) e depois morre, mas que no meio desse trajeto – pasme – tem descoberto que não adianta lutar por direitos iguais, quando ainda precisa lutar pelo direito humano de ser respeitada como um ser humano.

A violência de gênero, o não reconhecimento da gravidade dos abusos contra as mulheres e de suas raízes discriminatórias corroboram não só para que as agressões aconteçam, mas também auxiliam a manter a situação de violência até o extremo do assassinato. É concomitante também como obstáculo para que muitas mulheres não busquem ajuda por medo de não serem ouvidas e, se ouvidas, serem postas na balança de que a culpa foi delas, e com isso, o opressor fique livre, e agora com mais ódio ainda.

O filme Jogo Perigoso está disponível na Netflix

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Clara Dawn
Escritora, psicanalista, especialista em "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência" e autora de 7 livros publicados.