fundo da espuma do sab%C3%A3o 18982424 - O jardim está pronto, agora só falta florir...
Eram meados de setembro, e a neve começara a derreter sobre o Vale Nevado. A água  da banheira exalava  vapor quente, e o fervilhar da hidromassagem compunha um agradável ruído na solidão planejada… Eram meados de setembro, e Santiago patriota estava pronta para a Grande Parada Militar em homenagem às Glórias do Exército Chileno. No Palácio de La Moneda, o relógio  anunciava a hora oito  e a cidade  enublava sob  quatro graus.
O roteiro do dia era  assistir ao desfile cívico, esquiar no Vale Nevado e ir a Valparaiso conhecer La Sebastiana, uma das casas de Neruda.  Ou ficar por horas naquelas águas térmicas: Casillero Del Diablo numa taça sobreposta na espuma jacente à borda da banheira; Montserrat Caballé compondo a trilha sonora  com sua divinal e lírica voz; o bloco de notas ao alcance das mãos e uma caneta que, às vezes, servia para prender os cabelos…  
Do que mais se precisa para apreciar as benevolências da vida? De um cenário termostato de confortável vestimenta aos sentidos ou da natureza física e fria das cordilheiras?   Às nove horas e trinta minutos é o limite de espera do guia na porta do hotel. Ora, a neve estava descongelando, o que tornava a subida ao Vale Nevado uma aventura com risco de acidentes, era isso ou esperar até a próxima temporada.
A La Sebastiana, comprada por Neruda em 1959, lugar onde ele escreveu tantas poesias remanescentes do amor e do mar: janelas amplas com a vista extraordinária para os movimentos do Pacífico e a audição promíscua das gentes daquele morro abobadado de casas em Valparaiso. Inspirador, sim?: “eu construí a casa/primeiramente fi-la  de ar/depois hasteei a bandeira e deixei-a pendurada no firmamento/ na estrela/na claridade e na escuridão/…/ não se pense mais/ esta é a casa/tudo o que lhe falta será azul/agora só precisa de florir/e isso é trabalho da primavera.”
O bloco de notas: escrita portátil “antipósmoderna”. Não se deve abrir mão – jamais! Tudo que um escritor precisa para viver ordinariamente é de uma PITT, uma Malwee, um par de All Star, Oral B, Lux Luxo, Bloco-de-Notas-de-Papéis-Descartados e uma Bic azul. O extraordinário fica por conta de uma mente cosmopolita  e de suscetíveis espasmos inteligíveis que, vez ou outra, rabiscam a vocação para construtor de quimeras.
Pode ser que ele precise de uma La Sebastiana com imensas janelas retangulares. Pode ser que ele precise comer neve e dela também fazer bonecos; pode ser que precise sapatear sobre a uva para respeitar o vinho; pode ser que necessite, com urgência, levar um soco debaixo das costelas para saber como se deve escrever isso; talvez ele precise, realmente, de um banho de espuma para mergulhar na maciez de uns versos; pode ser que ele seja obrigado a frequentar pubs londrinos para descrever o sofisma de uma boemia muito cara; pode ser que ele necessite intercambiar experiências turísticas; talvez ele se permita visitar, ao menos uma vez por ano,  o Museu do Louvre só para saber se o que sustenta a Gioconda são os parafusos ou as buchinhas e depois ficar horas meditando sobre qual dos dois é mais importante no equilíbrio da “arte.”
… o relógio acena a hora nove: zona de conforto ou os riscos do Vale Nevado? Coração acampado ou poesia alheia?  As pontas dos dedos estão congeladas  no equilibrar do bloco de notas –  Montserrat Caballé se cala – a mão retesada despenca sobre a torneira, liga-a com suave selvageria – a espuma escorre da bucha  e transborda na tigela de vidro –  o bloco de notas foi parar sobre o fogão e a caneta voltou a sustentar os cabelos enquanto as  louças eram subjugadas… Pode ser que, extraordinariamente, eu tenha vivenciado isso. Pode ser que, ordinariamente, eu tenha sonhado.  
(Publicada no jornal Diário da Manhã – DMRevista – Goiânia – Goiás em 15 de julho de 2013).