Corpo, por que chora? Vem dançar. Não vê?, há um alvoroço na figueira – pássaros-pretos promovem um caos sonoro a partir de um assovio. E que belo assovio é. Não escuta? Sei que deve estar pensando que o sol não tem valor. É mesmo um ordinário, como pode nascer para todos? Ser suscetível às desordens da existência é humano. Vamos correr por aí. Antes podemos passar na varanda – sobre a mesa tem um prato cheinho de acerolas robustas e cajuzinhos do cerrado. Mas se não quiser fruta, faço-lhe uma sopa. Ou um escaldado grosso com ovos e pimenta; minha mãe diz que o escaldado levanta até defunto. Não crê? – Não crê. Que pena!

O céu azul, o sol vibrante, a chuva, o escuro… tudo ilusão. Modo de ver. Sim, porque não importa se o que se vê são nuvens claras ou nebulosas: atrás delas, o ordinário brilha incansavelmente e não está nenhum pouco interessado se você geme ou sorri. É o sol sendo o sol – simples assim. Mas então você me diz que hoje só o sossego lhe acomete e não se importa em ser deselegante com o resto do mundo. Diz que até amaria a vida se uma vida tivesse; que afã pela paz eterna e que está exausto de sofrer…

Cuidado, corpo, a dor revisitada assim pode até virar poema, e vou lhe repetir uma coisa que não é segredo, eu não sou poeta. Pra ser poeta tem que ter alma de criança e a minha já nasceu velha. Velhinha, velhinha… Gagazinha de bengala e chapéu Panamá. Acho que vi um sorriso escapulindo pelo canto direito da boca. Coisa linda. Solta isso de uma vez, porque se você engole o riso ele se transforma em lombriga e esse verme vai devorar você de dentro para fora. Verdade. O que não vira palavra, vira tumor. Não digo?, então.

Venha corpo, coloca a sua mão no meu ombro e deixa o espírito  conduzir a dança. É verdade que os meus ombros estão mais para escOmbros do que para muralhas, mas a velhice da alma também é ilusão. Não ligue. O espírito, o que jaz perfeito para sempre, é incorruptível: como aquela coisa estranha, incômoda e indolor que sentimos depois de ficar muito tempo numa mesma posição.

Pensei nisso uma vez, enquanto fazia um enxerto ósseo nos dentes incisivos superiores. No momento em que a mão do dentista segurava aquela terrível ‘furadeira’ numa interminável escavação, eu pensava mesmo era no meu espírito, que naquele instante não sentia coisa alguma: medo, dor, aflição, desespero, vontade de dar uns petelecos no cirurgião e sair correndo e gritando como fiz quando era criança. (Minha mãe conseguiu me agarrar do outro lado da rua. Talvez ela desminta isso, porque não tenho certeza se de fato aconteceu ou foi só a minha vontade de fazê-lo). Uma coisa eu tenho certeza: o espírito é doidivanas – tá nem aí pras dores do corpo, porque na verdade o espírito é o inconsciente. E o inconsciente é a cura.

Foi assim que eu descobri o tal emplastro capaz de sanar todas as dores. A verdade sobre si mesmo. E uma vez descoberta, tornar-se quem de fato é, arcando com todos as alegrias e dissabores do encontro consigo. Se Brás Cubas estivesse vivo, eu contaria pra ele. Juro. Mas qual?, o pobre já nasceu defunto. Que sina! Foi inspirada em Brás Cubas que passei a dialogar com meu “hipopótamo” interior e ele disse-me que o passado e o futuro têm muito pouca importância, comparado com o que há em nosso nada explorado inconsciente.

Todo ser humano tem um inconsciente acordado com a sua própria evolução, e ele é apenas aquilo que deve ser. Uma flor, por exemplo, é uma flor sem ao menos saber-se flor, cheirosa ou não. Só o homem convive com o drama, desde sempre, de preencher seus vazios e curar suas dores como se elas pertencessem somente a si.

Ora, o inconsciente jamais está vazio, tampouco se transborda de quaisquer desejos. O inconsciente é apenas é o que deve ser: a cura por intermédio da verdade. Conhecer a si mesmo não é apenas um conceito filosófico. É a fome do inconsciente. Saciar essa forme é uma necessidade. Foi aí que me ocorreu a ideia de que a verdade sobre si mesmo é o emplastro da mente e, tão logo, do corpo. Porque não há inteligência emocional e saúde física sem saúde mental.

Não é nada fácil despertar o inconsciente. Não é nada fácil descobrir, compreender, aceitar e ressignificar as verdades sobre si mesmo. É duro, é difícil, mas convenhamos, qual é o sentido de uma vida sem vida? Então, corpo, vamos lá, se obrigue: escuta terapêutica, água, pensamento positivo e atividades físicas. Vem comigo corpo, apoie-se nos meus ombros, vou colocar uma valsa e bailemos, porque um dia nunca dorme e o inconsciente também não.

Texto de Clara Dawn, escritora, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora e palestrante. Especialista em prevenção e pósvenção ao suicídio na adolescência.

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Clara Dawn
Escritora, psicanalista, especialista em "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência" e autora de 7 livros publicados.