na%2Bbolha - No regalo da tolice com o mercador do nadaRecebi um e-mail de um leitor muito insatisfeito com os meus textos: “Suas crônicas colocam à mostra os grandes conflitos do ser humano, explorando as regiões mais profundas e inexprimíveis da alma, aliando a razão e a sensibilidade por meio de uma linguagem poética. Mas elas não oferecem e também não permitem qualquer tipo de solução. Em vez de fechar o caminho do leitor, com uma moral, uma lição, uma teoria, uma tese, seu texto rasga, amplia, mas jamais liberta. Seus temas são breves e de aparência simples, conduzindo-nos a sentimentos paradoxais que, ao fim, só nos resta suportá-los sozinhos, pois a autora nos abandona, ainda néscios, ainda ocos. Você, Clara Dawn, não diz nada com nada.
“Eu ri. É engraçado não dizer nada com nada e ao mesmo tempo dizer tudo isso que o leitor descreveu. É certo que tenho a impressão de que eu não escrevo mesmo coisa alguma. Deve ser porque eu sou feita de palavras incompletas – toda eu. Eu gosto da incompletude, pois esta faz, de minha verve, gente. E é de verve gente que fluem as razões pelas quais faço o texto acontecer.A incompletude, escreveu Manoel de Barros, é a maior riqueza do homem. Ah, a essência humana, no afã dessas linhas ambíguas, fazendo-me tecer veios na instabilidade semântica de Manoel de Barros, para escrever uma crônica, cujas visões oníricas revelam a realidade da vida de minha verve.
Eu queria cinco chances. Para viver cinco vidas, ter cinco profissões distintas, morar em cinco países diferentes… Eu queria ser um palhaço, queria ser astronauta e também professora. Queria ser antropóloga e conhecer a cultura de todos os povos, e com eles e por eles desbravar o mundo à procura de algo que faça com que a vida tenha um sentido real na Terra. Não dá para ser apenas um, quero ser muitas. Não vejo sentido em ser apenas vital. Nascer, reproduzir e morrer…Deve existir algo além. Algo que transcende as picuinhas passionais. Não quero ser apenas aquela que acorda às cinco da manhã, que almoça ao meio-dia e se deita às vinte e uma horas depois de assistir ao jornal.
Contudo, o que eu faço de melhor é pensar que escrevo de dentro de uma bolha de sabão e vivo onde o vento descansa as pestanas e se veste de coisa alguma depois de banhar-se em águas plácidas… Ali que eu descubro que é verdade que “a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso”. Mas para flutuar numa bolha é preciso ter a mente tranquila, a alma leve e o espírito elevado. Para isso então, só mesmo tendo cinco chances. Por ora é impossível, sou abastadaem imperfeição.
E lá vou eu em pensamento, somente, sentir-me plena enquanto componho uma melodia imperfeita na escala da verve. Dê-me, oh mercador do nada com nada, uma receita, uma universal panaceia. Um substrato ético que cure a incompletude do ser. Algo que Nicolas Flamel não descobriu em sua pedra filosofal. Um elixir da verve perfeita que não está na alquimia, nem nas medicinas, tradicional ou contemporânea, tampouco na indelével busca pela felicidade e a certeza.
Dê-me, oh céus!, o elixir da completude, e eu enfim morrerei para tantos. Mas, sobretudo morrerei para dentro. Porque metade de mim busca-me e a outra metade despede-se de mim. Porque parte do que sou é para ser feliz e outra parte, parte… Parte incompleta e é sempre incompleta que retorna…Porque eu quero ser tantos e nunca ser esse eu que se adapta a tudo e a todos. Esse eu inautêntico e dissimulado. Porque eu quero mais que efêmeros orgasmos na realização das tarefas cotidianas, mais que pequenas alegrias como brinde por cumprir deveres…
Eu quero ofado de Manoel de Barros, o seu fado era não entender quase tudo. Sobre o nada é que ele tinha profundidade. Porque “aquele que nunca morou em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, à poesia.” Porque eu dou sentido à vida, com coisas sem sentido algum, pois “é mais fácil fazer da tolice um regalo, do que da sensatez.”