Um ano depois da morte do meu filho, eu busco por aprendizados. Dizem que o sofrimento nos faz evoluir e embora eu esteja possuída por uma profunda misericórdia, penso que não evoluí de modo satisfatório, regredi: existiam coisas boas em mim que agora não consigo mais alcançar. Paciência  com as pessoas era uma delas. É que não sou capaz de ouvi-las ou enxergá-las e isso ocorre nos segundos que antecedem uma forte pressão intracraniana, e passo a distinguir o quadro como se tudo em volta estive debaixo de um espelho d’água. Será que tudo em minha volta está submerso e opaco ou será que sou eu que, ausente da realidade, permito-me ser tragada por esse remanso que de manhã vem, encharca a minha visão e ao longo do dia transforma-me num espírito Pacífico?
Contudo, esse mesmo oceano traciona-me às obrigações para com os outros, para com a vida na Terra, para com as coisas ditas vitais. Estou melancólica, eu sei, perdoe-me. E acredite, eu tenho sido forte e posso me vangloriar de atravessar os últimos 3 anos, desde a doença do filho ao luto, sem antidepressivos;  de levantar todos os dias e preparar o desjejum  para o amado e minha Pequena; de correr no Parque Areião e de estar mergulhada num projeto universal de prevenção ao uso de drogas; de ter a capacidade cognitiva de criar um novo romance e ainda pensar dialeticamente para o registro de minhas crônicas… 
Essa sou eu [seguindo em frente]  evoluindo, enfim. Hoje, enquanto pensava sobre o que escrever, a menina que um dia eu fui veio conversar comigo. Disse-me palavras maduras demais e, se eu não soubesse que ela sempre esteve à frente do seu tempo, isso até me surpreenderia. Sentou-se ao meu lado: estava descalça, cabelos longos e despenteados com aquele repartido insensato. Usava o seu vestido azul com estampa de bolinhas e trazia na mão direita um caco de telha. Depois de perguntar-me, sem direito de resposta, se eu sabia o que ela pensava de mim, caminhou um pouco adiante e desenhou, no chão, um círculo. Nele escreveu a palavra “terra” e seguiu desenhando, colados uns aos outros: um quadrado; dois quadrados e assim sucessivamente até desenhar outro círculo onde escreveu a palavra “céu”. Do ponto em que estava atirou-me o caco de telha e gritou: “jogue o seu caquinho no primeiro quadro e vem. O jeito mais nobre de alcançar o céu é passando por todos esses degraus”.
Eu ainda divagava na visualização dessa lembrança quando decidi avançar mais um degrau: esvaziar as gavetas. Num baú guardei coisas que todavia não quero esquecer. Depois me vi no espelho para buscar o que ganhei com o luto: pude notar duas rugas precoces; pele e cabelo com pouco viço; pressão alta e uma diabetes emocional… Para as rugas precoces: creme anti-idade; para os cabelos: hidratação semanal; para controlar a pressão e a diabetes: alimentação balanceada e correr todos os dias……Tudo isso é fácil. Difícil é aceitar o “nunca mais”… Difícil é encarar que, desde agora, tenho que seguir até o fim dos meus dias sem a terna figura do meu primogênito. Difícil agora será, enfim, dizer ‘adeus’. Sendo assim, digo  ‘até logo’.

(Publicada no jornal Diário da Manhã – DM – Revista – Goiânia – Goiás em 18 de agosto de 2014)