Aconselho ao leitor molhar a ponta do dedo na língua e avançar a página, pois o que segue não é um relato digno de ser lido. Trata-te de uma confabulação de dar nó nos nervos. É que não sou muito boa em assobiar para fora – coisa que faço para dentro – coisa que provoca risos – eu não importo – também acho graça. Mas, de uns tempos para cá, descobri que eu também posso cantar para dentro. Por Cristo, por que eu não pensei nisso antes?
Acontece que outro dia eu estava quieta. Quietinha, debruçada no parapeito da janela, olhando o vai-e-vem das gentes, quando uma voz uníssona arrebatou-me de meus delírios incógnitos –  deixe-me quieta, estou cantando. – Cantando? –, perguntou com estranheza. Eu não respondi. Ora, será que as pessoas não sabem que a gente pode cantar para dentro? Não jugo, eu também não sabia.
escaravelho rosa - Dance comigo até o fim do amor
Para dentro eu canto em muitas línguas e não desafino nunca. Não erro a letra, faço backing vocal, toco guitarra, sax e até violino eu sei tocar.  Para dentro eu grito e em frenesi sacolejo a cabeça grunhindo sons metálicos. Para dentro eu me lanço inteira no Jazz numa apresentação voluptuosa, como se Madeleine Peyroux eu fosse. Então, mergulho em cadência extraordinária e valso com o suporte microfônico: ‘dance with me to the end of love’ e depois traduzo da maneira que me apraz: dance comigo até as cortinas de nossos beijos se desgastarem/dance comigo outra vez e outra vez/ dance comigo mansamente e me dance por muito tempo/monte uma barraca de abrigo agora, embora toda linha esteja rasgada/dance comigo até o fim do amor…
Estou cantando ‘dance comigo até o fim do amor’ e Madeleine me diz que eu canto muito bem. Ah, Madeleine, eu queria mesmo era cantar para fora. Mas qual!? Não tenho talento para as grandezas. Um dom assim não é dado a qualquer um. A mim restou a injustiça da escrita: nada de aplausos, nada de gritos, nada de autógrafos e fotografias no aeroporto, nada de almoço e/ou jantares interrompidos para dar atenção aos fãs, nenhuma resposta imediata… Não posso ver de pronto a expressão do leitor, não posso ouvir o compasso de sua respiração entregando o desconforto ou o prazer… Não, Madeleine, eu não posso.
Neste momento eu penso em deixar de escrever para fora e dedicar-me a escrita intrínseca. Sim. E por que não!? Para dentro eu escreveria ‘Cem Anos de Solidão’; ‘O Apanhador no Campo de Centeio’, ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, ‘A Rua dos Cataventos’… Na verdade, eu queria mesmo era ter sido o escritor Roger Martin du Gard porque eu, para dentro e também para fora, como ele, não sou como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor. Sou como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e abafado neste aperto supremo, morre entre os braços da flor que elegeu.
A partir de agora eu só vou escrever para dentro. Serei um negro escaravelho a sugar o néctar de sua própria ânsia e esperar de si – de si só, a clausura, a letra, o ritmo, o poema, a busca, a espera, a recíproca,  a alegria, a dor, a decepção e a surpresa. Vou escrever dançando com  a pena e cantarei as canções que eu mesma compuser, vou dançar – cantando – até depois que o amor chegar ao fim. Vou escrever  – palavrinhas dançantes – alucinadamente e o Nobel eu vou ganhar…Ah, eu vou.  Vou, para dentro, enfim partir e, pela vez primeira, vou sem medo de voo. Porque o voo para dentro não se finda nunca.
(Publicada no jornal Diário da Manhã – DMRevista – Goiânia – Goiás