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Adentrei a palhoça devagar, conduzida pelo agradável aroma de café que exalava daquele bule esmaltado que jazia sobre o borralho do fogão à lenha. O fogão fora a herança que minha avó recebeu de sua mãe. Lembro-me como se fosse hoje de ver a bisa encerando-o com uma pasta vermelha e depois lustrava freneticamente as paredes do fogão com uma flanela… Como era lindo aquele fogão de barro que funcionava à moda antiga!

O cheiro de querosene que fluía da cera se misturava com o perfume amadeirado que saía das toras de eucalipto e enquanto o fogo lhe queimava as fibras o ambiente era embalado pelo som eufórico do pino da panela de pressão… Eu ri, minha avó está moderna demais. O que foi feito do velho caldeirão de ferro da bisa?
Eu tinha seis anos quando a bisa se foi, mas, lembro-me do quanto ela era linda. Linda como lindas são as borboletas no frenesi do vento ao sacudir a roseira. Pequenina, mas tão ágil no fazer do dia-a-dia. Pequenina, mas tão forte ao dar à luz a dezesseis filhos. Tão pequenina minha bisavó. Tão grande era minha bisavó lavando roupa num jirau, esfregando-as com sabão de bola e sabugo de milho. Socando o arroz para cozinhar para peões e torrando os grãos de café entoando uma cantilena saudosa dos tempos de menina. “Tempos em que as coisas eram mais difíceis”. – Dizia ela.
Adentrar nessa imagem trouxe-me a lembrança do gosto das coisas que se renovam. Tomei um gole generoso de café numa caneca de bonito esmaltado azul. Depois me sentei naquele banco feito com as sobras da plantação de jatobá. Sentindo-me em casa comecei a revisitar o rancho onde toda a família costumava passar os natais quando a bisa ainda morava ali. E aos meus olhos infantes era majestoso. O rancho agora é uma herança inútil, cuja palhoça em ruínas pede para ser demolida. O fogão nem de longe lembra o encerado vermelho luzidio que deixava róseas as mãos da bisa.
Quando minha avó se aventura a vagar pelo rancho, coloca a panela de pressão sobre o borralho. Minha nossa, como minha avó é moderna. Na altura de seus oitenta anos possui um modelo novo de celular a cada semestre. Tem uma TV de plasma e até sabe usar o aparelho de DVD. Está antenada com os acontecimentos mundiais, sabe dissertar sobre política, religião e até filosofia. Viaja a cada trimestre em excursões da melhor idade e traz a câmera digital repleta de imagens que vão imediatamente para o seu Facebook.
Outro dia ela disse:
– Da próxima vez que formos ao rancho, vamos levar um fogão industrial, daqueles grandes para cozinhar para muita gente… Ah, e também o forno elétrico, porque aquele de barro deixa o bolo com cheiro de fumaça. Anote também, para não esquecer, o filtro de papel para coar o café, aquele de pano é nojento e nem pense em deixar a batedeira e o liquidificador…
Ai, que saudade da bisa!

(Publicado em 16/05/2011 e republicada em 25 de junho de 2012 e 07 de outubro de 2013 no Jornal Diário da Manhã – DM-Revista – Goiânia Goiás)

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