28211311 - Baço
Dedicado a Moema de Castro Olival
Trocaram a velha ponte de madeira por uma de concreto e ferro – É certo –  mas é tão errado. A velha ponte tinha um quê furtivo romântico do século XIX e sob ela o rio Corumbá escorregava voluptuoso e serpenteava sibilante como um trovão longínquo. Descia maneiro e às vezes saltitava tal qual coração de poeta adolescido de encantamento por todas às coisas…
             
Pueril é o coração de um poeta. Sempre a mercê do romantismo: “Que aurora, que sol, que vida/Que noites de melodia /Naquela doce alegria/Naquele ingênuo folgar!/O céu bordado d’estrelas/A terra de aromas cheia/As ondas beijando a areia/E a lua beijando o mar!”
             
Ei-la: a velha ponte de madeira tão bêbada e tosca a carpintejar as emoções do poeta. Sob ela o rio… O rio Corumbá que a cada instante era outro, era belo demais! Uma beleza densa e alterosa que  conduz o poeta a imaginar traços de si mesmo descritos pelo Criador e descobertos por outrem na agulheta do rio. Traços, estes, costurados com uma linha malograda pela  escassez e/ou excesso de chuvas. Não importa, o coração do poeta é vazante  e ‘enchentíco’ ao mesmo tempo. 

Há uma corrente com um enorme cadeado lacrando o início e o fim da velha ponte – coisa triste! – Pensei olhando para o lacre enferrujado e se a palavra ‘tristeza’ não fosse linda como a  Opera Chillout –  Adagio de John Sebastian  Bach, eu poderia até, num ataque de fúria, cerrar aquelas correntes. Estou ouvindo a ópera nesse instante e minha alma se enche de uma tristeza poética indelével – uma tristeza tão pura e insuportavelmente bela que traz lágrimas aos meus olhos. Embora eu seja rio, sinto-me a ponte. Embora eu passe a cada segundo sendo modificada pelo tempo e modificando também as pedras por onde passo… hoje sou ponte.

Um tormento maravilhoso invade a minha alma enquanto olho para as correntes que trancam a velha ponte. Com sofreguidão,  regida por Bach, procuro o elo mais fraco… Não importa quão forte seja uma corrente: o elo mais fraco é sua referência. Meus dedos tateiam o elo fraco – eu olho para velha ponte – o vento a sacode – a ponte trepida e perde mais um pedaço de madeira…

As lágrimas agora operam com Bach o limite da minha aflição e sinto-me como se um soco tivesse levado no baço: vou quebrar essa corrente para dar passagem ao poema – vou beijar os versos quando chegar no meio da ponte – vou respirar a verve enquanto a brisa secar minhas lágrimas… Vou congelar o rio ao flertar com ele e sobre ele me transformarei em um cisne de Tchaikovsky… Vou, vou, voo…

Mas, que tola eu sou… a velha ponte só existe nos versos de outrora. Ah! Por Cristo, é tarde demais. Sob a nova ponte de concreto e ferro o rio Corumbá não significa coisa alguma, é aquele que aflui do sopé da Serra dos Pirineus. – Aquele que ‘veleja’ enjoado, vomitando pelas margens coisas que o homem não quis –  é apenas aquele rio cor de caldo cana que adormece nas águas do Paranaíba.

Tive que em/baçar a ponte nova a fim de coagular versos,  pois se o sangue não  satura os dedos do poeta – o rio é apenas um rio e a ponte seja feita do que for é noite sem lua, é manhã sem sol, é verso sem musa, é vou sem voo.