Eis a porta - A felicidade está agachada atrás da porta
Permaneceu estático, sem sorver a sopa que transbordava da colher, sem vontade de erguer a vista, sem querer quebrar o encanto do rancor que escorria lodoso em forma de suor por aquele rosto carcomido pelo cansaço. O ar da casa estava rarefeito devido à essência de lavanda que existia em tudo se movia ali.  Tinha pensado que seu rancor pudesse ser por causa disso, mas qual?, a alfazema sempre, sempre esteve entre eles, e houve um tempo em que ele gostara muito.

Mas, naquele dia, ele estava com a sensação fascinante de que habitava um corpo que não era o seu e sim o de outro, que permanecia sentado e frouxo enquanto tudo o que devia fazer para impor  respeito era esbravejar palavras de efeito moral nada indulgentes àquela que ele deixara de admirar havia anos. Casamento. Como alguém poderia crer que isso daria certo? Duas pessoas distintas que não se conhecem, não possuem parentela, nasceram e cresceram em regiões diferentes, se formaram em culturas e crenças diferentes, até os sexos são diferentes…  Poderiam, oh, céus!, essas duas pessoas conviver ‘para todo o sempre’ na mesma casa, dormindo na mesma cama, compartilhando o mesmo banheiro… Para-todo-o-sempre-amém!?

Na verdade, ele sentia-se lanhado pelos primeiros arranhões da morte e acabara de perceber que já estava na hora de se despedir da pedrinha que ele chutara, a vida inteira,  até chegar à porta de casa. Anos e anos chutando aquela pedra – pra lá e pra cá – era uma distração oxidante e enfadonha da rotina, mas que o iludira quanto ao acúmulo de vincos na face.  Não é verdade que  ele está à beira da morte, mas  se sentia assim. Costumava irritar-se com qualquer coisa que não estivesse acordada com seus pensamentos e ações; costumava arrastar os chinelos sob os pés enquanto ia e vinha do quarto para a sala; costumava ficar em silencio absoluto enquanto ouvia “Aída” de Verdi operando um fundo musical drástico ao marasmo de sua existência – depois chorava como se comovido estivesse – mas a comoção limitava-se à ópera. À ópera apenas.

Desde a infância ouvira o seu pai dizer que a felicidade estava agachada atrás da porta e que se ele fizesse diatribes, ela, a felicidade, jamais saltaria à sua frente. Por Cristo! É bem verdade que o seu pai sabia que ele, porque isso era latente, seria um orador impulsivo, desordeiro, febril  e discursaria, sem pestanejar – clausuras pétreas e – que diabos!, por que não? Senão a felicidade jamais saltaria à sua frente no instante em que ele abrisse a porta.

Abriu, na verdade, muitas portas e não foram poucas as vezes em que ele se viu abrindo e fechando a porta rapidamente com o intuito de ver a felicidade saltando à sua frente. Disso ele achava graça, mas nunca respondia a quem fosse perguntar o motivo do riso. Ah, isso ele não respondia mesmo, mas dizia a si mesmo que devia elaborar discursos mais amenos. Que devia ser mais tolerante, menos intransigente… mais isso, menos aquilo…

Naquele instante em que a sopa jazia morna sobre a mesa; em que a sua senhora lustrava um pouco mais, com unguento de lavanda, o piso de madeira;  naquele momento em que toda a sua vida discursava inutilmente em seus ouvidos, ele pensou que já estava na hora de esquecer o saber utópico da felicidade e abrir de uma vez por todas, a porta derradeira. Sem titubear, sem esperar coisa alguma, sem medo do vazio, sem lamentar o que foi dito, sem buscar compensações, porque não há mais compensações a serem buscadas… sem mais nem menos… Abriria enfim a porta para defrontar não com a felicidade, mas com a silenciosa e confortável morte… Todavia, ele não precisou se levantar da mesa para abrir  porta alguma. A principal delas, a da “serventia da casa”,  é que se abriu e por detrás dela, aos pulos,  saltou para os seus braços a  neta caçula.  A última das muitas felicidades que se revelaram porta adentro ao longo de sua vida e ele nem se deu conta disso, mas para-todo-o-sempre-amém, ele imaginou que suas diatribes moldaram a  felicidade numa felicidade muda e ápode. 

(Publicado no jornal Diário da Manhã – DM Revista – Goiânia – Goiás em 29/04/2013)