Veronese Venus%2Bno%2Bespelho 3.3 - A Carta-BrancaAté parece que a vida inteira sob a garoa adormeceu criança e quando acordou já era feita. Recordo ainda… E parece que não me importo mais com os brinquedos da infância: o jogo de “Bete”, aquele com bola de tênis e inspirado no “cricket” britânico.

Foi nessa noite feita de uma lenta morte que o vento da desesperança assoprou com virulência a rua de chão vermelho e levou a bola, levou os tacos, levou os moleques… Depois levou a rua. Mas, ai… que se acordei com dor nos sisos, não se engane, jaz em mim ainda a criança que jogava Bete.

Tento esquecer as recordações – de nada servem. Não quero ser lembrada como se fosse um momento engessado num porta-retrato. Lembrar é como evocar espectros doutro mundo. Afundar no cárcere do passado para livrar-se do presente. É descolar de um eu atual na vivência de uma história que nem ao menos sei ao certo se é a minha. A foto diz, vozes proclamam… Não importa.

Olho para a face refletida no espelho. Há quantos anos eu me olho neste maldito espelho e até hoje ele não se lembra de mim. Um espelho não tem memória – nele serei sempre outra. Outra, após outra. E nunca mais serei, na face do espelho, a menina ‘carta-branca’ do ‘Bet Ball’. Porque o espelho é um rio que vai e o rio é triste – pois na sua tristeza embala a angústia de não poder parar.

Um espelho dá tudo de si, sem nunca despir-se de coisa alguma. Por Cristo, por que eu tenho que lembrar-me da menina carta-branca, se o ignorante espelho não se lembra? Eu queria, na verdade, era brincar de ser ‘gente grande’ e nessa brincadeira, sim, adoraria ser uma branca carta. Porque a carta-branca de um jogo é aquela que pensa que joga, mas não joga. Pensa que está nas regras, mas não está. Acredita que é pódio, quando na verdade ainda é ‘largada’. Faz proezas impossíveis pelo simples fato de ignorar as impossibilidades. Nos meus tempos de jogos em grupo era assim.

Mas a carta-branca, na verdade, vem da expressão francesa “carte blanche” e é de origem militar. Designa a autorização de plenos poderes a alguém para executar em nome alheio o que bem quiser. Era uma folha branca entregue ao inimigo e assinada pelo comandante dos vencidos para que o vencedor estipulasse os termos da rendição incondicional. Quando a rendição era negociada, a folha vinha igualmente assinada, mas não em branco e sim com as condições que o vencido fixava para baixar as armas.

Ao espelho, então, foi delegado La Carte Blanche para fazer de nossas caras o que bem quiser. Quanto a mim, ainda não sei qual é a expressão que me flerta quando miro minha face no espelho, desconheço no reflexo esse olho que me enxerga, que me escruta com a passiva ira dos tempos, insolente na sombra dos rastros de um vinco. Com essa mão que explora traços invisíveis na deslembrança de um rosto infante. Chispas de fuligem me alcançam a mente? Ou são os meus cabelos que agora nascem prateados? Perdi a superfície vã das coisas simples na esteira da infância, ou em puberdade senil se encontra o olho branco desse espelho?


Imagem: Venus no espelho de Veronese