sábado, 10 de junho de 2017

O meu nome é mais infeliz do que eu

Uma viúva não é uma mulher solteira. Uma viúva não é divorciada. Uma viúva é mulher casada com um marido morto. Há, por estas bandas, uma igrejinha tão pequeninha  (redundância, eu sei, não me importo), pois mirando-a através da minha janela sinto paz tamanha que vontade eu tenho de ficar miúda só para parecer-me com ela. Às vezes, mas só às vezes, quando fico em silêncio, às seis da tarde, eu ouço o sino tocar melancólico... Ele soa a sua sina. Soa frígido sino! Soa a sua sina. Sua sina. Sua, sua...

É verdade que o meu coração permanece como se tivesse engolido um guarda-chuva aberto e eu sinto-me tão solitária quanto um pardal na chuva por ter que dizer adeus tão precocemente aos dois homens (marido e filho) que mais amei na Terra. Mas esta realidade é o  capítulo atual da minha vida e é um clímax... Toda história depois do clímax toca uma música suave. E depois há uma estrada longa fluída por essa canção energicamente triste... E a estrada termina numa encruzilhada e a música para e ainda não é o fim, basta decidir qual caminho seguir e aí uma nova música começa a tocar. Outras paisagens se formam e já não se é a mesma pessoa de antes e ainda que se lembre de quem era, este "era" não pode mais sentir aquilo que tanto lhe fez sofrer.

Recordo-me de sentir o perfume fabuloso das rosas que se abriram só porque eu tive boa vontade em regar suas sementes. Só porque eu não as deixei sozinhas diante dos escaravelhos e também das chuvas de granizo... Só porque eu fui teimosa o bastante para aguentar seus espinhos e aceitar que rosas, por estarem vivas, podem num instante, também morrer. Somente possuímos o que conseguimos nos desapegar. Pois somos escravos daquilo que não deixamos ir. Tenho comigo que deixar ir é o único modo de amar verdadeiramente. 

Ser viúva aos quarenta anos e perder um filho numa morte trágica foi a minha sina. E por que não comigo? Deixo-os ir, todos os dias, desde então.

Mas foi para o vosso desencanto que eu escrevi esta crônica. Para que saibam que apesar de eu ser aquela a quem chamam de triste sem o ser; o meu nome é mais infeliz do que eu. Sou – e é verdade – aquela que ás vezes chora com infindas razões para tal, mas eu não quero ser lembrada como se fosse uma fortaleza rodeada por placas de advertência. Porque as minhas crenças, o meu coração, o meu estado de espírito e a minha essência, estão em constante promiscuidade com a minha verve e qualquer pessoa que deseja conectar-se comigo, precisa dialogar primeiro com o que eu escrevo. Sou uma romancista. 

Minha prosa fictícia é a minha existência feliz.  Então, olhem além do que está à mostra e não façam da minha existência feliz  uma biblioteca vazia de leitores, com Charles Bukowski arranhando a escrivaninha. Por isso arquivem o primeiro parágrafo desta crônica, pois é o soar de um novo capitulo para um novo livro. Arquivem o primeiro parágrafo e todo o resto, podem apagar.




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