segunda-feira, 6 de abril de 2015

Pé de Lua

. Este ponto no início do texto não foi um erro de digitação. É que hoje eu fiquei com vontade  dar um basta no começo. E se a poesia e a música não me salvarem, agora mesmo, juro que vou engolir o ponto e pararei de bastar aos poucos para bastar de uma vez por todas.  É que, noite passada, flertei com a lua que, lasciva, se oferecia através das grades da minha janela, e por isso senti compulsão em “bastar-me”. Compreendi por que a indiazinha se atirou no rio para ser possuída pelo reflexo da lua. Eu desejei que a minha janela não tivesse grades para ir, eu também, ao encontro da lua. Mas oh, céus!, ai, se me atiro  do nono andar sem asas para suster-me... Pafftt!!...
Que coisa! Seria mais fácil se a lua, ao invés de assanhar–se no céu vestida de uma luz que não é sua, fosse uma árvore. Sim, é melhor cair duma árvore do que do nono andar.  E se for de um pé de lua, então?, que tombo lunático seria. Depois era só levantar, sacudir a poeira cósmica e saltar outra vez nos galhos para  colher  luas rechonchudas e cheirosas, dar-lhes boas mordidas e fartar-se de luas tantas até de que de luas estivesse pleno.
E como se plenitude fosse algo tangível, eu teria um luazal só para mim: um lote de Minguantes, outro de Cheias, outro de Novas, outro de Crescentes: luas e mais luas à revelia para vender, doar e... Com essas imagens, ocorreu-me a lembrança de que lua não tem luz própria. Como seria feio um luazal, então. Cinza e frio. Sim, porque só bobo pra imaginar que a lua fica regateira daquele jeito por sua conta e risco... Só bobo... Que boba eu sou.
Pensando nisso, senti remorsos em desejar que a lua fosse minha. Egoísmo meu ter essas coisinhas luminosas despencando aqui e ali no fundo do meu quintal.  Ledo sonho pensar que era comigo que lua flertava às três da manhã. A lua  só deseja aquele que lhe passeia com o seu indiferente olhar. O mesmo olhar que ele oferece a qualquer coisa que gira em torno de si. Muito triste amar um ser que braços tem, mas nunca abraça com ternura dirigida.  Pobre lua, amante de uma criatura que  se doa por completo a tudo, nunca a quem. 
Com essa história enamorei-me um pouco mais com a lua e não foi por piedade. Piedade, meu Deus, tenho de mim, pois a partir deste instante, descubro que não se pode mudar as coisas de lugar. Eu não posso, por exemplo, colocar aquele ponto final no começo como se tivesse o direito de terminar o que nem comecei.  Eu não posso, outro exemplo, plantar luas para que eu tenha um luazal. Digamos que eu pudesse: ah, se eu tivesse terminado este texto antes de começá-lo, não teria tido tempo para compadecer-me da lua e ainda estaria atrás das minhas grades, imaginando quão bom seria alcançar a lua. Mas tão logo a ambição se apoderou de meus ossos, músculos, nervos, sangue e pele... achei que poderia possuir a lua.
Que tola eu sou. A lua pertence ao sol e, mesmo que o sol não deseje a lua, nem mesmo nua, a lua sempre dele será.  Quantas vezes a pobre deve ter se atirado no espelho das águas imaginando que pudesse, de seu amado, receber favores ardentes? Por Cristo, que hoje, nem mesmo a poesia, tampouco Chopin livrar-me-iam  do ponto que não consigo alinhavar neste texto que começou na hora três do dia e já passa das onze e nenhum final feliz encontro para a lua.
É que tenho tantas dúvidas aqui comigo: se mostro a verdade pra ela ou deixo-a feliz em sua ignorância de saber-se amada por tabela. Se lhe revelo que além do sol há outros reis ou digo-lhe as mentiras que ela quer ouvir... Na dúvida – ponto.

( Pé de lua - Crônica de Clara Dawn - Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 06 de abril de 2015)
0

0 comentários:

Postar um comentário

Grata pelo seu comentário. Volte sempre.