segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Ser feliz é muito difícil

Brigitte Bardot

Num instante de euforia em mim, deleite-se tal qual um lobo numa carcaça. Sabendo de antemão que o riso é semelhante à morte: um minuto é o bastante para lhe pôr em cólicas. A tristeza é mais atraente do que a alegria. A alegria é trabalhosa demais. A felicidade então, ô!

Brigitte Bardot, a incomparável BB, em ‘E Deus Criou a Mulher’, disse: “É muito difícil ser feliz” – quando sua personagem, Juliette, submersa pela tristeza, contemplava o ir e vir do mar. Ela se referia à adaptação ao paradigma da felicidade plena: lar, marido, filhos... E aos comportamentos éticos morais, sociais e religiosos. Juliette era infeliz por não enxergar a felicidade onde a “felicidade mora”.

Coisa tola é crer em felicidade plena. A felicidade, penso eu, é a coisa mais íntima da existência. A felicidade para Juliette era ser, extraordinariamente, alegre. Ora, desde quando uma mulher pode ser assim tão alegre, sem que isso lhe custe um amontoado de escárnios? Para constar, o filme foi ambientado em 1956, mas parece-me que foi ontem.

Comungo com Juliette na ideia de que ser feliz é muito difícil. Um casamento “feliz”, por exemplo, é uma fusão, onde [hipótese] duas pessoas  distintas, que não possuem parentela, nasceram e cresceram em regiões diferentes, se formaram em culturas e crenças diferentes e até os sexos são diferentes... poderiam, oh, céus!, homogeneizar toda íntima felicidade para-todo-o-sempre-amém!?

A felicidade de um pode ser um tormento para o outro. Não obstante de a alegria de um ser a tristeza do outro, como ocorre num jogo de futebol,  falo aqui de salada de rúcula e Tchá, Tchá, Tchá... A felicidade é tão íntima que posso encontrá-la nos instantes mais inusitados, ziguezagueando entre lágrimas quando estas revelam a sincera compaixão para com um outro qualquer.   

 Ser feliz requer muitos verbos: confiar, abnegar, concernir, perdoar, relevar, conceder, doar... e outros esforços necessários à boa vontade para com os relacionamentos interpessoais. É esse tipo de felicidade, imposta pela utopia social, que livra o ser do esforço do raciocínio próprio e da busca pessoal.  

 É mais fácil ser triste do que ser alegre. A tristeza se autojustifica sempre. Com ela se pode ficar em casa e coisa alguma fazer além de aquietar-se na covardia para com os deveres da alma. Conheço tanta gente que é feliz sendo triste. Porque é mais fácil lidar com as lágrimas do que com o riso.

Com as lágrimas se atrai a piedade; com o riso, o deboche. Com a tristeza vem a compaixão; com a felicidade a inveja... porque é tão cômodo chorar com os que choram, mas se alegrar com os que se alegram, isso lá é uma tarefa para a distante evolução do espírito.

Na minha íntima, muito íntima, felicidade deste instante em que me debruço sobre essas teclas quadradas, sinto o meu coração crescer dentro do peito ao arfar o oxigênio fluido do jardim. Pássaros vândalos fazem algazarras numa poça de lama e eu estou eufórica também... Vinho não, tequila; O Fantasma da Ópera, oh não, Lago dos Cisnes; escada rolante não, elevador: último andar, s'il vous plaît. Merci.  



 (Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 08 de setembro de 2014)
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