segunda-feira, 31 de março de 2014

Vou-me embora pra Muquém

É que há dores demais neste corpo aqui. Há tantas dores que delas eu vivo caçoando... Há dores tantas que eu decidi fazer um samba de antítese mais ou menos assim: 

Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar.../ Gargalha desse choque nas costas/ faça troça desse mal fisgado/ chuta esse autobreque/ o corpo não é quadrado.../ dor é pra rolar/ a dor é pra rolar.../canta nem que seja um trecho/ um refrão, um assobio inacabado/ Mas não se farte de agonia/ porque o pulso tá agoniado.../  Vai no salto e bem contente/ deixa ‘ssa dor pra lá/ mente nobre – espirito forte/ dor é pra se aguentar/ a dor é pra se aguentar...

Então eu fui cantar a minha letra usando a música do Martinho da Vila: “Canta, canta minha gente” e até gastei um bom tempo tamborilando os dedos no controle remoto da TV... Não deu pra ser um samba, acho que se parece mais com rap ou outra coisa qualquer que ninguém consegue dar ritmo musical. 

Devia ter escrito um poema desses tantos que rimam a dor com o amor, mas qual? Essa dor que a gente, deveras sente e, finge que mesmo com ela está contente...não é um andar nada solitário entre às gentes? Ora, e se creio aqui comigo, entre uma vertigem e outra, que um corpo febril inspira-me versos mil...hei de cantá-los em sonora voz, hei de escrevê-los com dedos de uma rima vil...

Oh, e agora que Sheakespeare dedilha as cordas dos meus tendões o samba é nulidade e a dor é transcendental.  E sigo fabulando-a com a doçura de palavras docinhas... Com quanto na verdade mais pura, quisera eu, ca[lão]r os meu aís com gritos. 

Já que gritar eu até posso, mas só para dentro o faço... Ouso patuscar, e sem remorso, versos de Bandeira:
Vou-me embora pra Muquém/ Lá sou amiga dos deuses/ Lá faço a reza que eu quero/ Pro  santo que escolherei/ Vou-me embora pra Muquém/ Nesta cidade eu vivo doente/ Lá a crença é autocura/ De tal modo consequente/ Que eu, Maria-vai-com-as-outras/ Sou curada gentilmente/ Até de doença que nunca tive./ Daí eu vou pagar promessa/ Subir, de joelhos, o Morro dos Cruzeiros/Tomar banho no Córrego das Lagrimas/ E se lá eu encontrar o fantasma de Antonio Antunes/ Que Nossa Senhora do Muquém/ Proteja-me com sua medalha./ E se ainda assim eu estiver  triste/ Com tamanha dor que não cabe no peito/ E quando antes de dormir/ de vazio, eu ficar cheia.../Vou lembrar-me: — Lá sou amiga dos Deuses —/ Lá eu faço a reza que eu quero/ Pro santo que escolherei/ Sim, vou embora pra Muquém.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 31 de março de 2014).

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