segunda-feira, 4 de março de 2013

Quando eu crescer...

Quando o fim se aproxima, a gente pensa no começo. Pensamos no começo que nos levou àquele fim. O começo é sempre inseguro e o fim é confortante – seja como for o fim –, no final das contas é o melhor que poderia acontecer. E tudo é perfeito como é.

Na verdade, eu estou pensando mesmo é no começo. No traçado da pergunta “o que você será quando crescer?”. Eu não entendia muito bem por que os adultos faziam aquela pergunta retórica – tão retórica para mim  que eu respondia depressa: - “grande, uai”. É engraçado como desde pequeno a gente quer ser grande... Ser grande é coisa espetacular.

Mas há sempre aqueles adultos que insistem: “Você não quer ser médica? Ser arquiteta, ser alguma pessoa importante?”... Eu não sabia responder porque, para mim, a pessoa mais importante do mundo seria aquela que fosse grande e, para ser grande, não se pode ser pequeno em coisa alguma, por menor que seja a coisa.

Partindo desse princípio, eu passei a imaginar que era grande em tudo que me propunha a fazer. Teve uma vez que eu me tornei a rainha dos bambolês. Bambolês, sim, pois eu serpenteava o meu corpo raquítico em pelo menos cinco bambolês e não havia pessoa alguma na vizinhança ou na escola capaz equiparar-se a mim. Tantos bambolês! Para quê? Fiquei entediada e durante o campeonato de interclasses da Terceira Série eu simplesmente me recusei a representar a turma.  Porque era preciso ter muita coragem para dizer “não”. Ora, eu não queria a grandeza de um campeonato, eu queria ser grande no fundo do meu quintal.

Depois eu fui fazer teatro amador. Comecei no papel do Anjo Gabriel, que anunciava a Maria que ela daria à luz ao Filho de Deus... Achei aquela história de anjinho sem asa muito pobre e fui confeccionar as próprias asas, e até Deus duvidou que eu faria asas tão majestosas! E pensar que só precisei de uma caixa de papelão e de canudinhos de folhas de papel  – envergonho-me da façanha. As asas ficaram maiores do que eu, então eu mesma (sem querer) sugeri outra pessoa para o papel do anjo.

Ser atriz me entediou. Eu achava que o teatro possuía uma linguagem tacanha demais, então comecei a escrever os próprios roteiros: eu escrevia, dirigia, atuava, criava figurinos e cenários, buscava patrocínio – tinha uma coleção inteira de “nãos”, e daí eu chorava –, nesse último item a minha atuação era magistral. Ufa, aquilo durou alguns anos – um teatro itinerante apocalíptico de dar nos nervos. Mas, quando eu caminhava pelo palco arrastando aquela foice (sim, eu era a Morte), eu me sentia grande. Uma Morte grandiosa.

Mas aquela “matação” me cansou. Eu busquei a serenidade. Comecei a fazer croquis de vestidos e, para o espanto de muitos, conquistei uma clientela. Minha irmã até se arriscou a costurá-los. Isso nos tempos do Crepe Georgette sob Voiles esvoaçantes. Não durou muito para que a situação me entediasse ao ponto de eu jogar todos os croquis numa vala e nunca mais desenhar coisa alguma... Toda essa fúria teve uma razão - na mesma época, uma de minhas melhores amigas entrou para a Universidade Federal para estudar Matemática. Matemática? Isso sim, era ser grande! Enquanto a minha amiga estudava o “conjunto de Mandelbrot”, eu passava as minha tardes desenhando vestidinhos!? Aquilo foi inconcebível para mim.

Parei com os desenhos e me matriculei num curso de Administração de Empresas. Tirei  zero (escrito com letras garrafais) na minha primeira prova de “Balanço Patrimonial”... Ai, ai! Que saudade dos croquis!

Depois, fiz Enfermagem, e na primeira semana de estágio quase tive uma síncope ao levar um defunto para o necrotério. Nunca mais voltei ao curso. Daí, fui estudar Pedagogia, e teve aquela vez em que eu quis ser corretora de imóveis – fiquei apenas duas semanas no curso, pois tinha pensado que para vender uma obra construída em art déco eu não precisaria estudar a bendita Matemática. Tinha.  Pobre de mim. Voltei à Pedagogia.

De todas essas coisas, sinto  saudade, mesmo, é  de um tempo não mencionado ainda. Um tempo em que eu fui uma estrela do Show Music. Minha nossa, como eu era grande! Pessoas vinham de longe para me ouvir cantar e na casa dos meus pais não se falava em outra coisa. Eu era ovacionada e não faltavam aqueles que queriam me carregar nos braços... Ah, eu era o máximo! Agora, essas mesmas pessoas não lembram mais que um dia eu, na grandeza de meus seis anos,  cantava de modo teatral: “Você não soube me amar”, da Blitz.

Nem bambolês, nem teatro, nem administração de empresas, tampouco enfermagem e negócios imobiliários: hoje sou uma psicopedagoga que jamais pisou numa sala de aula... Acho que ainda não sei o que vou ser quando eu crescer. Mas de uma coisa eu tenho certeza, se eu crescer, certamente serei grande.
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