segunda-feira, 5 de novembro de 2012

E o paletó de lata é amarelo


Tenho pensado naquela mangueira que fica na esquina da casa amarela. Ocorreu-me a ideia de que tal árvore existe ali desde sempre... Não me lembro de vê-la crescer ao ponto de tornar-se farta na produção de mangas. Não me lembro de ouvir a algazarra dos pássaros devorando seus frutos... Por Cristo! Por que será que eu não me lembro de ver crianças atirando pedras nos frutos amarelos e, contudo, derrubando mais os verdes?

Há um carro estacionado debaixo da mangueira desde a semana passada. Ouso julgar que, no instante em que ali parou, não saiu jamais. É possível ouvir um barulho seco quando uma manga dilacerada por pássaros e pedras cai no capô – pahh!!, o barulho faz esfriar o coração – lataria amassada.

Foi num repente que a distinta mangueira surgiu nos meus pensamentos, durante a tecedura dessas linhas, e por interesse mútuo a gente se perturba. Não faço ideia do que mais incomoda a árvore. Talvez o fato de morar do lado de fora da propriedade; talvez o triste fato de não ter sido plantada e sim ser filha de uma semente lançada por cima do muro; talvez seja a baderna dos pássaros; talvez a pobre mangueira lamente mesmo as inúmeras pedradas... Ou será que ela, agora, perturba minha consciência pelo fato de que, debaixo de si, jaz um carro, cuja lataria amassada é o prenúncio de seu fim?

Faço menos ideia ainda do que mais me incomoda nesse quadro que meus dedos decidiram pintar na tela virtual. Um quadro curioso que se transforma em uma janela aberta na direção da casa amarela. A casa amarela é de esquina e há, na calçada, uma mangueira carregada de frutos gordos. Pintei um carro jacente em baixo da mangueira e desenhei mangas caindo sobre o capô... Depois eu ri da perspectiva de serem jacas, isso porque melancias são rasteiras. Senão... Pobre carro!

O quadro inteiro me incomoda. O que farei eu com essa mangueira chorando lágrimas obesas como se chuva ácida fosse destruir o carro? Mas, por que o carro está ali há tanto tempo? É possível ver o lixo lavado pela enxurrada preso nas rodas, um dos pneus traseiros está furado, o para-brisa está repleto de folhas da mangueira e de peles secas de insetos mortos... O carro também não passa de um cadáver. Um ‘paletó’, não de madeira, mas de lata– e a mangueira a cuspir-lhe, com deboche - mangas carcomidas que bracejam asco nesse quadro vil.

O desenho é reles. Eu não tenho saída. Não sei o que fazer com o quadro. Uma moldura cara talvez lhe confira valor ou talvez tire... Isso depende muito do que se deseja enxergar num quadro como esse. Por que me perturba a mangueira? Por que pintei de amarelo a casa? A cor amarela, segundo Oscar Wilde, é tão berrante que apenas um surdo seria capaz de usá-la. Ah, Wilde, a casa que criei é amarela, os frutos da mangueira são amarelos e, pronto, o carro (acabei de decidir isso) também é amarelo. O quadro aberto na minha janela está banhado de amarelo...

Surda não, Wilde, mas se eu continuar, num nascer de sol qualquer, abrindo essa janela, hei de ficar cega com a luz dessa tinta. Porque metade do eu que escrevo é o que vejo e a outra metade é o que eu enxergo.
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