segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Pingo eu


O único sinal de vida fluía gota-a-gota do soluço da torneira. As estrelas estavam tão quietas, o céu estava com o aspecto de um mapa sideral. As vozes de insetos noturnos tinham sido desligadas, o ladrar dos cães, o frenesi dos gatos no telhado, a coruja com o seu piar sombrio e o voo dissoluto do morcego – silenciados – pelo gotejar da torneira.

Gota-a-gota, gota-a-gota, gota-a-gota... e o corpo serpenteia na cama, e a noite é longa vida. Pinga torneira! Pinga, pinga, porque pingo também. Pingo eu de insoniosa agonia no afã desse maldito gotejar. Oh, céus, até quando?

Tanta grassa. Tanta grassa a invadir a casa gota-a-gota, gota-a-gota... Vou abrir a janela e me enforcar com a cortina – eu juro –, mas, que sorte a minha - há um barulho na escada – corro para olhar e – que pena: é apenas a lua imóvel a reluzir nos metais da cozinha... ‘Apenas a lua imóvel a reluzir nos metais da cozinha’ – eu poderia tecer versos com essas palavras se a torneira também não estivesse na cozinha.

Gota-a-gota, gota-a-gota... Um lamento nada imperceptível de alguém incapaz de se conter – língua de trapo – ignóbil – devia se chamar grosseira e não torneira... Uma ladainha metódica – fundo musical da história de uma pessoa que acabara de ser vencida numa luta - a boca da plateia se move com a sofreguidão de gritos, mas não há som; o corpo esparramado no chão e o único barulho que o perdedor escuta é das gotas de suor caindo uma-após-a-outra... Uma-após-a-outra na maciez da lona.

Oh!, venham todos. Há uma grande festa aqui esta noite. Tragam as crianças com seus trombones, e as que estão gripadas para assoarem com estrondo enquanto sobem e descem as escadas.

Que venha meia dúzia de bispos com suas campainhas – que venha a igreja com o sino da hora dezoito. Que se acheguem os carros de propaganda entoando musiquinhas de querela – Venham, venham todos.

Bem-vindas as torcidas de futebol com suas buzinas e palavrões, bem-vindos soldados cabeças de papel, Gulliver com todos os seus yahoos, o Flautista de Hamelin e as pobres ‘putas tristes’ de Gabriel Garcia, sim, venham. Venham!

Onde estão os gansos, as maritacas e os porcos? Tragam todos – todos são bem-vindos. Tragam quantas doidivanas encontrarem pelo caminho... Venham, venham! Tragam também filósofos de botequim e cantores sertanejos contemporâneos. Não esqueçam os livros de escatologia, ciência quântica e geometria espacial, tragam todos eles para serem lidos em voz alta.

Tragam, por Cristo, a bomba de Hiroshima com o seu ‘buuuum’ espetacular, a explosão do Big Bang... tragam o apocalipse... Qualquer coisa. Sim, qualquer coisa que abafe o insuportável rumor dessa torneira.
(Publicada no Jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 01 de outubro de 2012).
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