segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Pluto, pague todos os seus votos...

Pluto Cracia começou a repetir a frase “só o povo é soberano”, de Jean-Jacques Rousseau, depois que recebeu um transplante de coração. O finado tinha sido um político, que era a reencarnação de Auguste Comte, o homem que quis pôr ordem no mundo. Pelo menos era isso que o ex-vivente dizia em suas alocuções.

Sempre que me encontro com Pluto, fico surpresa com suas histórias. Não posso acreditar que meu bom amigo Pluto agora deu pra politicar. Logo ele, que não suportava política, recusando-se sempre a falar no assunto. Penso que ele enlouqueceu. Onde já se viu uma coisa dessas? "Para ser político, Pluto, é preciso ter vocação", falavam-lhe seus amigos.

Mas, de repente, Pluto Cracia se viu filosofando a respeito de democracia em discursos sobre as ideias do Sociólogo Florestan Fernandes, em emprestar ao povo uma educação pré e extraescolar através do convívio social, ético e espiritual. Sentia-se embriagado pelo background cultural de seu país e o consenso social de sua comunidade. Viu que todos eram tomados de uma vontade mútua de transformação - "o povo quer mudança, não aguentam mais tantas contradições políticas". Pensava alto e às vezes gritava seu pensamento a quem o quisesse ouvir.

Nem ele mesmo sabia explicar como que, de uma hora para outra, começara a discorrer sobre Sócrates e sua busca pela verdade, a luta pela vida de Herbert Spencer e as desigualdades sociais nos conceitos de Pierre Bourdieu.

Chegou a comprar vários livros de Rousseau, René Descartes, Emile Durkheim e até leu O Príncipe, de Maquiavel (mas só um pouquinho), e ainda passeou pela revolução ideológica de Karl Marx. Contudo, fixou seus ideais na paz de Gandhi, e seu discurso na evolução do ser através do amor, por Theodor Adorno.

Sua mente então passou a ser conduzida pelos conceitos de Benjamim Constant, fruto dos ideais Comtistas – Ordem e Progresso –, fixando assim os seus caminhos pela fé cristã e no máximo entendimento de que só há uma maneira de existir progresso: havendo ordem.

Assim, Pluto entregou sua vontade à vontade de Deus, mas a sua língua, esta parecia afiada pelo Diabo. Pois Cracia jamais seria um político qualquer, quis e foi diferente. Em sua jornada eleitoral, não se corrompeu. Em seu discurso, nada de promessas – “não hei de pagar votos”. Mostrou-se amigo das pessoas, chorou com elas e por elas. Meses e meses, no sol, no sereno, com fome e sede. Partia com seu séquito em busca do culturalismo-ético-eleitoral e denunciando revoltosamente a compra de votos. Com isso, tiraria a massa do cativeiro da plutocracia.

Pluto estava confiante em sua vitória, pois recebia do povo abraços e beijos. Parentes e amigos próximos eram só motivação a continuar fazendo uma política limpa. E o seu coração (o coração de Comte) batia forte e comovido. Sua alma estava lavada, sua mente tranquila e serena. "É isso que o povo quer. O povo está consciente de que não deve vender o seu voto. É compromisso social!", dizia a si mesmo.

Foi nas urnas que Pluto Cracia descobriu o sentido da alienação cultural. Em todos os colégios eleitorais, havia centenas de eleitores em promoção e/ou leiloando seu voto. Cracia descobriu na angustiante contagem dos votos que o eleitor é como criança, o político a põe no colo e pensa que a conquistou, mas quando vê... foi mijado.

Como foi mesmo que disse Rousseau? Ah, sim, me lembrei: "só o povo é soberano". E o povo respondeu soberanamente a Pluto: Crucifica Jesus e solte Barrarás.

São 155 anos desde a morte de Augusto Comte, que deixou a nós outros a sua vontade de colocar ordem no mundo. Ele fracassou. Muitos fracassaram e tantos outros fracassarão, porque ser homem é o máximo que se pode ser e a maioria dos homens ainda jaz no Darwinismo lento, vezes parado, vezes retrocedendo.
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