segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A gaveta


(Crônica dedicada ao cronista e poeta Luiz de Aquino)

Está aqui, em uma dessas gavetas, desde que eu me lembro. Mas é esse o problema, pois desde que eu me lembro, já faz tanto tempo, que já não me lembro. Aquela gaveta ali está emperrada, também, desde que eu me lembro. Será possível que, o que eu procuro está justamente na gaveta emperrada? É bem provável que sim. É. Eu tenho mesmo cara de quem gosta de gavetas emperradas... Eu gosto tanto de gaveta emperrada!
Há, ao meu alcance, uma gaveta deslizante – des-li-zannnnte... Mas, para que serve uma gaveta deslizante, daquelas que, uma vez abertas, se fecham sozinhas? Por Cristo, para que servem? Ora, para abarrotá-las de coisas inúteis e, por fim, emperrá-las. Ah, eu gosto tanto de gaveta emperrada!
Gaveta não é um nome bonito, tão pouco sonoro: gaveta. Gaveta. Não serve para nada. Não se pode fazer coisa alguma com essa palavra. Não dá para usá-la num poema; a menos que seja um poema de Augusto dos Anjos. Dos Anjos devia ter um monte de gavetas de sapateiro em sua mente. Será que gaveta de sapateiro fica emperrada? Eu gosto tanto de gaveta emperrada. Que coisa! Gaveta, não dá para ser personagem de romance: “ Se Gaveta não tivesse uma vida tão emperrada, feia e mórbida, poderia até ter tido um final feliz...” Não, não dá mesmo.
Mas a gaveta daria um excelente título de crônica: A gaveta! Sim, por que é preciso ter sensibilidade para descobrir as relevâncias de uma gaveta. Não é o cronista um apanhador de relevâncias? Não é o cronista um visionário da delicadeza elefantina?
Ei-la, a gaveta, diante de mim com sua boca serrada e o seu riso banguela. Só agora me dou conta do quanto um “puxador” quebrado de gaveta é capaz de ser cínico. Cínico é o riso do puxador da gaveta emperrada.
Para abrir uma gaveta emperrada há um ritual elaborado sistematicamente. Todos os movimentos devem ser precisos, frios e racionais: primeiro, puxe o pegador no sentido contrário uma vez... não deu? Segunda vez, com um pouco mais de força e pequenas sacudidelas e..., não deu? Terceira tentativa – um puxão assimétrico – como se desejasse arrebatar a gaveta. Não deu? Limpe o suor do rosto e despregue a roupa grudada nos fundilhos e tente outra vez. Não deeeu? Abra a gaveta de baixo e espalme a mão esquerda no fundo da que está emperrada forçando-a para cima, enquanto a mão direita puxa o pegador com força... e force, e sacuda, e puxe... e puxe até... até não aguentar.
Oh, Céus!, eu gosto tanto de gaveta emperrada!
Vou abandonar de uma vez por todas essa gaveta. Vou rasgar esta crônica num “delete” e vou incendiar o criado-mudo. Por amor. Por amar demais essa gaveta burra que escondeu o que eu procuro. Talvez o que eu procuro não esteja nessa gaveta. Por que estaria justo nessa gaveta emperrada se ela está emperrada desde que eu me lembro? Vou desemperrar a gaveta – vou sim – e é agora mesmo...
Tomei um copo d’água e olhei para a gaveta – ela ainda sorria cínica com seu riso ainda mais desdentado – gavetinha do meu coração – abre...!?... E o que se seguiu a partir desse instante não pode ser narrado. Juro que não. Mas quem estava rindo agora era eu: aquela gaveta vinda das Benguelas africanas só para atormentar a minha vida, estava agora escancarada e com as vísceras expostas. Eu, com uma virulência incontrolável, comecei a perscrutar em seus restos mortais aquilo que havia perdido... Mas qual? O que eu procurava, o que eu havia perdido – a minha fábula metalinguística – acabara de se dissipar com a gaveta aberta. Eu gosto mesmo é de gaveta emperrada.

Imagem (mulher-gaveta-Alison Brady)
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