segunda-feira, 2 de abril de 2012

No Lar dos Bravos e na Terra dos Livres – (Dedicada ao poeta Brasigóis Felício)

Daquela face eu nunca me esqueci. Jamais poderia, pois a face pertence a uma silhueta exuberante. Amabele. Não é esse o seu nome, ela tem um nome comprido e americanizado. Então eu, todavia, quis chamá-la de Amabele. Simples assim.

O nome me ocorreu no instante em que olhei para ela. Foi como se o amor por sua beleza fosse algo latente em mim, fazendo transbordar por entre os dentes um nome siamês: Amabele.

Amar a beleza de Amabele é obra de um segundo. Inevitável. Hipocrisia à parte, ela é sedutora exteriormente. Uma silhueta tão bela que seríamos capazes de dispensar a essência. Amabele vale, a principio, por suas voluptuosas curvas. E que lindas curvas ela tem! Curvas que encorpam uma estrutura perfeita onde a atenção do criador aos detalhes foi impecável. O simples fato de tocá-la é o suficiente para sugerir exóticas sensações.

Ah, Amabele! Ela tem um jeito nostálgico e inconfundível de ser; tem uma necessidade medonha de liberdade e subversão. Amabele é o meu avesso e, por Cristo, é exatamente isso o que mais me fascina nela. Até mesmo o seu ronco sincopado é música aos meus ouvidos. Sim, ela é perfeita.

Esse flerte começou em meados de 1998 quando fui, de férias, à Minnesota, que fica do outro lado do Mississipi. O tio Arthur prometera me apresentar a Amabele se eu concordasse em ouvir um de seus discursos sobre a grandeza americana. Ele vivia em um barracão engraçado com três metros de largura por nove metros de comprimento, onde se reunia com o amigo Willian para idealizarem coisas dessa grandeza. Tio Arthur gostava de falar da importância da tradição de uma cultura que difundia os reais valores da liberdade.

Somava aos seus discursos a fama e a tradição da família “Amabele”, e dizia o que significava esse conceito no Lar dos Bravos e na Terra dos Livres. (Home of the brave and land of the free). Eu não queria entender nada daquilo, mas pude conceber e sentir esse ideal pulsando nas minhas veias, quando finalmente encontrei-me com Amabele.

Logo de cara, ela, com sua natureza subversiva, me convidou para dar uma volta. Foi, sem duvida alguma, a volta mais longa que dei em minha vida. Amabele tinha em suas bolsas de viagem apenas um violão, umas folhas de papel amassadas, uma caneta e o diário do Chê. Eu levei comigo, minha cabeça, e nela, nada. Por dias, Amabele e eu percorremos as intermináveis ruas do Texas na companhia do vento, e com pequenas paradas perto do fogo, para que eu pudesse tecer essas linhas nos papéis amassados que Amabele escondia na bolsa.

Depois fomos nos isolar numa praia da Califórnia e, feito burguesas respeitáveis, nos sentamos na areia e pintamos as estrelas. As azuis ficaram lado a lado com as negras e as vermelhas permaneciam na mais notável desordem, como se estas escolhas se devessem apenas à nossa vontade naquele momento. Eu pintei estrelas, escrevi versos para Amabele, enquanto o luar banhava de luz seu arquétipo perfeito.

Cansada, mas não enjoada da viagem, me joguei horizontalmente na margem perpendicular do Pacífico e desejei que Che Guevara estivesse ali, só para eu matá-lo de inveja por não ter tido a chance de fazer seu diário com a minha Amabele.

Minha fantástica motocicleta Amabele, registrada com o comprido nome: Electra Gride Classic de Willian Harley e Arthur Davidson. (Crônica dedicada ao poeta Brasigóis Felício – também amante das motocicletas)
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