segunda-feira, 12 de março de 2012

O homem de uma mulher só

Há dentro em mim um estranho, a quem chamo de eu-autêntico, porque possuo um modo peculiar de vida: sou um homem de uma mulher só. Meus amigos estão sempre me convidando para sair por aí, jogar conversa fora, beber a noite inteira, dançar e fazer outras coisas que não quero revelar. Mas eu sempre respondo a mesma coisa: sou um homem de uma mulher só.
O nome dela é Bárbara e certamente ela é a mulher mais linda que meus olhos já viram. Bárbara, Bárbara! Meu Deus, como ela é Bárbara! Não Bárbara no sentido de barbárie, mas no sentido de sensacional, dinâmica, criativa e inteligente. Eu tenho por ela o maior amor do mundo. Por ela é que acordo todas as manhãs, por ela eu daria a minha vida. Não há no mundo mulher mais atraente, para mim, do que Bárbara.
Outro dia sua melhor amiga, a Cristina, mulherão, estilo Juliana Paes, veio falar comigo. Estávamos na beira da piscina, quando a aspirante a Paes me fez um convite empolgante. Disse-me que sua família tem uma casa em Angra e que poderíamos ir para lá no final de semana. Eu respirei fundo, olhando de soslaio aquele corpo curvilíneo, mas, sério, respondi que não poderíamos ir para Angra, porque sou um homem de uma mulher só.
Confesso que, mesmo amando Bárbara loucamente, às vezes sinto-me cansado de ser esse homem de uma mulher só e tenho vontade ou, sei lá, necessidade, de sair por aí, conhecer outras pessoas, sorrir com elas, querer e ser querido, beijar e ser beijado. Congratular... sim, eu adoraria! Mas, que pena! Sou um homem de uma mulher só...
O problema maior é que nesses últimos dias eu me sinto um girassol: dependente de luz e de calor humano, dependente de encantamento. Sinto-me estranho e muito mais só! Embora minha mente esteja repleta de pensamentos e sentimentos e desejos de fugir, eu simplesmente não consigo me mover além de uma caminhada no parque à noite.
Ontem, as ruas estavam molhadas, porque chovera o dia inteiro, presenteando a noite com lindas estrelas e um clima de agradável frescor. Caminhei sem destino. Pensava nos meus amigos, que naquela hora estavam se divertindo, certamente com uma linda mulher do lado, em um pub qualquer, ouvindo boa música e sorrindo. Desejei estar com meus amigos. Pensei em Cristina em Angra e desejei estar lá também.
Num repente, lembrei-me de Bárbara e visualizei a razão de ser um homem de uma mulher só...
Voltei para casa com uma decisão em mente.  Encontraria Bárbara e lhe diria que eu não estou satisfeito com essa situação, que não quero mais ser um homem de uma mulher só.
Então, entrei devagar, passo a passo, com cuidado. Não queria assustá-la. Subi as escadas, quase flutuando, e vi a porta do quarto semiaberta, pude vê-la sentada frente ao computador diante de uma meia página em branco: dando-lhe vida, harmonia, musicalidade e cores em Arial 12.
Pensei: - Não, Bárbara não é só. Definitivamente, ela não é só.  Ela tem a literatura por companhia. E eu, diante de sua solidão, quedo-me e a reverencio!
(imagem do google imagens)
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4 comentários:

  1. Mais uma vez, Clara nos brinda com sua criatividade aparentemente sem limites: usando o recurso da polissemia, faz-nos crer em um sentido da palavra "só" (apenas, somente), para, no final de seu texto, mostrar que sempre a usara em outra acepção (sozinha, solitária). Teria a escritora-personagem quanto da escritora-criadora? Semiautobiográfico esse escrito, ou este leitor está viajando na maionese light? De qualquer maneira, a multiplicidade de interpretações é a maior característica de um texto inteligente. Como este. Insaciáveis, aguardemos mais.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Bárbaro, Clara! Fascinante!
    É impressionante a curiosidade que surgiu ao ler o seu texto.
    Criatividade imprescindível!

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  4. Parabens pelo texto.
    Foi expressado a dificuldade de dizer não para algo que todos dizem sim... rspeitando a sinceridade de um sentimento.

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