segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Peletizada Semente

Um ruído surdo, como o das rodas de uma carreta no pó da estrada, acordou os ouvidos mais uma vez. O terreno é uma monotonia deprimente, formado por grandes penhascos e arbustos baixos cobertos pela fuligem e esmagados pelas circunstâncias. O chão é seco e rugoso e não há água em parte alguma. A paisagem é desoladora, sem referências, tudo igual, parece estar sempre parada no mesmo lugar, como nos pesadelos. Por mais que se avance em qualquer direção, os pés continuam irremediavelmente no mesmo cenário e nem os olhos mais experientes do mundo seriam capazes de enxergar uma gema em meio a tantos cascalhos.
Ora, os meus ouvidos não estão acostumados ao exagero de sons e as minhas vistas não se conformam com a vernizagem cinza desse lugar de onde nem mesmo Renoir seria capaz de extrair pitoresca beleza. Tampouco Eça de Queiroz, em sua indelével capacidade de romancear sítios, conseguiria encontrar algo que lhe valesse instantes de inspiração por entre todos esses edifícios de minha ainda infante cidade. Certamente Eça diria: "... e os próprios muros, tornados cor de fuligem, se mostram carrancudos...".

Igual a uma semente peletizada é a romancista vivendo dentro desses coesos blocos de concreto – penhascos ruidosos – cortiços de luxo em ascensão ao declínio do espírito artístico e da qualidade de vida.

Nem Sebastian Bach anunciando a Ave Maria, nem mesmo Lispector e Allende, tampouco Quintana, livra-me da ausência de amplitude “pós-persianas” das minhas janelas.

Por Cristo, por que não me livro dessa massa uniforme que me envolve como se uma industrial semente eu fosse? A semente não pode escolher onde será lançada, não poderá escolher como e quando romperá o pélete liso e seco que a transforma numa circunferência prática ao meio. A semente não pode – Oh, céus, eu também não?

Sonhei que podia e rompi o solo da Belle Époque e abri minhas flores em Art Nouveau ao lado de Rachilde, Gyp, Séverine, Marcelle Tinayre, Colette Yver, Gabrielle Réval e Anna De Noailles, mulheres que ousaram e produziam romances, gênero que até então constituía o monopólio privilegiado dos escritores do sexo masculino... Até então?

Essa minha falta de vontade de escrever talvez não seja culpa dos penhascos ruidosos... Talvez seja mesmo culpa da semente que ainda não conquistou o respeito como romancista, pois o contexto pouco mudou desde a Belle Époque. Talvez o que realmente incomode é o fato de romper o talento dentro dessa maciça circunferência antropológica cujo broto não é gema d'ouro, mas também não é cascalho... Oh, céus, o que será?
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