quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ela é louca por mim

Um homem ali em sua cadeira de rodas tenta, com as mãos, fazer girar o fulcro de seu transporte. Pernas amputadas vestidas num jeans encardido e surrado. Em sua boca resta-lhe meia dúzia de dentes. Ele sorri e com suas fortes mãos senta a pua nas rodas.
               
Eu, ali, bem próxima do cadeirante, com a cabeça emoldurada por uma touca plástica, dessas que usamos para selecionar os fios de cabelo para depois tingi-los. Enquanto olho para o homem através do espelho do salão, por alguns instantes reflito sobre a vida dele e... logo, Ela me vem à mente com sua mania de impor presença. Ela está sempre comigo... Todos os dias, desde 2002. Vivenciamos uma relação simbiótica.
               
Ela tem um nome engraçado... Faz um chiadinho no meio da pronúncia! Mas eu não gosto de chamá-la pelo nome e por hora apresento-a tão somente: “Ela”. Há em mim um desejo latente de me livrar dessa relação que, embora simbiótica, traz consigo tantos dissabores. Pelo menos para mim. Acho.
               
Noite passada, ela me fez uma surpresa: ora, eu odeio surpresas, mas qual? Ela não se importa com o que eu sinta. Estigma próprio dos seres parasitas. Eu sei que não devia falar assim, afinal já estamos juntas há um bom tempo, mas eu não me adaptei à dependência que Ela nutre por minha pessoa... Por Cristo! Ela me dá nos nervos...
               
Olho o moço em sua cadeira de rodas: ele está voltando da feira. Sozinho? Sim. Sozinho ele gira o suporte das rodas, sozinho ele sustenta as sacolas de frutas em seu colo. As sacolas trazem as frutas recusadas pelos clientes – “melhor dar ao cadeirante do que desperdiçar” – pensou, quem sabe, o fruteiro.
               
Enquanto navego absorta em meus pensamentos, Ela me desperta com uma cutucada dolorosa na espinha. Mania besta que Ela tem! Respiro fundo, me ajeito na cadeira e fecho os olhos para esquecer de que Ela está ali. O cabeleireiro puxa os fios do meu cabelo com uma agulha de crochê. Sinto dor! Não me importo! Essa dor é boa. A manicura ‘alicateia’ minha cutícula e, sem querer, fere-me a carne do dedo mínimo... Sinto dor! Não me importo. Essa dor também é boa.
               
Continuo de olhos fechados para não vislumbrar a presença dela, mas sei que Ela está ali confabulando consigo mesma artimanhas para levar-me à loucura. Falei da surpresa? Apenas mencionei, acredito. Sim, acabo de reler o quarto parágrafo onde digo que Ela não se importa com os meus sentimentos. E não se importa mesmo. O que importa para Ela é tão somente estar ligada a mim, e me possuir, ter-me sob seu domínio. Eu, totalmente entregue ao seu querer...
               
O cadeirante tenta com sofreguidão subir a rampa disforme da calçada: “Será que não há pessoa alguma que possa ajudá-lo?” –, digo em voz alta, chamando a atenção do cabeleireiro... Ele olha, a manicura também olha... A cadeira de rodas balança entre os buracos e o homem cai no chão como se uma jaca madura fosse.
               
O cabeleireiro corre, a manicura se levanta e grita por socorro. Eu, num ímpeto, levanto-me também, disposta a ajudar o cadeirante. Mas como? Ela me traz com virulência de volta à cadeira e eu me lembro da surpresa da noite anterior. Tinha que obedecê-la, pois com Ela fui para cama e em seus braços estive febril a noite inteira. Na verdade, não é surpresa alguma o fato de Ela sempre me levar para cama. Isso acontece desde 2002, já disse.
               
Presa à cadeira, senti-me inútil e covarde ao ver o cadeirante esparramado tal e qual suas frutas na sarjeta. O cabeleireiro o pôs de volta em seu transporte e o homem sorriu a mostrar seus poucos dentes. O sorriso mais lindo que a boca humana pode dar: o sorriso de gratidão. Eu? Eu sorri para aquela alma gigante e depois saí de meu estado contingente e fui abraçá-lo, sem dar importância à touca na cabeça e às malditas e dolorosas cutucadas dessa “Lombodorsocervical.”


 
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Um comentário:

  1. Clara, nas linhas a revelação que envolve a alma em finos gestos. Maravilhoso! (Weder Soares)
    http://retoquesdalma.blogspot.com/

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