segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Comecei cedo...

Imagem do google
Foi naquela noite de tempestade, que ao passar pelo corredor em direção ao palácio, ouvi que alguém mencionara o meu nome. Alguém na sala de visitas.

O mês, não posso precisar, tampouco o dia, mas o ano, era 1989. Era uma noite de tempestade, num dia qualquer de 1989 em que alguém falava de minha pessoa com outra pessoa na sala.

Se a memória não me fornece imagens erradas, lembro-me que eu morava em uma casa, que aos meus olhos infantes era imensa. Tinha um corredor imenso, guarnecido com quartos em ambos os lados que mais pareciam bocas escancaradas à espera de quem pudessem tragar. O meu quarto ficava no final do corredor: era uma espécie de olho que eu insistia em deixar fechado de medo das bocas. O meu quarto era o fim do mundo visto de fora para dentro, mas de dentro para fora, quando a porta estava aberta, o mundo não tinha fim. O mundo visto daquele prisma era dantesco!

Eu não gostava do meu quarto. Tinha pedido outro, aquele perto da sala de estar e com uma janela para o alpendre. Dali se podia ouvir pessoas conversando na rua, crianças fazendo algazarras e as brigas de cães e gatos. Aquele era o palácio que morava dentro da casa. Eu pedi para morar no palácio, mas aposentaram-me no olho da masmorra. Pedi o palácio: ganhei a masmorra: não reclamei.

Naquela noite chuvosa de 1989, eu fugira da masmorra para explorar os encantos do palácio. Ali havia um tesouro guardado na gaveta do criado-mudo. Eu abria a gaveta devagar e retirava o tesouro com cuidado. Depois, sentada na cama explorava-o com o encantamento de um gato diante de um aquário. Os sons da rua invadiam o palácio pelos vãos da janela e enchia o ambiente com as cores, o perfume e as expressões das gentes... Mas naquela noite em que eu ia visitar meu tesouro, ouvi alguém citar o meu nome. Escondi atrás da estátua de leão que ficava entre o corredor e a porta que levava à sala:

- Ela precisa parar com isso...

- Ela é só uma criança. Criança faz essas coisas.

- Já disse, não é normal. Se ela fizesse essas asneiras apenas em seu quarto, mas olhe só para essa casa. Não há um único espaço em que ela não tenha deixado essas porcarias.

- Coisa de criança. Logo passa.

- E até que passe? Será que terei de trancar o meu quarto para que ela não mexa nas minhas coisas e não suje todas as paredes da casa?

- Darei um jeito. Amanhã a levarei num psicólogo.

No outro dia, antes que todos acordassem, eu lavei as paredes, o roda-pé, os móveis de madeira. Tentei limpar as páginas dos livros da estante e até da Bíblia Sagrada, mas isso fora inútil, pois as folhas se rasgaram, aumentando assim as chances da suposta visita ao psicólogo.

Quando os dormentes levantaram, eu estava sentada quieta, meditando na minha lição de casa: nunca mais roube as canetas de seu irmão para escrever asneiras!

Vinte e um anos se passaram desde então e eu nunca mais roubei canetas, nem sujei as paredes rabiscando-as, mas quanto ao fato de fazer anotações nos livros e/ou parar de escrever asneiras, isso lá é outra história.

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Um comentário:

  1. ... que venha "outras asneiras!!!"
    Foi um bela descoberta minha ... muito obrigado

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