sábado, 22 de janeiro de 2011

Poemas

É madrugada
quase não dormi
meu corpo sem dono
na solidão serpenteia
em sua razão de ser apenas corpo

meus lábios "carmim"
anseiam por seus versos
o mais rude deles
aquele em forma de verbo
que fez -me carne e nua

Peco? Sim deveras,
mas o que é a vida, senão
a doce tortura de se enganar
que existe alguém que nos mostra
que o “sol é cheiroso”
e as imagens são regalos da madrugada
penduradas na parede da imaginação.
Conjeturas de nós dois...conjeturas, apenas.




Mar Aceso

Minha âncora está cravada na areia.
                                                  Na areia, cravada?
                 Meu calado feito de madeira outra...
                                                          Proa - presa no cais.
                                                                           Calado - Preso? No cais?
Minhas velas morimbundas rasgam o vento...
             Trapos ventaneiros
                                         Areia de nevoa...
                                                         Vento rasgado...
                                                                  Lona de sebo...
                                                                                          Cais de parafina...
                                      A[s]cendem um mar dentro de mim.

Dlinn... Dlon!!!!


Escovei rapidamente os cabelos e
ergui os seios num sutiã de aro.
Ombros eretos e o abdôme
comprimido.
Passos dançantes e na face um
largo sorriso:
"É ele" - Pensei.
Abri a porta devagar - não era!
O sorriso se desfez
e os ombros se despencaram junto aos seios.


O olho do espelho

Ainda não sei qual é a expressão que me flerta 
quando miro minha face no espelho; 
desconheço no reflexo esse olho que me enxerga, 
que me escruta com a passiva ira dos tempos;
 insolente na sombra dos rastros de um vinco. 
Com essa mão que explora traços invisíveis na deslembrança de um rosto infante. Chispas de fuligem me alcançam a mente? 
Ou são os meus cabelos que agora nascem prateados? 
Perdi a superfície vã das coisas simples na esteira da infância, 
ou em puberdade senil se encontra o olho branco desse espelho?  


Amor Virtual
- Seus dentes são pétalas, amor,
e sua cofia de cetim roçam meus ouvidos
numa ternura singular.
Suas mãos de ervas finas,
deixa-me prontos os lençóis de musgos escardeados.
Vou desconectar agora rei... Saia, mas antes,
coloque uma lanterna chinesa em minha cabeceira,
na minha alma uma constelação
e aguarde, até a hora nona do dia vindouro.
Por agora deixe-me sozinha
e saia para ouvir o romper dos brotos de bambu,
de onde um pássaro te traça uns compassos,
pegue suas penas, enfeite meus versos... e saia.
Para que eu te esqueça,
há um encargo:
se me chamar novamente nesse afã digital,
dir-te-ei... saia e incendiarei a pobre lanterna chinesa,
pois sou apenas uma colcha de retalhos
de uma virtual folha de papel...
Vou desconectar agora, rei.
Olho a lixeira: repleta dos vazios de nos dois
pobre tela, pobres versos,
pobres poetas...lixo cibernético.
Olho outra vez na lixeira
"Deseja restaurar"?
penso... penso...penso...
depois – clico – enter...



Opaco Reflexo

- Homem dos montes colossais,
saiba que do lado de cá onde eu caí
há um espelho que vez ou outra me reflete o lado de lá.
vez ou outra(no espelho) uma fenda se abre,
mas ela está fechada agora
e para o lado de lá não há acesso,
porque toda vez que eu vou a fenda some.
As janelas se desfiguram na parede,
a palavra cede antes que a boca grite,
os olhos abertos, mas não acordados sonham em partir,
a fenda está fechada.
Agora não há um jeito:
eu tenho que ficar do lado de dentro... fora da fenda
longe de lá... perto do fim,
distante dos sonhos... presente apenas nesse opaco reflexo.
(do livro: O oleiro cego e a estátua de sal - prelo)

Devorada pelo mar
... e se for, depois de tudo,
apenas passos de rastros?
não valeu ter apenas sido?
quedo-me pois agora,
e tão somente amanhã,
para mim amanhecerá,
porque hoje sou toda cio
e meus dedos não me representam no verbo
mesmo porque, menino, não sou palavra
sou ato e se me queres saber verdade,
dou-lhe por inteiro o meu afã,
porque já não possuo ninguém como dono,
sou de mim, de mim apenas...
lançada ao mar por vontade própria.


Carapaça – por Clara Dawn
ah, amor, na hora e local marcado  - não deu
uma peleja organizada
desequilíbrio emocional disfarçado de estresse
pensamentos divergentes do momento planejado
na boca seca tal qual farelo de biscoito

preencha-me ó não o quê
dê-me uma carapaça sem corpo, sem alma
devora-me como se ave de rapina fosse
olhando-me com ganas de grande fome
                                                            e depois desapareça.

Para Doramor

Meu amor, ontem fui para cama muito cedo, 
precisava da solidão para suspirar em paz. 
O riso escapulia de um lado da boca sempre que as minhas lembranças 
traziam-me a ternura de nossos beijos e aí o suspiro fora inevitável.  


É que quando estou do seu lado, eu adolesço  
e eu me adoro adolescida de encantamento. 
E como eu me adoro desde que o seu olhar esteja em mim pousado feito pássaro na floreira. 
Ah, beija-flor, beija, a flor!?

Sonhei outra vez com você 
e sua presença foi tão real que pude senti-la mesma acordada. 
Enquanto abraçava-me, suas mãos passeavam pelo meu corpo e sua voz disse ao pé do ouvido: 
não é o corpo mais profano do que a mente. 
A mente realiza coisas que o corpo jamais ousaria... 

Então acordei acesa por seus beijos, 
possuída por seu olhar e sua respiração sôfrega diante das perspectivas.
Eu não tenho  medo de onde isso vai nos levar... 
É como um sonho inevitável. 

E sei que é reciproco. 
Talvez jamais tenhamos a chance de irmos além do que a vida nos permitiu. 
Mas não importa a realidade, pois somos como um regalo divino, 
um para o outro, brindemos-nos pelo privilégio de, redivivos, suspirarmos intimamente.

Há tantos que nem isso tem
Plenifica-me um  momento ao seu lado sem maior querer, 
pois  não se pode perder o que é  leve e irrepetível. 
                                                                        Gloria humana. 
Fico pasma de poder sentir sua alma, com toda sua alvura e encanto, 
se harmonizando com a minha.
Não quero me distrair um instante apenas longe de seus afetos. 
Talvez isto seja o amor  ao máximo do que se  pode experimentar na vida.

Feliz por lhe ver e lhe amar... Assim estive. 
Tal qual pode me ver. 
Mas, ai, quando sozinhos... 
Eu deitarei em seu abraço e você beijará os meus olhos. 
                                                                                   E depois... 
Ahhh, como desejo esse depois, 
mas o que  resta-me é este agora repleto de adeus. 

Primavera de 2010. 

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