segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A deusa equídea

Era uma cinzenta manhã de sábado. Daquelas manhãs de inverno, em que poucos se aventuram aos rituais fitness das academias de ginástica. Mas naquele sábado, enquanto fazia o meu desjejum na lanchonete da academia, ouvi um diálogo interessante entre um poeta e um pintor. A princípio fiquei na dúvida de quem era quem. Talvez, o leitor percebendo a história de outro prisma, possa identificá-los.

- Ela é bonita como um daqueles cavalos de Paolo Uccello. O Corcel negro com as patas dianteiras levantadas... Um lindo cavalo!

- Um cavalo? Você disse que ela é bonita como um cavalo? É a primeira vez que ouço um homem dizer isso. Equivalência esquisita à beleza feminina. Não poderia ao menos compará-la a uma potranca ou uma gazela? Uma gazela... Soa bonito!

- Não! Claro que não. Olhe para ela, com sua roupa preta de ginástica, malhando os bíceps. Meu Deus! Ela é linda, tal qual o corcel d’A Batalha de São Romano de Uccello.

- Conheço Uccello: pintor renascentista italiano. Você está comparando uma mulher usando malha preta a um cavalo de batalha? Você acha que aquela mulher se parece com um bucéfalo?

- Bucéfalo!? Esqueça as palavras e olhe para ela, veja-a... com selvagem altivez e elegância, exalando de seus poros o fumo favorito dos deuses. Pitoresca! Sim, uma deusa equídea possante sem as rédeas do jeans e nem as selas dos bastões coloridos... nua de artifícios, como uma parede sem quadros. Vazia? Jamais, segura de si. Beleza intrépida que me transgride com causa às margens de um rio de mitológicas e perfeitas proporções. Pura magia equestre em bruma voluptuosa...

- Conseguiu ver isso ao olhar para ela? Ela não se parece com quadrúpede. Lembra mais uma louva-a-deus em posição de clemência, segurando aqueles pesos em genuflexão. Uma louva-a-deus é divinal, como deve ser a essência de uma mulher, você não acha? Uma louva-a-deus toda suada? Olhando-a não posso. Mas fecho os olhos e sinto o cheiro dos cabelos molhados de suor... e... não me inspira. O cheiro de suor numa mulher não é atraente.

- Não é atraente? É tão atraente que eu posso cavalgar dentro desse esplêndido quadro de Uccello. Minha nossa! Como ela é suave! Um corpo ao vento trotando na esteira com seus cascos emborrachados, me guiando em estado de nirvana, como se eu fosse um pastor catraio que se perdeu do rebanho, ao estagnar-se diante de uma borboleta multicor.

- Prefiro imaginá-la vestida de camponesa, embalando em seus braços um cesto repleto de frutos... vestido singelo, cabelos soltos a embaraçar no vento e um olhar dotado de malícia.

- Não pode comparar uma mulher usando roupas de ginástica a uma camponesa.

- Deveria compará-la a um cavalo então?

- Comparar, não. Mensurar a beleza de ambos, sim.

- Comparar, mensurar, cavalo, camponesa... é preciso ter cuidado com o uso das palavras. Mulheres gostam de elogios, mas se você disser a uma mulher que ela se parece com um cavalo, vai levar um monte de coices.

-Talvez você tenha razão e ela prefira equivaler-se a uma “mulher fruta” ao invés de um corcel... Não ouso nem perguntar a ela e você ousaria?


(Publicada no Diário da Manhã - DM-Revista - Goiânia - Goiás em 22/11/2010)
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7 comentários:

  1. Uai!
    Cadê o comentário que pus aqui? hehehehe

    Bem, vou tentar repetir: adorei esta crônica! Tem-se em conta, dizem os artistas plásticos, que o cavalo é uma das mais belas composições físicas dentre todos os animais. E costumamos, mesmo, dizer "potranca" a uma mulher de corpo belo e elegante na postura - e potranca é feminino de potro, cavalo. Não é mesmo justo chamar cavalo a uma bela mulher, porque a palavra, além de masculina, expressa a força física do animal, enquanto potranca refere-se à postura física.
    Clara Dawn sabe muito bem definir a alma das palavras; é uma mulher com muito, muito conteúdo dentro da belíssima cabeça.

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  2. A tua crônica, como sempre, ficou ótima. Equilibrada, tinhosa. Sempre no limiar entre o "selvagem" e o "silvestre". É isso mesmo? Ou não? Brincasdeira, apenas. Na verdade você consegue ser, ao mesmo tempo, erudita e popular.
    Abraços,
    Dionisio.

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  3. Olá, Clara. Li sua página sobre a Deusa equídea. Na verdade os homens e também nós, mulheres, usamos de comparações à vezes um tanto estapafúrdias, mas que revelam, ou melhor, descortinam uma realidade. Depende dos olhos de quem vê. De qualquer modo echei a sua, esteticamente falando, bem adequada. Um dos animais mais belos, para mim, é o cavalo. E veja bem. O cão é considerado o melhor amigo do homem, mas se você chamar alguém de cachorro. ele parte para a briga. Agora, achar que uma mulher se parece com uma cobra, talvez pos seus movimentos sinuosos, mesmo esta sendo um bicho mortífero, é um dos maiores elogios. Vá se entender a raça humana.
    Renovados parabéns.
    Helena Sebba

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  4. Li, com especial atenção, seu texto de hoje e o adorei. Vc está cada vez melhor. Sou fã de carteirinha da escritora e da mulher que vc é. Simpática, educada e de linguagem fácil, atraente. E mais, vc sabe escolher o tema para nos premiar às segundas feiras. Parabens
    Alírio.

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  5. Clara Dawn,
    Quer saber sinceramente? Os dois iam trotando muito bem, embora um deles logo, logo, começa a mancar... mas o outro firme, desejoso, erotizado, resiste, até certo ponto, à grosseria do amigo, à cegueira da inibição, à grosseria estética, ao preconceito... mas não consegue ir muito além. Ao final, interrompidos pelo enfadonho que contaminou àquele que marchava tão bravamente, caem do cavalo! Que final triste! Nada devia se perguntar a ela. Ela não iria responder, não precisava falar... a sua atraente e excitante cavalar beleza e gostosura já gritava a galope.
    Quer saber? Esses dois amigos têem mais é que morrer. Abs. Ítalo Campos.

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  6. Olá, cronista das novidades, eu cá, escrevendo de vez em quando, movimentando preguiçosamente alguns pontos do Brasil com a minha literatura fraca (sem querer elogios!!!!).

    Essa tendencia da comparação entre os dotes humanos e os dos bichos é um verdadeiro celeiro de inspiração. Já ouvi muito, de jovens e até velhos do campo:
    __ Êta bezerra ajeitada (deixando escapar um bestialismo inocente de pedafilia, já que a bezerra significa uma menina, uma criança ainda, não pronta para o sexo).

    Meu pai nonagenário, que viveu a vida inteira só pensando em sexo, um dia desses me soltou uma pérola, acontecida quando ele era adolescente, lá pelos idos de 1930 e tantos, no sertão, na fazenda de um parente antigo dele, muito brabo e ignorante. Um compadre desse parente levou uma potra nova (égua ainda virgem) para acasalar com um cavalo dele, pastor, de boa raça, o compadre tinha ido para a roça, a comadre resolveu ajudar o compadre, foi ao pasto, trouxe o pastor, colocou-o no curral, mais que depressa o equino partiu para cima da bela donzela equina, que correu, escoceiou-o, até que o "mal-feito" começou a acontecer, entre relinchos, coices, sangue escorrendo, etc. O compadre teve forte ereção, trêmulo, se dirigiu à comadre:
    __ Vamo imitá os bichos tamém?
    __ Compade, espera meu marido chegá, pede consentimento, se ele deixá... viramos bichos também!!!!!!!!!!!!!
    O compadre percebeu que a comadre era mulher séria, sabia que se tocasse nesse assunto com o compadre seria um homem morto, morreria antes mesmo de terminar as justificativas ...
    __ Comade, vosmecê me perdoa a falta de respeito. Por favor, não toque nesse assunto com o compade, quero apenas que a minha potrinha seja bem enxertada!

    Isso, essa estória, é um brinde, uma sobremesa para a sua bela crônica. Tchau, mocinha. Antonio Vilela.

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  7. Ah as coisas belas! Adoro admirá-las.
    As mulheres, é claro. Sempre. E os bons textos, com prazer similar.
    Não sei se encontraria algo para "mensurar as belezas". Pelo que imaginei dessa deusa, por certo ficaria sem palavras (bom seria se mantivesse o juízo).
    Como sempre, Clara, outro texto delicioso.
    Obrigado

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