quarta-feira, 28 de julho de 2010

Que sujeito é esse?

Passou na casa para regar as plantas e alimentar os gatos. Não é verdade que não goste dos gatos, mas prefere mesmo os cachorros. Cães abanam o rabo e parecem sorrir quando vê o dono. São manipuláveis: você briga com um cão e ele abaixa as orelhas e sai com o rabo entre as pernas. Mas os gatos não. Não importa se você está brigando ou tecendo-lhe elogios.

Os gatos possuem uma expressão constante de deboche e por mais que você tente, eles jamais seguirão suas regras, pois possuem uma natureza autêntica e controlada. As ofensas não lhes fazem mover um milímetro sequer e aos elogios eles respondem com cara de navio ancorado. Indiferentes!

Ali, não se podia criar cães, por isso a opção por gatos e plantas.
Gostava das plantas! De todas elas e tinha um carinho especial pelas Gerberas – as inocentes margaridas, cuja lenda relata ser o alimento dado aos príncipes por uma fada, para que estes jamais percam a pureza.

Gostava muito das Gerberas e de sua lenda. Mas, gostava mesmo, era dos bonsais. Havia pelo menos uns vinte de todos os tipos espalhados ao longo do jardim: com tronco único e ereto, tronco projetado para baixo, tronco composto e aqueles com as raízes expostas... Bunjins; Sokans; Kengais...

Ah! Aquele Kengai-Cascata era seu favorito! O ramo principal adestrado para crescer verticalmente e depois ser direcionado para baixo. A apresentação final é um bonsai “descaído”, abaixo do bordo do vaso, o que lhe confere o ar de uma árvore de montanha que suporta condições climatéricas adversas como a neve e/ou vento forte.

Passava dezenas de minutos contemplando o Kengai, numa fascinação tamanha, que de seus olhos saiam um brilho contagiante. Coisa linda de se ver essas arvorezinhas de origem chinesa! Não há dúvida de que elas, assim como os cães, são maleáveis essencialmente. É mais fácil lidar com coisas flexíveis e projetadas para obedecer. Por isso prefere os cachorros e os bonsais. Mas era obrigado a conviver com os esnobes felinos.

Da sacada, vislumbrou a cidade de Londres se descortinar por entre os primeiros raios do sol. O horizonte outrora dominado pelo Big Ben e pela Ponte de Londres, agora se rende ao London Millenium – uma roda-gigante ultramoderna com 150 metros de altura, de onde se pode deslumbrar com as visões da cidade. Aspirou fundo o ar daquele ambiente e sentiu vontade de pisar as margens arejadas do rio Tâmisa.

Caminhou até a sala para pegar as chaves do carro e visualizou as correspondências que jaziam sobre a mesa de centro, mas não ousou abri-las. Num repente, viu as fotos da família rotacionar num desses porta – retratos virtuais, cujas imagens são transmitidas por meio de um Pendrive. Pensou em ficar um pouco mais para rir das travessuras dos adolescentes e das poses ridículas a que se prestam os modelos nada convencionais. Desistiu ao ler no rodapé: imagem 76 de 1000.

Enquanto caminhava em direção a saída, seus olhos cor de avelã viram a luz vermelha do aparelho de telefone piscando. Aproximou-se e constatou que havia vários recados na caixa postal, pensou em ouvi-los, mas não o fez. Trancou todas as portas muito bem, sabendo de antemão que as tigelas e a plantas logo, logo estariam secas.

Entrou no Porsche... Um Java White Pearl, tração nas quatro rodas, transmissão padrão com lâmpadas de polipropileno de alta intensidade nos faróis; grades de proteção nas lanternas traseiras e volante à direita. Abanou algumas plumas do ar que insistiam em deitar-se sobre suas vestes pretas, olhou-se no espelho retrovisor interno e ajeitou o quepe. Acionou o comando de voz, ordenando a maquina que tocasse a sua melodia favorita: "Chega de Saudade" na inesquecível voz de João Gilberto. A canção lhe faz esquecer de que, assim como os bonsais, é também uma criatura adestrada em terras estranhas.

(Publicado no Jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em 26/07/2010)
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Um comentário:

  1. Gostei da sua narrativa. Você escreve muito bem. Se quiser me visitar: http://pensamentosdedenise.blogspot.com/e http://perolainfantil.blogspot.com/

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